mas existo no que persiste,
na dúvida que sempre abraça
o ser que pensa e que insiste.
Tomás encontrou a pedra numa tarde de verão, junto ao leito seco de um riacho que atravessava a colina. Era pequena, lisa e tão redonda que parecia ter sido polida pelas mãos de um artesão paciente. Guardou-a no bolso sem pensar muito no assunto. Só nessa noite, ao colocá-la sobre a cómoda do quarto, reparou num detalhe estranho: a pedra já não era redonda. Tinha a forma perfeita de uma estrela.
Na manhã seguinte, acordou ansioso por voltar a vê-la. Encontrou-a no mesmo lugar, mas a estrela desaparecera.
Sobre a mesa repousava agora uma pequena folha de
carvalho, perfeita em cada nervura e contorno, como se tivesse sido esculpida
num único pedaço de pedra. Tomás passou o resto do dia a observá-la, convencido
de que descobriria o momento exato da transformação. Mas bastava desviar o
olhar por um segundo para que a forma mudasse novamente.
Nos
dias que se sucederam, a pedra transformou-se em coisas cada vez mais
improváveis. Foi uma pena, uma concha, um floco de neve e até uma pequena chave
cuja fechadura ninguém conhecia. Tomás desistiu de prever o que surgiria a
seguir e começou simplesmente a esperar pela surpresa de cada manhã. A pedra
parecia divertir-se mais quando ninguém tentava adivinhar os seus segredos.
Chegou
mesmo a levá-la para a escola e a mostrá-la aos amigos. Alguns viram nela um
pássaro, outros juraram que tinha a forma de um barco em miniatura. Cada dia, surpreendentemente,
a pedra exibia-se de forma diferente para todos. Como ninguém conseguia vê-la
transformar-se, acabaram por discutir sobre qual seria a sua verdadeira
aparência. Tomás limitava-se a sorrir. Começava a suspeitar que a pedra não
tinha uma forma verdadeira a preservar.
Certa manhã, depois da chegada da primavera e muitos meses depois de a ter encontrado, Tomás acordou e não viu nada sobre a cómoda, lugar onde sempre a colocava antes de dormir. Procurou debaixo dos livros, nas gavetas e até nos bolsos dos casacos. A pedra desaparecera. Durante um instante sentiu uma pontada de tristeza. Depois sorriu. Talvez a pedra tivesse finalmente encontrado uma forma de que gostasse o suficiente para ficar. E, ao olhar pela janela, imaginou-a algures no mundo, transformando-se em mil coisas diferentes, sem nunca deixar de ser ela própria.
Desde que aprendeu a olhar para o céu, o ser humano procurou respostas para as mesmas perguntas: de onde viemos, para onde vamos e o que nos espera pelo caminho. Houve tempos em que as procurava nos templos, entre sacerdotes e profecias. Mais tarde, passou a procurá-las nos livros dos filósofos e nas descobertas dos cientistas. Mudaram os lugares e os métodos, mas não a inquietação. Em cada época existiu sempre alguém, ou algo, a quem confiámos a esperança de compreender o desconhecido.
Durante
muito tempo, a religião ofereceu explicações para aquilo que o mundo ainda não
compreendia. Depois, a filosofia procurou responder através da razão e da
reflexão. A ciência veio acrescentar um método capaz de transformar muitas
interrogações em conhecimento verificável. Mas, à medida que surgem novas
fronteiras do saber, multiplicam-se também as perguntas para as quais ainda não
existem respostas consensuais. E é nesse espaço de incerteza que renascem
antigas formas de procura, agora vestidas de novas linguagens e novos
conceitos.
Curiosamente,
o século XXI não parece caminhar numa única direção. Enquanto a inteligência
artificial promete respostas cada vez mais rápidas e abrangentes, cresce também
o interesse por correntes de pensamento que procuram relacionar consciência,
espiritualidade, energia e fenómenos observados cuja explicação permanece
incompleta à luz dos métodos científicos atuais. Não se trata necessariamente
de um regresso às antigas crenças, religiosas ou de outra natureza, mas da
persistência da mesma necessidade humana – encontrar significado para lá
daquilo que já conseguimos explicar. O oráculo mudou de forma muitas vezes, mas
a pergunta permanece surpreendentemente semelhante.
Quiçá
por isso a inteligência artificial desperte simultaneamente entusiasmo e
inquietação. Pela primeira vez, uma ferramenta responde em linguagem próxima da
nossa, relaciona conhecimentos de áreas distintas e dialoga sobre questões que
antes pertenciam apenas à religião, à filosofia ou à ciência. No entanto, por
mais sofisticadas que se tornem as respostas, permanece uma dúvida essencial:
estaremos perante um novo oráculo ou apenas perante um espelho cada vez mais
elaborado das perguntas que sempre fizemos?
Talvez
o último oráculo nunca seja uma máquina, uma teoria ou uma crença. Talvez seja
apenas a mais recente expressão de uma procura antiga – a necessidade humana de
continuar a fazer perguntas, mesmo quando sabe que algumas respostas
permanecerão sempre além do horizonte.
"O importante é não parar de
questionar."
Albert Einstein (físico teórico alemão)
Resenha da Semana
Esta semana recordou-nos que a História avança muitas vezes por caminhos desconfortáveis. A paz, a liberdade e a convivência entre pessoas e povos raramente são alcançadas sem cedências.
A verdadeira dificuldade está em
determinar quais são aceitáveis e quais se transformam numa renúncia ao que é
essencial.
No
plano internacional, as negociações promovidas pelos Estados Unidos para
procurar um fim para a guerra na Ucrânia voltaram a levantar uma questão que
atravessa gerações: poderá uma paz duradoura nascer de um acordo que implique a
cedência de territórios conquistados pela força? Independentemente das
respostas, o debate demonstra como os conflitos raramente terminam com soluções
perfeitas. Entre a continuação da guerra e a procura de um entendimento, surgem
inevitavelmente decisões que dividem opiniões e desafiam convicções.
Em
Portugal, o prolongamento das acampadas pela habitação trouxe para a praça
pública um dilema diferente, mas igualmente relevante. O direito ao protesto é
um dos pilares de qualquer democracia. Porém, quando a ocupação de espaços
públicos interfere com o património comum ou com os direitos dos restantes
cidadãos, surge uma questão inevitável: como conciliar direitos legítimos que
entram em colisão entre si?
Embora
distintos, ambos os acontecimentos revelam a mesma tensão. As sociedades
prosperam quando conseguem encontrar equilíbrios. Mas encontrar esse ponto de
equilíbrio exige sempre diálogo, responsabilidade e a capacidade de reconhecer
que nenhum direito existe isolado dos direitos dos outros.
Não sou eu que digo
Ao
longo da década de 1970, o diplomata norte-americano Henry Kissinger, então
Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado dos Estados Unidos,
esteve diretamente envolvido em algumas das mais difíceis negociações
internacionais do século XX, desde a Guerra do Vietname às delicadas relações
entre as grandes potências durante a Guerra Fria. Confrontado repetidamente com
situações em que não existiam soluções perfeitas, mas apenas alternativas mais
ou menos dolorosas, resumiu assim uma das realidades mais incómodas da ação
política e diplomática:
"A
arte da política consiste em escolher entre o desastroso e o
desagradável."
Mais
do que uma justificação para a cedência, a frase constitui um alerta sobre a
complexidade de muitas decisões públicas. Há momentos em que a escolha não se
faz entre o ideal e o errado, mas entre diferentes caminhos imperfeitos, cada
um com custos difíceis de aceitar.
Grandes
Líderes
Quando
Willy Brandt assumiu o cargo de chanceler da Alemanha Ocidental, em outubro de
1969, a Europa encontrava-se dividida pela Guerra Fria, pelo Muro de Berlim e
pela desconfiança entre Leste e Oeste. Muitos dos seus contemporâneos defendiam
que qualquer aproximação aos países do bloco de Leste representaria uma
cedência inaceitável. Brandt seguiu outro caminho. Sem abdicar dos valores
democráticos nem do compromisso europeu, procurou construir pontes onde outros
apenas viam muros.
A
sua política de aproximação ao Leste, conhecida como Ostpolitik,
assentava numa ideia simples: o diálogo não exige concordância, mas pode criar
condições para reduzir conflitos e aproximar povos separados por décadas de
desconfiança.
Foi
também durante o seu mandato que a construção europeia ganhou novo impulso,
reforçando a convicção de que a paz duradoura depende menos da força e mais da
cooperação entre nações.
O
legado de Willy Brandt recorda-nos que os grandes líderes não são aqueles que
obtêm tudo o que pretendem. São aqueles que sabem distinguir entre os
princípios que devem ser preservados e as posições que podem ser ajustadas para
alcançar um bem maior.
Porque,
por vezes, liderar consiste precisamente em encontrar um caminho entre a
firmeza das convicções e a necessidade do compromisso.
Frase
da Semana
"Os
direitos de cada homem são diminuídos quando os direitos de um só homem são
ameaçados."
— John F.
Kennedy (35º presidente dos Estados Unidos)
No café mais antigo da cidade havia uma mesa junto à janela que permanecia sempre ocupada por apenas uma pessoa. A cadeira em frente ficava invariavelmente vazia. Não existia qualquer aviso, tradição conhecida ou regra escrita. Ainda assim, os clientes habituais evitavam sentar-se naquele lugar, como se o silêncio que o rodeava lhes bastasse para compreender que não lhes pertencia.
Certa tarde, Miguel entrou no café à procura de um lugar tranquilo para ler. Todas as mesas estavam ocupadas, exceto aquela junto à janela.
Ignorando os olhares
discretos dos empregados, sentou-se àquela mesa e abriu o livro. Durante alguns
minutos, nada aconteceu. Depois começou a ouvir fragmentos de uma conversa.
Eram duas vozes baixas, vindas da cadeira à sua frente. A cadeira, porém,
permanecia vazia.
Tentou
concentrar-se na leitura, mas as vozes continuavam a surgir em excertos
dispersos. Falavam de encontros adiados, de decisões nunca tomadas e de pessoas
que pareciam conhecer há muito tempo. O mais inquietante aconteceu quando ouviu
o seu próprio nome. A conversa prosseguiu naturalmente, como se ele não
estivesse ali. E, por um instante, teve a estranha sensação de estar a escutar
uma memória que nunca vivera.
Incapaz
de ignorar o que ouvira, Miguel regressou ao café nos dias seguintes e voltou a
ocupar aquela mesa, sentando-se na mesma cadeira. As vozes regressavam sempre à
mesma hora. Umas vezes falavam do passado, outras de acontecimentos que ainda
não tinham ocorrido. Numa dessas conversas, ouviu uma pergunta que o deixou
imóvel. A voz da cadeira vazia queria saber por que razão ele nunca tinha
entrado naquele café alguns anos antes.
Passado alguns dias, Miguel voltou ao café à hora habitual, ocupando a mesma mesa, mas as vozes não regressaram. A cadeira permanecia vazia, silenciosa, como se nada tivesse acontecido. Quando se preparava para sair, ouviu o empregado dizer a um cliente recém-chegado, apontando na direção da sua mesa: “Pode sentar-se em qualquer mesa, menos naquela.” Miguel voltou-se instintivamente para a janela. Sobre a mesa, diante da cadeira vazia, repousava uma chávena fumegante. E alguém parecia ter estado à sua espera.
Durante séculos, a humanidade procurou formas de espreitar o amanhã. Consultou oráculos, interpretou estrelas, observou sinais na natureza e procurou certezas onde encontrava apenas mistério. Hoje, os templos deram lugar aos centros de dados e os presságios transformaram-se em modelos matemáticos. Porém, apesar da tecnologia e do conhecimento acumulado, continuamos diante da mesma pergunta: como agir perante um futuro que conseguimos vislumbrar, mas nunca ver por completo?
Atualmente,
essas previsões estão por toda a parte. Modelos climáticos antecipam secas e
tempestades, estatísticas revelam tendências demográficas e algoritmos
identificam padrões que escapam ao olhar humano. A inteligência artificial veio
reforçar essa capacidade, cruzando quantidades gigantescas de informação em
poucos segundos. Pela primeira vez, dispomos de ferramentas capazes de desenhar
cenários futuros com um detalhe impressionante. Ainda assim, nenhuma delas
oferece certezas – apenas probabilidades cada vez mais sofisticadas.
O
mais curioso é que estas previsões raramente falham por falta de informação.
Muitas vezes, os sinais estão diante de nós durante anos. Sabemos quando uma
região se torna mais vulnerável à seca, quando uma população envelhece ou
quando uma tecnologia avança mais depressa do que a capacidade de a regular. A
dificuldade não está em ver o que pode acontecer, mas em aceitar que esses
fragmentos do futuro exigem escolhas no presente.
Talvez
seja essa a maior diferença entre os antigos oráculos e os modelos atuais. Uns
prometiam respostas, os outros apresentam cenários. Nenhum algoritmo pode dizer
com exatidão o que acontecerá daqui a vinte anos, mas pode mostrar caminhos
possíveis. Nesse sentido, a verdadeira utilidade destas ferramentas não está em
adivinhar o futuro, mas em recordar que ele permanece aberto à influência das
decisões humanas.
No
fundo, a máquina que procura o futuro revela mais sobre nós do que sobre o
amanhã. Cada previsão é um espelho imperfeito: mostra possibilidades, riscos e
oportunidades, mas não toma decisões. O horizonte continua distante, não porque
esteja oculto, mas porque depende dos passos que escolhemos dar.
"É difícil fazer previsões,
especialmente sobre o futuro."
Niels Bohr (físico dinamarquês, Prémio Nobel da Física em 1922)
Vivo o instante que passa, mas existo no que persiste, na dúvida que sempre abraça o ser que pensa e que insiste. Creio na luz que não f...