Existem tradições que se perpetuam, sem que nos interroguemos como surgiram. Foi nesta dinâmica que me detive diante do calendário, questionando-me como surgiu a associação do dia 1 de abril à prática da mentira e do engano, de forma brincalhona, nesta data. Resolvi investigar, e o resultado surpreendente é o que a seguir partilho convosco.
1. A
mudança do calendário — a explicação mais difundida
A teoria mais
conhecida situa a origem em França, no século XVI, quando o rei Carlos IX
adotou o Calendário Gregoriano em 1564. Até então, o Ano Novo era celebrado
entre 25 de março e 1 de abril. Quando a data oficial passou para 1 de janeiro,
muitos continuaram a festejar em abril, por hábito, resistência ou simples
desconhecimento. Essas pessoas tornaram‑se alvo de brincadeiras: recebiam
convites falsos, presentes absurdos ou eram enviadas em tarefas impossíveis.
Eram os “poisson d’avril”, os “peixes de abril”, isto é, os tolos fáceis
de apanhar.
2. Festas
antigas que já celebravam a inversão e o absurdo
A origem,
porém, não é totalmente consensual. Há quem veja raízes mais antigas em
festivais de primavera que celebravam a inversão da ordem, a brincadeira e o
disfarce, como:
- Hilaria, em Roma, celebrada no
final de março, com máscaras e zombarias;
- A Festa Medieval dos Tolos, onde
um “Senhor da Má Governação” parodiava rituais oficiais. Estas tradições
criavam um espaço ritualizado para o riso, a sátira e a suspensão
temporária das regras.
3. A
difusão pelo mundo
A prática
espalhou‑se pela Europa e, mais tarde, pelas Américas. Em países de língua
inglesa tornou‑se o “April Fools’ Day”. Em França e Itália, “Poisson d’avril” e
“Pesce d’aprile”. Na Galiza, “Día de los engaños”. No Brasil, ganhou força no
século XIX com um jornal satírico chamado “A Mentira”, que publicou a falsa
morte de D. Pedro I, desmentida no dia seguinte.
Em síntese, o
Dia das Mentiras nasceu da combinação entre mudanças de calendário,
resistências culturais e antigas tradições de riso e inversão. O 1 de abril
tornou‑se, assim, um dia em que a sociedade aceita, com limites, a brincadeira,
a surpresa e a suspensão momentânea da seriedade.
E, sinceramente, não estou a brincar, nem a enganar ninguém…

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