Letras&ideiaS
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
O DIA EM QUE O CONHECIMENTO GANHOU ASAS
Há datas que passam discretas pelo calendário, mas que mudam silenciosamente o destino do mundo. 23 de fevereiro de 1455 é uma delas. Nesse dia, em Mainz, Johannes Gutenberg concluiu a impressão da sua Bíblia. A primeira grande obra ocidental produzida com tipos móveis. Não houve trombetas, nem proclamações, nem multidões. Houve apenas o som mecânico de uma prensa e a obstinação de um homem que acreditava que a palavra merecia ser multiplicada.
A partir
desse gesto técnico, quase artesanal, quase alquímico, inaugurou‑se algo maior
do que o próprio Gutenberg poderia imaginar: a democratização do conhecimento.
Pela primeira vez, a palavra escrita deixou de ser privilégio de poucos e
começou a abrir caminho para muitos. A cultura, que até então se transmitia
lentamente, ganhou velocidade. A memória humana encontrou um novo corpo. A
ideia de futuro tornou‑se mais larga.
Mas este
acontecimento não é apenas histórico. É também simbólico. A Bíblia de Gutenberg
marca o momento em que a humanidade percebe que o que se imprime pode
sobreviver ao que se sente, e que a palavra impressa não anula a palavra viva, antes
a prolonga. É o instante em que a técnica se torna ponte, não barreira. Em que
o gesto individual se transforma em herança coletiva. Em que o conhecimento
deixa de ser um tesouro guardado e passa a ser um bem partilhado.
Há ainda uma
beleza silenciosa neste episódio: Gutenberg deu ao mundo algo sem saber se o
mundo lho devolveria. Criou sem garantia de retorno. Acreditou que valia a pena
oferecer, mesmo sem promessa de reconhecimento. E talvez seja por isso que esta
data ressoa tanto hoje, porque nos lembra que dar é sempre um ato de fé, e que
o conhecimento, tal como o amor, só cumpre o seu destino quando se partilha.
No fundo, 23
de fevereiro de 1455 não é apenas o dia em que um livro foi impresso. É o dia
em que a humanidade aprendeu a multiplicar a sua própria voz.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
A ÚLTIMA MESA DO CAFÉ AURORA
Meu nome é Ernesto Barros. Tenho setenta anos.
E sou o
último cliente do Café Aurora.
Durante
muitos anos, todas as manhãs, às sete em ponto, sentei-me à mesma mesa — a da
janela, com vista para a esquina onde a cidade acordava.
Primeiro com a
minha esposa, Marta, e os meus amigos. Depois, sozinho.
Marta se foi
há dez anos. Mas eu continuei indo. Por hábito. Por saudade. Por resistência.
O Aurora era
mais que um café: era uma espécie de refúgio. Um lugar onde eu via o tempo
passar sem pressa. Onde o garçom sabia como eu gostava do café (forte, sem
açúcar) e onde os olhos do dono me cumprimentavam sem palavras.
Era também
onde encontrei os meus três grandes amigos: Raul, comediante frustrado e poeta
de guardanapos. Gustavo, que jurava ter sido astronauta e que tinha uma coleção
de histórias — metade mentira, metade verdade. E Arminda, viúva duas vezes, que
nos colocava no eixo com um olhar só.
Éramos os
"Cinco do Aurora", como nos chamavam os funcionários.
Velhos
teimosos, que discutiam política, amor, cinema, guerras e saudades como se
fossem assuntos de mesa de bar — e eram.
Mas a vida,
essa que ninguém segura, começou a levar os meus.
Primeiro a
minha esposa. Raul partiu numa noite de tempestade, com um bilhete no bolso que
dizia “foi engraçado enquanto durou”.
Gustavo se
foi pouco depois, sem alarde — e com ele, as suas histórias estelares.
Arminda
resistiu até o último outono.
Na última vez
que a vi, ela segurou na minha mão e disse:
— Você vai
ser o último. Porque alguém precisa manter o riso vivo por mais um tempo.
Fiquei.
Na mesma
mesa.
Mesmo quando
o mundo ao redor mudou.
O bairro
ficou mais cinzento, os cafés modernos tomaram conta, e os jovens passaram a
andar com fones nos ouvidos, alheios à poesia dos dias.
Até que, numa
segunda-feira qualquer, o dono do café aproximou-se com olhos baixos:
— Ernesto…
vamos fechar no fim do mês. O movimento não compensa mais.
— Eu entendo
— menti.
Naquela
noite, voltei para casa e sentei-me na poltrona onde Marta bordava. O vazio era
ensurdecedor.
Mas então
pensei:
E se fosse o
contrário? E se, em vez de esperar que o mundo me esquecesse, eu lembrasse ao
mundo o que ele ainda pode sentir?
No dia
seguinte, convoquei o filho do dono, um jovem tímido, mas educado, e
perguntei-lhe:
— Posso
comprar o Aurora?
Ele riu-se,
achando que era brincadeira.
— Falo a sério.
Não quero mudar nada. Só manter o café vivo. Mas com um novo propósito.
Três semanas
depois, o Café Aurora reabriu — com nova placa, novo fôlego, mas a mesma alma.
Passou a
funcionar apenas pela manhã, como sempre foi.
Mas agora era
um espaço cultural: rodas de leitura, saraus, encontros de gerações.
Jovens vinham
ouvir histórias. E idosos voltavam a contá-las.
Servíamos
café, sim — mas também memória.
A minha mesa?
Continuava ali. À espera. Mas não mais solitária.
Hoje, todas
as quartas, conto histórias — algumas minhas, outras da minha esposa, do Raul,
do Gustavo, da Arminda.
Outras que
inventei só para ver os olhos dos netos dos vizinhos brilharem.
Não sou dono
de terras, nem deixei herança.
Mas deixei
portas abertas. Histórias no ar. Uma janela para quem quiser olhar.
E às vezes,
quando o sol bate na vitrine, eu juro que vejo a Marta, de vestido florido,
sorrindo no reflexo, como se dissesse:
— Agora sim. Você voltou a viver.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
FIDEL CASTRO
A 16 de fevereiro de 1959, Fidel Castro assumiu oficialmente o cargo de primeiro‑ministro de Cuba, consolidando o triunfo da revolução cubana e iniciando quase meio século de liderança política.
Esse momento
não foi apenas uma nomeação. Foi a passagem simbólica de um movimento
guerrilheiro para um projeto de Estado, e é por esse facto que a data tem tanto
peso histórico.
Nasceu a 13
de agosto de 1926, em Birán, Cuba, filho de um proprietário rural. Estudou em
colégios jesuítas e depois Direito na Universidade de Havana, onde se aproximou
de ideias anti‑imperialistas e marxistas.
Participou em
ações contra regimes autoritários na República Dominicana e na Colômbia. Em
1953, liderou o ataque ao Quartel Moncada, fracassado, mas decisivo para o mito
revolucionário. Foi preso e depois amnistiado.
Exilado no
México, fundou o Movimento 26 de Julho com Raúl Castro e Che Guevara. Em 1956
regressou a Cuba no iate Granma e iniciou a guerrilha na Sierra Maestra.
A 1 de janeiro de 1959, Batista fugiu, e Fidel Castro entrou triunfalmente em
Havana dias depois.
Liderou a
revolução que derrubou a ditadura apoiada pelos EUA e instaurou o primeiro
Estado socialista do hemisfério ocidental. Sob o seu governo a educação tornou‑se
universal e gratuita para o povo cubano. A saúde pública foi amplamente
expandida. O analfabetismo foi praticamente erradicado. A mortalidade infantil
atingiu um dos níveis mais baixo do continente americano. Estas conquistas são
frequentemente citadas como pilares do seu legado.
Em termos
geopolíticos e de soberania, enfrentou o embargo económico dos EUA, sobreviveu
a tentativas de invasão como a da Baía dos Porcos, e manteve uma aliança
estratégica com a URSS, que culminou na Crise dos Mísseis de 1962, um dos
momentos mais tensos da Guerra Fria.
A sua
capacidade de manter Cuba independente num tabuleiro dominado por
superpotências é vista como uma prova de liderança estratégica.
Fidel Castro possuía
grande carisma e capacidade mobilizadora. Era um orador de enorme energia,
capaz de discursos de horas, e um líder que inspirava devoção entre apoiantes e
temor entre adversários. A sua figura tornou‑se símbolo global de resistência
anti‑imperialista.
Foi um líder
complexo, admirado por muitos pelas conquistas sociais e pela afirmação
soberana de Cuba, e criticado por outros pelo carácter autoritário do regime e
pela ausência de liberdades políticas.
Fidel Castro
faleceu a 25 de novembro de 2016, em Havana, aos 90 anos.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
ABRAHAM LINCOLN
“Se quiser pôr à prova o carácter de um homem, dê‑lhe poder.”
Abraham
Lincoln nasceu a 12 de fevereiro de 1809, no Kentucky, numa família pobre de
agricultores. Cresceu em ambiente rural, com acesso limitado à educação formal,
mas desenvolveu desde cedo uma enorme curiosidade intelectual. Era autodidata:
lia à luz da lareira, copiava textos para os memorizar e formou-se praticamente
sozinho.
Mudou-se para
Illinois na juventude, onde trabalhou como lenhador, barqueiro, lojista e, mais
tarde, advogado. A sua entrada na política foi gradual, marcada por um talento
invulgar para o discurso público e por uma visão moral clara sobre a expansão
da escravatura nos Estados Unidos.
Em 1860, foi
eleito 16.º Presidente dos Estados Unidos, num país profundamente dividido. A
sua presidência coincidiu com a Guerra Civil Americana (1861–1865), o conflito
mais sangrento da história do país. Lincoln assumiu a liderança num momento de
crise absoluta, defendendo a preservação da União como princípio fundamental.
Em 1863,
proclamou a Emancipação dos Escravos nos estados rebeldes, gesto que
transformou a guerra numa luta pela liberdade e redefiniu o sentido moral da
nação. O seu discurso de Gettysburg, breve e austero, tornou-se um dos textos
políticos mais influentes da história.
Lincoln foi
reeleito em 1864, mas não viveu para ver a reconstrução do país. A 14 de abril
de 1865, poucos dias após o fim da guerra, foi assassinado em Washington. A sua
morte consolidou a imagem de um líder que, apesar das falhas e hesitações
humanas, encarnou a ideia de que a política pode ser um exercício de
consciência.
Hoje, Lincoln
é lembrado como um símbolo de integridade, coragem moral e capacidade de
liderança em tempos de escuridão.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
DINHEIRO VS CONHECIMENTO!
Texto traduzido
de: Olawale Kolawole
Muitas
pessoas argumentam que um equilíbrio entre dinheiro e conhecimento é
fundamental para o sucesso e para uma vida plena.
O dinheiro pode comprar conforto e ser usado para adquirir conhecimento por
meio de educação e experiência.
O conhecimento por outro lado pode ser usado para gerar, gerir, tomar decisões financeiras sábias e utilizar o dinheiro de forma eficaz visando o bem-estar.
O conhecimento é um ativo mais fundamental porque pode ser usado para gerar mais dinheiro.O dinheiro
sozinho não garante felicidade ou total ou realização, mas pode melhorar o
acesso a um conhecimento e educação melhores.
Você pode
ganhar dinheiro, mas o conhecimento vai garantir que ele fique consigo.
Embora ambos
sejam poderosos, o conhecimento geralmente é considerado superior ao dinheiro
porque o seu conhecimento não pode ser retirado, pode gerar mais riqueza e
oferece valores de longo prazo, enquanto o dinheiro é um recurso que pode perder
se não for bem administrado.
Dinheiro pode
abrir portas, mas conhecimento pode construir novas portas.
Agora assista
ao pequeno e fabuloso vídeo clicando no seguinte link:
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
INAUGURAÇÃO DO CANAL DE SUEZ
Há precisamente 156 anos, a 17 de novembro de 1869, era oficialmente inaugurado o Canal de Suez, numa grandiosa cerimónia realizada no Egito, sob o patrocínio do Quediva Ismail Paxá. A obra, idealizada e dirigida pelo engenheiro francês Ferdinand de Lesseps, ligou o Mar Mediterrâneo (Porto Said) ao Mar Vermelho (Suez), criando uma rota marítima direta entre a Europa e a Ásia, sem necessidade de contornar o Cabo da Boa Esperança.
Esta foi uma
das maiores obras infraestruturais do século XIX, e um marco de engenharia, com
cerca de 160 km de extensão, configurando-se como um símbolo de modernidade e
poder imperial. A inauguração contou com a presença de imperatrizes, reis e
diplomatas europeus, refletindo o interesse geopolítico na região e transformando
o comércio global ao reduzir em milhares de quilómetros as rotas comerciais
entre Ocidente e Oriente.
A cerimónia incluiu um desfile naval e um luxuoso banquete. Consta que a ópera Aida, de Verdi, foi encomendada para a ocasião, embora só tenha estreado dois anos depois, em 1871.
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