Letras&ideiaS
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
A REVOLTA DE SHAYS
Há datas que funcionam como avisos. 28 de agosto de 1786 é uma delas. Nesse dia, em Massachusetts, um grupo de agricultores endividados, veteranos da Guerra da Independência, homens que tinham lutado pela liberdade e agora eram esmagados por impostos e tribunais, decidiu que já não podia continuar a viver como antes. Liderados por Daniel Shays, levantaram-se contra um sistema que parecia ter esquecido quem o tinha sustentado.
A Revolta de
Shays não foi um capricho: foi um grito. Um grito contra elites que governavam
de longe, contra políticas que ignoravam a vida real, contra uma democracia
jovem que já mostrava sinais de fragilidade. A mensagem era simples: quando o
poder deixa de ouvir, o povo levanta-se.
E é
impossível não olhar para este episódio sem pensar na América de hoje. Um país
que continua a debater-se com desigualdades profundas, tensões sociais,
polarização extrema e uma liderança que, muitas vezes, parece governar olhando
apenas para o próprio umbigo. Há quem diga que os Estados Unidos vivem um
momento em que a democracia parece cada vez menos uma casa sólida, e mais uma
estrutura que range a cada ideia louca do seu líder.
A Revolta de
Shays lembra que a democracia não é garantida. Que não basta proclamar
liberdade — é preciso praticá-la. Que o poder que se fecha sobre si próprio
acaba sempre por perder o chão. E que, quando as instituições se afastam
demasiado das pessoas, as pessoas acabam por bater à porta, às vezes de forma
violenta.
No fundo, 28
de agosto de 1786 não foi apenas o dia em que um grupo de agricultores se
revoltou. É o dia em que a América aprendeu — e talvez precise de reaprender —
que a democracia só existe enquanto houver quem a exija.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
A MAIS BELA PROFISSÃO!
Há profissões extraordinárias, mas palhaço em contexto hospitalar é a mais bela…
Já o
vivenciei várias vezes, mas recentemente tive o privilégio e a honra de viver
um momento único, soberbo, mágico.
“Na cama 14
está o senhor Artur. Penso que não vale a pena visitarem… É um doente com
demência em fase terminal, paliativo, não comunica ou, quando o faz, não o
entendemos… A família esteve lá há pouco para se despedir dele! É uma situação
muito complexa… não recomendo que visitem!” — disse a enfermeira.
“Podemos ir?
Podemos tentar, enfermeira?” — dissemos nós. E fomos…
Na primeira
tentativa, o senhor Artur estava a dormir…
Na segunda,
estava uma enfermeira a falar com ele…
À terceira
foi de vez… Parámos à porta e ficámos à espera de um sinal…
“Podemos
entrar?” — perguntámos. Os sinais não eram claros, mas entrámos.
“Boa tarde,
senhor Artur!” — disse a Marilua.
O olhar era
de leitura complexa e os sons que saíam da boca, seca e frágil, eram
impercetíveis…
“Senhor Artur, pediram-nos para vir cá
cantar-lhe uma música…” — disse o Risotto. Cantámos o Malhão, Malhão!
E o senhor
Artur — pele branca, magro, movimentos lentos — transformou-se! Começou
primeiro a bater palmas, depois começou a dançar… foi lindo!
Começou a
dançar com braços, mãos e ombros, num movimento característico de quem dança no
rancho… extraordinário!!
Olhei para a
Marília e os olhos dela brilhavam de felicidade… Os dois olhámos um para o
outro, a cantar, mas com um ar de pura felicidade, orgulhosos por poder estar a
assistir a um momento mágico, extraordinário, belo, encantador, memorável…
Ao sair do
quarto, demos um abraço; os nossos olhos falavam pelo coração…
No caminho
para casa, só pensava: como “passo isto para palavras”? Gostava de ter a
capacidade de “misturar as letras” e “juntar as palavras” para que pudesse
mostrar ao mundo que, em todos nós, em todos os momentos da vida, mesmo nas
situações mais duras, mais ou menos complexas, podemos sempre tocar o outro,
podemos trazer o outro para o aqui e para o agora. Que, até ao último respirar,
devemos sempre cuidar, amar e dar o melhor do mundo ao outro…
Como diz o
humanista francês Abbé Pierre: “temos dois olhos: um para ver as coisas belas
do mundo e outro para as coisas feias!" Para mim, o mundo está cheio de
coisas belas e de gente boa… depende de como olhámos!
Palhaços d' Opital (Jorge Rosado)
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
STEVE WOZNIAK
Steve Wozniak nasceu a 11 de agosto de 1950, em San José, filho de um engenheiro que lhe ensinou cedo que a eletrónica não era apenas técnica — era uma forma de brincar com o mundo. Cresceu entre circuitos, rádios desmontados e aquela curiosidade quase infantil que nunca o abandonou. Ao lado de Steve Jobs, fundou a Apple em 1976, mas foi Wozniak quem deu corpo ao sonho: o Apple I, um computador simples, elegante, acessível, que parecia mais uma promessa do que um produto. E foi a 14 de agosto de 1976, há precisamente 50 anos, que Wozniak concluiu o projeto final da máquina, transformando uma ideia de garagem numa semente de futuro.
Nesse dia, a
Califórnia acordou com o seu sol habitual — o brilho nos carros, o cheiro a
asfalto quente, a pressa dos que acreditam que o futuro está sempre a chegar —
sem imaginar que, naquela manhã, um homem terminava um circuito capaz de
alterar a relação entre pessoas e tecnologia. Wozniak não era um visionário
performativo; era um artesão da simplicidade. Trabalhou sozinho, noite após
noite, como quem afina um instrumento que ainda não sabe que vai mudar a música
do mundo.
Quando o
Apple I ganhou forma definitiva, não houve fogos de artifício. Houve apenas a
serenidade de um engenheiro que olha para o seu trabalho e reconhece nele uma
espécie de inevitabilidade. A máquina não era poderosa; era possível. E, nesse
gesto, inaugurou uma era em que os computadores deixaram de ser monstros
industriais e passaram a ser companheiros domésticos, extensões da curiosidade
humana.
Nos anos
seguintes, a Apple cresceu, multiplicou-se, reinventou-se. Steve Jobs tornou-se
o rosto público, o narrador da revolução. Mas Wozniak permaneceu como o seu
coração técnico — o homem que acreditava que a tecnologia devia ser generosa,
clara, acessível. E foi naquele 14 de agosto que o mundo, sem o saber, recebeu
o primeiro sopro dessa generosidade.
Talvez seja
isso que faz de Wozniak um grande líder: ter mostrado que a verdadeira grandeza
não se mede em poder, mas em legado. E que há homens que, um dia quando
partirem, continuarão a mover o mundo, como uma máquina que nunca se apaga
totalmente.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
THOMAS MANN
Thomas Mann, romancista alemão nascido em 1875 e falecido a 12 de agosto de 1955, foi uma das vozes morais mais influentes da literatura europeia do século XX. A sua obra, marcada por uma atenção rigorosa às tensões entre indivíduo e sociedade, sempre procurou compreender como se constrói uma vida ética num mundo em permanente conflito.
A frase “A tolerância torna possível a convivência; a
verdade torna possível o respeito” condensa essa visão: a convivência exige
abertura, mas o respeito exige coragem — a coragem de dizer, ouvir e sustentar
a verdade.
É
precisamente essa dupla exigência que ressoa no 12 de agosto, dia em que Mann é
lembrado e em que também se celebra o Dia Internacional da Juventude. A
coincidência não é apenas cronológica: é simbólica. A juventude, enquanto força
que questiona, renova e desafia, precisa tanto da tolerância que permite o
encontro como da verdade que funda relações autênticas. Sem tolerância, não há
espaço para crescer; sem verdade, não há estrutura para permanecer.
Lida hoje, a
frase de Mann funciona como um lembrete discreto de maturidade cívica: tolerar
não é relativizar, é acolher; dizer a verdade não é ferir, é clarificar. E
quando estes dois gestos se encontram, a convivência deixa de ser apenas
possível — torna-se digna. É essa dignidade que o 12 de agosto procura
celebrar: a capacidade de construir futuro com respeito, lucidez e coragem.
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
O DIA EM QUE O LOUVRE ABRIU PORTAS!
Toda a gente sabe que o Louvre é hoje o museu mais visitado do mundo, com filas intermináveis, multidões diante da Mona Lisa e turistas a disputar centímetros de chão para uma fotografia. O que quase ninguém sabe é que, no dia em que abriu portas ao público, quase ninguém apareceu.
A 10 de agosto de 1793, Paris
ganhava o seu grande “Museu Central das Artes da República”, mas a cidade tinha
coisas bem mais urgentes em que pensar.
O contexto
ajuda a perceber o silêncio. Estávamos em plena Revolução Francesa, num dos
períodos mais turbulentos da história do país. A monarquia tinha caído, a
guilhotina trabalhava em horário alargado, a suspeita era uma forma de
respiração. No meio deste cenário, o antigo palácio real, símbolo de luxo e
poder, transformava‑se em museu público, aberto a todos. Um gesto profundamente
revolucionário: a arte deixava de ser privilégio da corte e passava a ser
património de povo.
Só que o
povo, nesse dia, não estava exatamente disponível para ir ver quadros. Entre o
preço do pão, o medo das denúncias, as prisões e as execuções, a visita ao
Louvre não era prioridade. Os salões, preparados para receber multidões,
acolheram apenas alguns curiosos, funcionários e poucos visitantes dispersos. O
grande museu da República nasceu, na prática, quase em silêncio.
Há aqui uma
ironia deliciosa: o lugar que hoje simboliza a democratização da arte começou a
sua vida pública sem público. O gesto político era enorme, mas o impacto
imediato foi mínimo. A História, como tantas vezes acontece, só se apercebeu da
importância daquele dia muito depois. O Louvre foi crescendo, mudando,
acumulando obras, tornando‑se ícone mundial, mas a sua estreia foi tímida,
quase invisível.
Talvez haja
nisto uma pequena lição contemporânea: nem todos os momentos decisivos começam
com aplausos, nem todas as mudanças estruturais se anunciam com multidões. Às
vezes, o futuro abre portas discretamente, num edifício quase vazio, enquanto a
cidade olha para outro lado.
O Louvre
abriu portas. O mundo demorou a entrar.
E esta hem!
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
MERYL STREEP
Não deixar de ser quem somos…
Se eu tiver
de explicar o meu valor, se tiver de convencer alguém a me amar, então esse não
é o meu lugar.
A vida é
muito curta para desperdiçar energia com o que não é mútuo.
Não tenho
medo de envelhecer.
Tenho medo de
deixar de ser eu mesma para agradar aos outros.
Neste ponto,
escolho a minha paz acima de qualquer coisa.
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