terça-feira, 13 de outubro de 2026

O ESQUECIMENTO

Há um silêncio comum às cidades abandonadas, aos templos em ruínas e às civilizações que desapareceram dos mapas. Não é o silêncio da ausência, mas o da advertência. As pedras que restam dos impérios antigos continuam onde sempre estiveram, expostas ao vento e ao tempo, como páginas abertas de uma lição que poucos se detêm a ler. Talvez o maior mistério não seja perceber porque caíram tantas sociedades ao longo da História, mas compreender porque insistimos em acreditar que as mesmas fragilidades pertencem apenas ao passado.

Os Maias ergueram cidades monumentais e desenvolveram conhecimentos que ainda hoje despertam admiração. Roma dominou territórios inteiros e moldou a ideia de império durante séculos. Outras civilizações desaparecidas deixaram apenas vestígios dispersos do que foram. Em comum, nenhuma acreditava estar a aproximar-se do declínio. Os sinais existiam, mas foram ignorados, relativizados ou adiados, como se a prosperidade do presente fosse garantia suficiente para o futuro.

Hoje, os sinais assumem formas diferentes. Persistem guerras que muitos julgavam impossíveis, acumulam-se danos ambientais cujo impacto conhecemos cada vez melhor, e surgem tecnologias capazes de transformar profundamente a sociedade antes de compreendermos todas as suas consequências. O perigo não reside apenas em cada uma destas ameaças, mas na convicção de que haverá sempre tempo para corrigir o rumo. É precisamente essa confiança que tantas civilizações cultivaram antes de descobrirem que os avisos também têm prazo de validade.

Dizemos frequentemente que a História se repete, mas talvez a expressão mais correta seja outra – os avisos que a História nos lança repetem-se. As guerras de hoje não são as de ontem, as ameaças ambientais não existiam na mesma escala e a inteligência artificial coloca desafios que nenhuma geração enfrentou. Ainda assim, existe um padrão familiar. Tal como no passado, tendemos a olhar para o futuro como um território distante, esquecendo que ele começa a ser construído em cada decisão do presente. O esquecimento transforma os alertas em ruído e a prudência em adiamento.

Talvez o verdadeiro legado das civilizações desaparecidas não esteja nas ruínas que deixaram, mas nos avisos que continuam a oferecer. O futuro nunca foi um lugar distante. É o espaço que resulta como consequência das escolhas que hoje fazemos.

 

"Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo."

George Santayana (filósofo, ensaísta, poeta e professor espanhol) 

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