Na
rua estreita onde o vento parecia escolher quem tocava, havia uma porta que
ninguém se lembrava de ter visto antes. Não era antiga nem nova — apenas estava
ali, encaixada no prédio como se tivesse chegado por engano. A madeira tinha um
tom escuro, quase negro, e refletia a luz da manhã de um modo que não combinava
com o resto da rua. As pessoas passavam, olhavam de relance, e seguiam. Mas
havia quem parasse. E esses, por razões que nunca eram claras, sentiam a porta
respirar.
Quem
se detinha diante da porta não o fazia por curiosidade, mas por uma espécie de
hesitação interior, como se algo os chamasse sem voz. Alguns aproximavam a mão
da madeira escura e sentiam um leve calor, tímido, que não combinava com uma
manhã fria. Outros recuavam antes de tocar, convencidos de que a porta os
observava. E havia ainda quem a tentasse abrir, mas para esses, ela permanecia
imóvel, silenciosa, absolutamente fechada.
Numa
dessas manhãs, alguém parou mais tempo do que o habitual. Era uma mulher de
passos cautelosos, que trazia no olhar a fadiga de quem já viu demasiadas
coincidências na vida. Ficou imóvel diante da porta, como se esperasse que ela
lhe desse um sinal. A rua parecia suspensa, o vento recuou, e por um instante a
madeira sombria brilhou com uma intensidade quase familiar. A mulher respirou
fundo, aproximou a mão, e a porta, pela primeira vez, pareceu inclinar-se para
ela.
Manteve
a mão suspensa, sem tocar, como se soubesse que o gesto teria consequências. A
porta, imóvel para todos os outros, parecia agora ajustar-se à sua presença, impercetivelmente,
como um animal que reconhece um cheiro antigo. O reluzir na madeira tornou-se
mais profundo, e a rua, antes indiferente, recolheu-se num silêncio atento. Por
um instante, a mulher sentiu que bastaria um movimento mínimo para que algo
acontecesse — não uma abertura, mas uma espécie de passagem que não precisava
de se ver para existir.
Recuou
um passo, como se a porta lhe tivesse revelado algo que não precisava de compreender.
O brilho desvaneceu-se devagar, retomando a madeira o tom opaco que levava a
que todos a ignorassem. A rua retomou o movimento, indiferente ao que não
acontecera. A mulher afastou-se sem olhar para trás, certa apenas de uma coisa:
a porta abrira-se, mas não para ela.