quarta-feira, 11 de março de 2026

DIVÓRCIO AOS SESSENTA E OITO ANOS

Divorciar-me aos sessenta e oito anos não foi um capricho nem um ato de rebeldia tardia. Foi um reconhecimento amargo, a aceitação de que, após quatro décadas de casamento com uma mulher com quem partilhei tanto o pão como o vazio dos jantares em silêncio, eu falhara em ser quem devia. Chamo-me Artur, sou de Viseu, e a minha história nasceu da solidão para desaguar numa verdade que jamais antevi.

Com a Celeste, vivi quase uma existência inteira. Casamo-nos aos vinte e dois anos, nos tempos em que o país ainda respirava sob o peso da ditadura. Naquela época, havia paixão, beijos roubados nos largos da cidade, promessas murmuradas ao luar, sonhos entrelaçados. Depois, a vida encarregou-se de nos desfiar. Vieram os filhos, as contas por pagar, os dias iguais, o cansaço que se instalou como sombra. As palavras transformaram-se em bilhetes apressados na mesa da cozinha: "Pagaste o gás?", "Não te esqueças do pão", "O João precisa de ir ao médico."

De manhã, fitava-a e já não via a rapariga de riso fácil, mas uma estranha de olhos cansados. E eu, certamente, era igual para ela. Não éramos marido e mulher. Éramos dois desconhecidos a dividir um telhado. Um dia, o meu orgulho, teimoso como um burro do Alentejo, sussurrou-me: "Mereces mais. Uma segunda oportunidade. Um sopro de vida, pelo menos." E pedi o divórcio.

A Celeste não discutiu. Apenas assentiu, fitando o rio pela janela, e disse: "Faz como entenderes. Já não tenho ânimo para batalhas."

Saí de casa. Nos primeiros dias, senti-me leve, como se tivesse deixado cair um fardo antigo. Passei a dormir do lado esquerdo da cama, adotei um cão chamado Tico, comecei a beber o café da manhã na varanda, ouvindo os pássaros. Mas, pouco a pouco, o alívio deu lugar a outra coisa, um vazio que ecoava pelas paredes. A comida perdia o sabor, os dias tornavam-se demasiado longos.

Foi então que surgiu a ideia: encontrar uma mulher que me auxiliasse. Alguém como a Celeste costumava fazer. Lavar, cozinhar, manter a casa em ordem. De preferência mais nova, pelos cinquenta anos, prática, de bom coração. Talvez uma viúva. Não pedia muito. Convenci-me: "Não sou mau partido. Tenho casa, reforma digna, saúde. Por que não?"

Comecei a procurar. Espalhei a palavra entre vizinhos, deixei cair indiretas no café. Por fim, ousei mais e publiquei um anúncio no jornal da terra. Curto e direto: "Homem, 68 anos, deseja companhia feminina para auxílio no lar. Alojamento e alimentação garantidos."

Foi esse anúncio que me mudou. Três dias depois, chegou uma resposta. Só uma. Mas uma carta que me fez tremer os dedos ao lê-la.

"Estimado Artur,

Será que o senhor acredita, em pleno século XXI, que uma mulher existe para lavar cuecas e cozinhar feijoada? Não vivemos nos tempos da sua avó.

O que o senhor procura não é uma companheira, mas uma criada de servir, vestida de afeto.

Talvez devesse aprender primeiro a estender a sua própria roupa e a temperar o seu cozido.

Cordialmente,

Uma mulher que não precisa de um fidalgo a apontar-lhe a vassoura."

Li a carta vezes sem conta. No início, a raiva ferver-me-ia no peito. Como ousava? Quem se julgava ela? Eu não queria explorar ninguém, apenas desejava conforto, um lar que cheirasse a vida...

Mas, devagar, a fúria deu lugar a outra coisa. E se ela tivesse razão? Talvez eu estivesse apenas à procura de quem me poupasse ao trabalho de viver. Será que esperava que alguém chegasse e me desse aquilo que eu mesmo devia construir?

Comecei pelo mais simples. Aprendi a fazer caldo verde. Depois, arrisquei um cozido à portuguesa. Inscrevi-me num canal chamado “Sabores da Aldeia”, passei a fazer lista de compras, a dobrar as minhas próprias camisas. No início, senti-me desengonçado, quase patético. Mas, com o tempo, percebi que aquilo já não eram tarefas, era a minha vida. A minha conquista.

Cheguei a colocar a carta emoldurada na sala. Um aviso para mim mesmo: não queiras que alguém te salve se ainda não aprendeste a nadar.

Passaram-se meses. Continuo só. Mas agora a minha casa cheira a pão quente. Na varanda, cultivo manjericos. Aos domingos, faço arroz-doce, receita da Celeste. E, às vezes, pergunto-me: “Devia levar-lhe um prato?” Pela primeira vez em quarenta anos, compreendi o que é estar ao lado de alguém não por obrigação, mas por escolha.

Se me perguntarem se quero casar outra vez, direi que não. Mas se, por acaso, uma mulher se sentar ao meu lado no jardim, não à procura de senhor, mas apenas de conversa, talvez eu lhe diga duas ou três palavras. Só que agora serei um homem diferente. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

AMÉRICO VESPÚCIO

Há datas que parecem nascer antes das pessoas, como se aguardassem pacientemente por alguém capaz de lhes dar sentido. 9 de março de 1454 foi uma dessas datas. Florença acordou igual a si mesma, ruas estreitas, mercadores apressados, o rumor das oficinas renascentistas, mas sem o saber, viu nascer um homem que viria a deslocar o eixo do mundo.

Américo Vespúcio não liderou exércitos, não ergueu bandeiras, não incendiou multidões. A sua liderança era de outra natureza: silenciosa, obstinada, feita de mapas, de margens, de perguntas que ninguém tinha ainda ousado formular. 

Era o tipo de homem que olha para o horizonte e não vê apenas mar. Vê possibilidade.

Dizem que partiu para o Novo Mundo como quem parte para dentro de si. E talvez seja verdade. Porque o que encontrou não foi apenas terra. Foi a coragem de admitir que tudo o que a Europa pensava saber estava errado. Que aquelas costas imensas não eram a Ásia, mas algo radicalmente novo. Um continente inteiro à espera de nome, de forma, de narrativa.

E é aqui que a sua liderança se revela: não no gesto heroico, mas na lucidez rara. Vespúcio percebeu o que ninguém tinha percebido. E, ao fazê-lo, mudou o mapa mental da humanidade. Há quem lidere povos. Ele liderou a imaginação do mundo.

Hoje, quando pronunciamos “América”, repetimos sem o saber o eco desse homem nascido a 9 de março. Um homem que não conquistou territórios, mas conquistou a ideia de que o desconhecido merece ser nomeado com coragem.

Talvez seja isso que faz de Vespúcio um grande líder: não o tamanho das suas façanhas, mas a profundidade do seu olhar. Um olhar capaz de transformar uma data num ponto de partida e um continente numa revelação. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

A IMPORTÂNCIA DAS COISAS

Na sequência da preparação de uma crónica com o mesmo título desta publicação, que integrará o meu próximo livro, senti a necessidade de preparar uma estrutura narrativa que me permitisse não me perder no meio das ideias que queria abordar. O resultado foi algo que considerei útil partilhar com os meus seguidores e que passo a apresentar de uma forma pragmática e objetiva, sem qualquer preocupação de lhe conferir um cariz literário.

AS QUATRO FORMAS DE IMPORTÂNCIA NA VIDA

1) Coisas que sempre foram importantes — e continuam a ser

São os pilares silenciosos: relações fundadoras, valores que resistem ao tempo, gestos que nos definem mesmo quando não os vemos.

  • São estáveis, mas não imutáveis.
  • Exigem cuidado para não se tornarem invisíveis.
  • Revelam a nossa identidade mais profunda.

2) Coisas que foram importantes — e deixaram de ser

Aqui vive a mudança, a maturidade, a perda e a libertação.

  • Podem ter sido essenciais numa fase da vida, mas já não nos servem.
  • O perigo é a nostalgia que nos prende ou a culpa por “abandonar” algo que já não faz sentido.
  • São capítulos concluídos que insistimos em reler.

3) Coisas que continuam a ser importantes — mas às quais deixámos de dar importância

Este é talvez o território mais fértil para o esquecimento do essencial.

  • A rotina desgasta o brilho.
  • A urgência do mundo abafa o que é vital.
  • O amor, a saúde, a amizade, o tempo — tudo pode ser negligenciado sem deixarem de ser fundamentais.

4) Coisas que não são importantes — mas às quais damos importância excessiva

O ruído, o ego, a comparação, a ansiedade social.

  • São distrações que se disfarçam de prioridades.
  • Crescem porque alimentamos a sua fome.
  • São as ladras de atenção que nos afastam do que realmente importa.

COMO DISTINGUIR ESTAS QUATRO CATEGORIAS SEM CAIR NA MORALIZAÇÃO?

1) A importância verdadeira resiste ao silêncio

Se deixarmos de olhar para algo e ele continuar a pulsar dentro de nós, é importante. Se só existe quando o olhamos, é ruído.

2) A importância falsa exige urgência

O que é essencial raramente grita. O que é irrelevante vive de alarmes, notificações, pressas, comparações.

3) A importância madura transforma-se

O que foi importante pode deixar de ser — e isso não é falha, é crescimento. A vida não é um museu de prioridades fixas.

4) A importância negligenciada dói em silêncio

Quando algo essencial é esquecido, não desaparece: transforma-se em ausência, em saudade, em cansaço, em sensação de vida desalinhada.

COMO ESTAR ATENTO AO QUE REALMENTE IMPORTA?

Não existem regras que possam ser propostas, mas movimentos interiores — quase gestos de consciência:

  • Escutar o que permanece: aquilo que regressa quando o mundo se cala.
  • Observar o que nos esgota: muitas vezes, o que nos cansa não é o que importa, mas o que ocupa espaço indevido.
  • Revisitar prioridades com honestidade: não com culpa, mas com curiosidade.
  • Aceitar que a importância é dinâmica: a vida muda, nós mudamos, e a hierarquia das coisas também.
  • Perguntar: “Isto aproxima-me ou afasta-me de quem quero ser?” A resposta raramente engana.

 Desejo que esta reflexão sobre a importância das coisas vos possa ser útil! 

segunda-feira, 2 de março de 2026

HEGEL

“Nada de verdadeiramente grande no mundo foi realizado sem paixão.”

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831) foi um dos grandes arquitetos do pensamento moderno, um filósofo que viu o mundo como um processo vivo, em constante transformação, onde o espírito humano se descobre e se supera através das tensões que enfrenta. A sua obra, densa e exigente, procurou sempre compreender como a liberdade se realiza na história e como a ação humana ganha sentido quando se inscreve num movimento maior do que o indivíduo. Talvez por isso esta frase tenha atravessado os séculos com uma força tão particular. 

Não está ligada a um acontecimento específico de 2 de março, mas tornou‑se, em muitas coleções de citações, a máxima escolhida para este dia, como se a data, situada entre o fim do inverno e o prenúncio da primavera, pedisse precisamente esta ideia de impulso interior, de energia que desperta e se orienta para algo que vale a pena.

Lida hoje, a frase ganha uma ressonância especial. Para Hegel, a paixão não era um excesso emocional, mas a força que dá direção ao que fazemos, a centelha que nos arranca da inércia e nos compromete com algo que nos ultrapassa. O grande, aquilo que transforma, que inaugura, que deixa marca, nunca nasce do cálculo frio, mas da entrega total, do risco assumido, da vulnerabilidade de quem se expõe ao que acredita. A paixão, neste sentido, é uma forma de fidelidade, ao que somos, ao que desejamos, ao que o mundo nos pede. É ela que nos permite agir com sentido, aceitar a possibilidade de falhar e, ainda assim, avançar. E é também ela que nos transforma enquanto transformamos o que nos rodeia.

Por isso, talvez faça sentido que esta frase acompanhe o 2 de março: um dia que não celebra Hegel, mas que parece convocar o que ele quis dizer, que nada floresce sem que alguém se entregue, que nada se renova sem que alguém se mova, que nada se torna grande sem que alguém esteja inteiro no gesto que faz.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

DARWYN FURLAN

Neurociência, Socio-emocional e Educação...uma única estrada

O ser humano não é dividido em partes estanques, razão de um lado, emoção de outro, vida pessoal de um lado, profissional de outro.

Somos uma rede interligada, e a Neurociência tem mostrado isso com clareza, emoção e cognição caminham juntas.  O que sentimos interfere diretamente na forma como pensamos, decidimos e nos relacionamos.

A Gestão Socio-emocional entra justamente nesse ponto de interseção. Saber reconhecer e regular emoções não significa apenas “sentir menos”, mas sentir de forma mais consciente, transformando cada estado interno em possibilidade de crescimento. 

Quando aprendemos a nomear o que sentimos e a lidar com frustrações, ansiedade e alegrias, estamos não só cuidando da saúde mental, mas também fortalecendo a nossa capacidade de aprender, conviver e trabalhar.

Na escola, isso traduz-se em algo poderoso: a criança que compreende as suas emoções aprende melhor. Isso acontece porque a emoção é o filtro da atenção, se a ansiedade domina, o cérebro desvia energia do raciocínio e da memória, prejudicando a aprendizagem. Ao contrário, quando o estudante se sente validado, seguro e integrado, o cérebro liberta neurotransmissores ligados ao bem-estar, como dopamina e serotonina, que ampliam a motivação e a criatividade. A sala de aula, então, deixa de ser apenas espaço de transmissão de conteúdo e torna-se espaço de desenvolvimento integral.

Esse mesmo princípio se repete no mundo profissional. Uma equipa emocionalmente equilibrada não apenas rende mais, mas também cria relações de confiança, sabe mediar conflitos e enfrenta pressões sem colapsar. Aqui, as chamadas soft skills deixam de ser “adicionais” para se tornarem o verdadeiro motor da performance coletiva. Afinal, não há estratégia brilhante que resista a relações tóxicas ou a mentes exaustas.

E na vida pessoal? O reflexo é direto. Famílias que aprendem a dialogar com validação e empatia constroem vínculos mais leves e duradouros. Parceiros que se escutam e respeitam diferenças evitam transformar divergências em ruturas. Amizades que se apoiam emocionalmente tornam-se fontes de saúde psíquica. No fundo, tudo se conecta, as mesmas competências emocionais que ajudam um aluno a aprender ou um profissional a prosperar são as que sustentam a vida em comum.

Quando compreendemos essa unidade, fica evidente que educar para o socio-emocional não é um “extra”, é o próprio caminho para formar seres humanos mais plenos. A neurociência dá a base, a psicanálise aprofunda a compreensão do inconsciente, e a prática cotidiana na escola, no trabalho, na família, transforma teoria em vida. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O DIA EM QUE O CONHECIMENTO GANHOU ASAS

Há datas que passam discretas pelo calendário, mas que mudam silenciosamente o destino do mundo. 23 de fevereiro de 1455 é uma delas. Nesse dia, em Mainz, Johannes Gutenberg concluiu a impressão da sua Bíblia. A primeira grande obra ocidental produzida com tipos móveis. Não houve trombetas, nem proclamações, nem multidões. Houve apenas o som mecânico de uma prensa e a obstinação de um homem que acreditava que a palavra merecia ser multiplicada.

A partir desse gesto técnico, quase artesanal, quase alquímico, inaugurou‑se algo maior do que o próprio Gutenberg poderia imaginar: a democratização do conhecimento. Pela primeira vez, a palavra escrita deixou de ser privilégio de poucos e começou a abrir caminho para muitos. A cultura, que até então se transmitia lentamente, ganhou velocidade. A memória humana encontrou um novo corpo. A ideia de futuro tornou‑se mais larga.

Mas este acontecimento não é apenas histórico. É também simbólico. A Bíblia de Gutenberg marca o momento em que a humanidade percebe que o que se imprime pode sobreviver ao que se sente, e que a palavra impressa não anula a palavra viva, antes a prolonga. É o instante em que a técnica se torna ponte, não barreira. Em que o gesto individual se transforma em herança coletiva. Em que o conhecimento deixa de ser um tesouro guardado e passa a ser um bem partilhado.

Há ainda uma beleza silenciosa neste episódio: Gutenberg deu ao mundo algo sem saber se o mundo lho devolveria. Criou sem garantia de retorno. Acreditou que valia a pena oferecer, mesmo sem promessa de reconhecimento. E talvez seja por isso que esta data ressoa tanto hoje, porque nos lembra que dar é sempre um ato de fé, e que o conhecimento, tal como o amor, só cumpre o seu destino quando se partilha.

No fundo, 23 de fevereiro de 1455 não é apenas o dia em que um livro foi impresso. É o dia em que a humanidade aprendeu a multiplicar a sua própria voz.

DIVÓRCIO AOS SESSENTA E OITO ANOS

Divorciar-me aos sessenta e oito anos não foi um capricho nem um ato de rebeldia tardia. Foi um reconhecimento amargo, a aceitação de que, a...