Letras&ideiaS
segunda-feira, 13 de julho de 2026
quarta-feira, 8 de julho de 2026
A ILUSÃO DE SERMOS INVENCÍVEIS
Obriguei-me a deixar passar vinte e quatro horas sobre a derrota de Portugal frente à Espanha, nos oitavos de final do Mundial de futebol de 2026 para escrever este texto. Todos sabemos, mas muitos se esquecem, até os políticos, que para decidirmos com alguma isenção necessitamos de um período de reflexão, como o que é imposto antes de qualquer ato eleitoral.
Todavia, criou-se a fantasia de que emitir uma opinião, ou
formular uma crítica, não são ações que careçam de qualquer resolução ou meditação.
“Penso, logo existo”, é uma máxima ultrapassada do filósofo René Descartes, com
teias de aranha depositadas ao longo de quase quatrocentos anos, que só fazia
sentido num mundo sem redes sociais. Hoje, para “existir” basta estar ativo
nestes espaços virtuais, publicar regularmente conteúdos que agradem a quem os
consome, sem necessidade de “pensar”, não vá esse exercício trair-nos e
conquistarmos “haters” em vez de seguidores.
Desde o final do jogo de ontem da nossa Seleção que já pude
ler e ouvir os mais disparatados comentários à nossa participação na
competição. Desde a falta de coragem do selecionador até à vaidade de Cristiano
Ronaldo, tudo já foi dito e escrito, por vezes de forma injuriosa. De facto, o
Roberto Martinez devia ter tido a coragem de pôr o Ronaldo no banco, nem que
jogasse apenas com dez, pois seria uma manifestação de liderança, deixar o
líder de fora. E este mundo é para os corajosos, que mesmo sem pensar são
capazes de feitos assinaláveis. Se assim tivesse feito, Roberto Martinez podia
não ganhar o Mundial, mas sairia pela porta grande por ter tido a coragem de
sentar o Cristiano no banco. Admirável!
Por outro lado, Ronaldo teria a lição que merece, depois de
ter dado tão pouco a Portugal. Modric com quarenta anos pode jogar pela
Croácia, ou Messi aos trinta e nove pela Argentina, mas nós, conquistadores do
mundo, não podemos permitir que um velho de quarenta e um anos condicione o
nosso sucesso.
Depois da felicidade da véspera que alguns portugueses
sentiram ao ver o Brasil afastado da competição, esquecendo que foi Luiz Filipe
Scolari o responsável pela primeira internacionalização de Cristiano Ronaldo na
seleção A, de ter conduzido Portugal à primeira final de um campeonato europeu
da modalidade, e ter devolvido o orgulho dos portugueses na bandeira nacional,
só ainda não assisti a que alguém afirmasse que Roberto Martinez fez com que
Portugal perdesse por ser espanhol!
Compreendo que a frustração de não seguirmos em frente tolde
o discernimento de algumas pessoas, e que um sentimento de tristeza nos invade
enquanto portugueses. Contudo, devemos ter presente que ser melhor é um
conceito relativo e dependente do estado do adversário que defrontamos. Que um
jogo de futebol dura noventa minutos, ou cento e vinte minutos quando tem
prolongamento, e que é nesse espaço de tempo que a vitória, ou a derrota,
acontecem. Podemos fazer tudo bem, e nesse lapso de tempo o resultado desejado
não surgir.
Orgulhemo-nos daquilo que fizemos. Sonhamos com uma final entre
Cabo Verde e Portugal, transformando Vozinha num herói nacional, embora tenha quarenta
anos. Enquanto torcíamos por esta seleção, que fala a nossa língua, tal como o
Brasil, não exigíamos à equipa que fosse melhor que o antagonista, nem que o
seu guarda-redes defendesse tudo, só queríamos que ganhassem para alimentar a
quimera de os termos na final contra nós. Aí, se perdêssemos, seria como na
final do Euro 2004 com a Grécia. Só teríamos de esperar uma dúzia de anos para
sermos campeões mundiais, sem Ronaldo, e com um treinador português.
Perdoem-me pela minha imaginação me ter levado tão longe.
Sei que muitos dirão que acabo de escrever um chorrilho de disparates, mas
vaguearmos por caminhos improváveis faz-nos pensar e refletir sobre os factos
que a realidade nos oferece, mas que nos inibe de os analisarmos com clareza.
Ao fim e ao cabo, tudo ou nada é futebol, e apenas resulta
da ilusão de sermos invencíveis.
“A nossa maior
ilusão é acreditar que não temos ilusões.”
Fernando Pessoa (poeta
e escritor português)
segunda-feira, 6 de julho de 2026
O DIA EM QUE O ATLÂNTICO DEIXOU DE SER OBSTÁCULO
6 de julho de 1919, é uma data que assiná-la não é apenas um acontecimento, mas sim uma mudança de imaginação. Nesse dia, o dirigível britânico R‑34 aterrou em Nova Iorque, completando a primeira travessia aérea do Atlântico. Uma viagem de mais de 6.000 quilómetros, feita lentamente, suspensa entre nuvens, vento e incerteza.
O R‑34 partiu
da Escócia dois dias antes, carregando uma tripulação que sabia que estava a
entrar num território onde nada estava garantido. Não havia precedentes, nem
mapas aéreos fiáveis, nem a certeza de que o enorme corpo de hidrogénio
resistiria às tempestades do oceano. Havia apenas coragem, engenho e uma
vontade teimosa de provar que o céu também podia ser caminho.
Quando o
dirigível finalmente desceu sobre o campo de Roosevelt, Nova Iorque recebeu-o
como se recebesse o futuro. A travessia não foi apenas um feito técnico. Foi
uma declaração de possibilidade. Pela primeira vez, o Atlântico — esse espaço
de separação, distância e demora — tinha sido vencido pelo ar. O mundo ficava,
de repente, mais pequeno. E a ideia de viajar entre continentes em pouco tempo,
deixava de ser sonho para se tornar promessa.
No fundo, 6 de julho de 1919 não é apenas o dia em que um dirigível chegou ao outro lado do oceano. É o dia em que a humanidade percebeu que o impossível podia, afinal, ser realizável.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
EFEITO ROSENHAN
Em 1972, o psicólogo David Rosenhan expôs uma das maiores fragilidades da psiquiatria: quando um rótulo é colocado, tudo passa a ser visto sob a lente do diagnóstico. A experiência mostrou que até comportamentos comuns, como ser educado ou escrever anotações, foram interpretados como sintomas de doença mental. O mais impressionante? Apenas os verdadeiros pacientes perceberam que havia algo errado, enquanto médicos e enfermeiros viam doença onde ela não existia.
A experiência
assentava numa pergunta simples, mas ousada: será que os médicos realmente
sabem diferenciar uma pessoa saudável de outra com doença mental?
Para testar
isso, ele criou uma experiência radical. Recrutou 8 voluntários saudáveis:
psicólogos, médicos, um pintor e uma dona de casa. Todos com um objetivo:
fazerem passar-se por pacientes psiquiátricos.
Eles
apresentaram-se em diferentes hospitais dos Estados Unidos com o mesmo sintoma:
ouviam uma voz dizendo as palavras “vazio”, “oco” e “baque”. Apenas isso. Nada
mais.
Foram todos
internados com diagnósticos graves. Sete deles como esquizofrênicos. O oitavo,
como psicótico maníaco-depressivo.
Assim que
entraram, pararam de simular qualquer sintoma. Comportaram-se com total
normalidade: conversavam, comiam, anotavam o que viam. Agiam como qualquer
pessoa saudável.
E ainda
assim… foram considerados doentes. Cada atitude foi reinterpretada como
sintoma. Fazer anotações? “Escrita obsessiva.” Ser educado? “Necessidade
patológica de agradar.”
O mais
surpreendente? Apenas os verdadeiros pacientes desconfiavam. Trinta e cinco
internados afirmaram: “Esses aí não são doentes. São pesquisadores
infiltrados.”
Já os médicos
e enfermeiros, mesmo diante do óbvio… Mantiveram os seus diagnósticos.
O tempo médio
de internamento foi de 19 dias. Um deles ficou 52 dias internado. E só tiveram
alta depois de aceitarem: “Sim, eu sou doente. Aceito o tratamento.”
Não bastava
ser saudável. Era preciso declarar-se doente para conquistar a liberdade.
Durante o
internamento foram prescritas mais de 2100 pílulas de antipsicóticos. Nenhuma
foi ingerida. Todas foram escondidas e descartadas.
Quando o
estudo foi publicado na revista Science, a psiquiatria foi sacudida.
Hospitais sentiram-se expostos. Muitos profissionais viram-se questionados.
Um hospital
desafiou Rosenhan: “Envie os seus pacientes falsos. Nós vamos identificá-los.”
Ele aceitou.
Três meses
depois, o hospital declarou com orgulho ter detetado 41 impostores. Mas Rosenhan
não havia enviado ninguém.
A
desconfiança no sistema virou quase uma paranoia. Eles viam pacientes falsos
por todo lado… mesmo quando não havia ninguém infiltrado.
O estudo ficou conhecido como Efeito Rosenhan. Uma demonstração poderosa de como os rótulos psiquiátricos podem distorcer completamente a realidade, tanto para quem diagnostica, quanto para quem é diagnosticado. Constituiu-se um divisor de águas na história da saúde mental. Ele lembra-nos que diagnósticos são importantes, mas não podem substituir a escuta, a empatia e a individualidade de cada pessoa.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
JOHN FITZGERALD KENNEDY
John Fitzgerald Kennedy nasceu a 29 de maio de 1917, em Brookline, e cresceu entre livros, debates e a exigência silenciosa de uma família que via o serviço público como destino. Veterano da Marinha, congressista, senador e, mais tarde, 35.º Presidente dos Estados Unidos, trouxe para a política uma energia jovem e uma rara capacidade de comunicar esperança num mundo suspenso entre o medo e o futuro.
Defendeu os direitos civis, impulsionou o programa espacial e enfrentou
a crise dos mísseis de Cuba com uma combinação improvável de firmeza e
prudência. Mas foi a 26 de junho de 1963, em Berlim Ocidental, que deixou uma
das marcas mais profundas da sua liderança — um momento em que a palavra se
ergueu como fronteira moral.
Há dias que
não pertencem ao calendário. Pertencem à memória do mundo, e 26 de junho de
1963 foi um desses dias. Berlim acordou dividida, não apenas por um muro de
betão, mas por um medo que se infiltrava nas ruas, nos gestos, nos silêncios.
E, no entanto, naquela manhã, algo mudou. Um homem atravessou o Atlântico para
dizer a uma cidade ferida que ela não estava sozinha.
Kennedy subiu
ao púlpito com a contenção de quem sabe que as palavras podem ser mais
perigosas do que armas. Olhou para aquela multidão comprimida entre a esperança
e o desespero, e disse apenas: Ich bin ein Berliner. Não era uma frase
política. Era uma promessa. Uma forma de dizer: “A vossa liberdade é também a
minha.”
Naquele
instante, o ar pareceu ganhar outra densidade. O muro continuava lá, frio e
implacável, mas algo se deslocou no interior das pessoas. Porque há líderes que
comandam exércitos, e líderes que comandam a coragem. Kennedy não derrubou o
muro, mas fez com que, por um momento, ele deixasse de ser invencível.
E talvez seja
isso que faz de Kennedy um grande líder: ter mostrado que, às vezes, basta uma
frase para que uma cidade inteira volte a respirar. Ter lembrado ao mundo que a
força não está apenas no poder, mas na capacidade de dizer a palavra certa no
momento exato, e de a dizer com verdade.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
BILLY WILDER
“Confie, mas verifique.”
Billy Wilder,
nascido a 22 de junho de 1906, foi um dos grandes mestres do cinema — um
criador que unia ironia, lucidez e uma compreensão muito fina da natureza
humana. A frase “Confie, mas verifique” é frequentemente evocada neste dia, não
apenas por assinalar o seu aniversário, mas porque condensa a sua visão
pragmática do mundo: a confiança é essencial, mas não dispensa o cuidado.
Billy Wilder nunca usou esta citação como um convite à suspeita. Pelo contrário, lembrava que verificar não diminui a confiança, protege-a. Verificar é garantir que o que construímos com os outros assenta em bases sólidas, que as falhas não se acumulam por distração e que a relação, seja pessoal ou profissional, se mantém íntegra. Lida a 22 de junho, a frase funciona como um lembrete discreto de maturidade. Confiar é um gesto de abertura. Verificar é um gesto de responsabilidade. E quando os dois se encontram, o resultado é sempre mais seguro, mais claro e mais verdadeiro.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
1984, UM LIVRO PREMONITÓRIO
A 8 de junho de 1949 chegava às livrarias um romance que, ironicamente, não pretendia ser profético. George Orwell escreveu 1984 como um aviso urgente sobre o presente — o seu presente — e não como um mapa do futuro. O que ele queria era exagerar os mecanismos de propaganda, vigilância e manipulação que já via à sua volta. O que conseguiu foi outra coisa: criar o vocabulário com que o mundo viria a descrever a sua própria decadência.
O curioso é
que, na altura, poucos imaginaram que o livro se tornaria um espelho tão fiel
das décadas seguintes. Orwell estava doente, isolado numa ilha escocesa, a
escrever febrilmente para terminar o manuscrito antes que a tuberculose o
vencesse. Não estava a tentar adivinhar nada — estava a tentar alertar. Mas o
alerta transformou‑se em diagnóstico. E o diagnóstico, com o tempo, tornou‑se
quase banal: “Big Brother”, “duplipensar”, “novilíngua”, “Ministério da
Verdade”. Expressões que hoje usamos com a naturalidade de quem respira.
E, no
entanto, há um detalhe que raramente se recorda: Orwell não temia apenas os
regimes totalitários. Temia também a passividade das pessoas comuns, a
facilidade com que se aceita uma meia‑verdade, a rapidez com que se normaliza o
absurdo, a tentação de acreditar que “não é bem assim”. O perigo, para ele, não
estava só no poder — estava na indiferença.
E aqui está a
ironia contemporânea: 75 anos depois da publicação, vivemos rodeados de versões
suaves, higienizadas e até sorridentes daquilo que Orwell temia. Não precisamos
de um Big Brother de botas cardadas quando temos vigilância voluntária,
algoritmos que nos conhecem melhor do que nós próprios e discursos públicos
onde a verdade é, muitas vezes, apenas uma questão de insistência.
Orwell não
queria prever o futuro. Mas o futuro, teimoso, acabou por lhe dar razão. Talvez
porque, no fundo, 1984 não fala de regimes — fala de pessoas. Das que mandam.
Das que obedecem. Das que preferem não ver.
E esta hem!
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