Há profissões extraordinárias, mas palhaço em contexto hospitalar é a mais bela…
Já o
vivenciei várias vezes, mas recentemente tive o privilégio e a honra de viver
um momento único, soberbo, mágico.
“Na cama 14
está o senhor Artur. Penso que não vale a pena visitarem… É um doente com
demência em fase terminal, paliativo, não comunica ou, quando o faz, não o
entendemos… A família esteve lá há pouco para se despedir dele! É uma situação
muito complexa… não recomendo que visitem!” — disse a enfermeira.
“Podemos ir?
Podemos tentar, enfermeira?” — dissemos nós. E fomos…
Na primeira
tentativa, o senhor Artur estava a dormir…
Na segunda,
estava uma enfermeira a falar com ele…
À terceira
foi de vez… Parámos à porta e ficámos à espera de um sinal…
“Podemos
entrar?” — perguntámos. Os sinais não eram claros, mas entrámos.
“Boa tarde,
senhor Artur!” — disse a Marilua.
O olhar era
de leitura complexa e os sons que saíam da boca, seca e frágil, eram
impercetíveis…
“Senhor Artur, pediram-nos para vir cá
cantar-lhe uma música…” — disse o Risotto. Cantámos o Malhão, Malhão!
E o senhor
Artur — pele branca, magro, movimentos lentos — transformou-se! Começou
primeiro a bater palmas, depois começou a dançar… foi lindo!
Começou a
dançar com braços, mãos e ombros, num movimento característico de quem dança no
rancho… extraordinário!!
Olhei para a
Marília e os olhos dela brilhavam de felicidade… Os dois olhámos um para o
outro, a cantar, mas com um ar de pura felicidade, orgulhosos por poder estar a
assistir a um momento mágico, extraordinário, belo, encantador, memorável…
Ao sair do
quarto, demos um abraço; os nossos olhos falavam pelo coração…
No caminho
para casa, só pensava: como “passo isto para palavras”? Gostava de ter a
capacidade de “misturar as letras” e “juntar as palavras” para que pudesse
mostrar ao mundo que, em todos nós, em todos os momentos da vida, mesmo nas
situações mais duras, mais ou menos complexas, podemos sempre tocar o outro,
podemos trazer o outro para o aqui e para o agora. Que, até ao último respirar,
devemos sempre cuidar, amar e dar o melhor do mundo ao outro…
Como diz o
humanista francês Abbé Pierre: “temos dois olhos: um para ver as coisas belas
do mundo e outro para as coisas feias!" Para mim, o mundo está cheio de
coisas belas e de gente boa… depende de como olhámos!
Palhaços d' Opital (Jorge Rosado)






