No passado via apenas uma novela de cada vez. Era um ritual doméstico, quase disciplinado, como quem segue uma rotina que não exige explicações. Uma história, um elenco, um conflito central, bastava‑me. Contudo, com o aumento da produção nacional nos principais canais televisivos portugueses, dei por mim a seguir duas ou três simultaneamente, como se tivesse descoberto um novo apetite, não físico, mas narrativo, aquele que se instala quando percebemos que as histórias têm um poder aditivo subtil, quase químico, que se infiltra no quotidiano sem pedir licença.
A capacidade viciante das histórias não nasce apenas da
curiosidade, mas da forma como se encadeiam na nossa cabeça. Uma novela não
termina quando o episódio acaba – continua a trabalhar dentro de nós, como se
cada personagem ocupasse um pequeno compartimento mental. Quando seguimos
várias ao mesmo tempo, esses compartimentos começam a comunicar entre si,
criando uma espécie de ruído emocional que nos acompanha ao longo do dia. É
quase uma polifonia doméstica: enquanto cozinhamos, lembramo‑nos da discussão
do casal da novela das nove; enquanto conduzimos, pensamos na reviravolta da outra
que vem a seguir; enquanto tentamos dormir, surge aquela pergunta que não devia
surgir — “será que ela vai descobrir a verdade?”
Mas o mais curioso é que este fenómeno não acontece da mesma
forma com as séries. As séries são organizadas como arquiteturas narrativas:
temporadas curtas, episódios pensados ao milímetro, arcos que se fecham com
precisão quase cirúrgica. São histórias que se consomem com a sensação de que
alguém planeou tudo para que o espectador não se perca. Já as novelas são
organismos vivos, que crescem, se estendem, se adaptam ao público, às
audiências, às circunstâncias. Uma série pode ter três temporadas; uma novela mais
de uma centena de episódios. Uma série é uma casa bem desenhada; uma novela é
uma cidade em expansão.
E é precisamente essa expansão que alimenta a adição. Porque
quando uma história dura meses, às vezes mais de um ano, cria uma relação de
convivência. Não é apenas acompanhar personagens; é viver com elas. A novela
atravessa estações, feriados, mudanças de humor, semanas boas e más. E quando
seguimos várias ao mesmo tempo, essa convivência multiplica‑se, como se
tivéssemos várias famílias ficcionais a ocupar o mesmo espaço na nossa cabeça.
Até que chega um momento em que percebo que não estou apenas
a seguir histórias — estou a ser seguido por elas. Elas perseguem‑me, encostam‑se
ao meu dia, pedem atenção, exigem continuidade. E eu cedo, claro. Porque há
algo de irresistível na forma como as novelas se prolongam, como se recusassem
a deixar‑nos ir. Uma série termina e ficamos livres. Uma novela termina e
ficamos órfãos.
Gosto de ver novelas, mas… há um ponto em que o prazer da
história começa a disputar espaço com uma inquietação mais funda. Porque, ao
seguir duas ou três ao mesmo tempo, percebo que não estou apenas a consumir
ficção: estou também a absorver um conjunto de mensagens que, mesmo sem
intenção explícita, moldam comportamentos, normalizam hábitos, insinuam ideias.
E é aqui que entra a tal responsabilidade social que raramente é discutida —
aquela que se esconde nos detalhes, nos gestos repetidos, nos objetos que
aparecem em cena como se fossem parte natural da paisagem.
Um exemplo claro é a novela A Madrasta, da TVI, que
sigo diariamente. A história, por si só, já é um laboratório de tensões: uma
família corroída pela intriga, pela falsidade, rodeada de amigos interesseiros
que orbitam em torno do poder e do dinheiro. Até aqui, nada de novo — as
novelas sempre gostaram de famílias disfuncionais, de segredos mal guardados,
de alianças que duram o tempo de um copo pousado na mesa. O problema nesta
novela é precisamente esse copo. Porque há sempre um, em quase todas as cenas, divisões
e circunstâncias.
Na sala, há bebida. Na biblioteca, há bebida. Nos gabinetes
da empresa financeira, há bebida. E não é apenas presença decorativa: é consumo
ativo, constante, quase ritualístico.
Os personagens afogam-se em álcool com a mesma naturalidade
com que respiram. Não há reflexão, não há consequência, não há sequer um
momento de desconforto. A bebida surge como um bálsamo imediato, um calmante
emocional, uma espécie de terapia líquida que atenua tudo: discussões,
frustrações, revelações, silêncios.
Esta normalização do álcool é uma mensagem subliminar
poderosa. Mesmo indo para o ar num horário fora das restrições legais impostas
para a publicidade, a novela cria um imaginário onde beber é tão natural como
conversar. Onde o álcool é sempre acessível, sempre presente, sempre útil. Onde
a ideia de que “um copo ajuda” se infiltra sem resistência.
Gosto de ver novelas, mas… há um ponto em que a ficção deixa
de ser apenas entretenimento e passa a ser também influência. E, por isso
mesmo, as produtoras têm de reconhecer que cada copo em cena, cada gesto
repetido, cada normalização silenciosa carrega uma responsabilidade social
real. Não se trata de censura, mas de consciência: quem constrói histórias
constrói também referências. E, num país onde tantos procuram nas novelas um
espelho do quotidiano, é urgente que esse espelho não distorça aquilo que devia
proteger. As narrativas podem ser aditivas, sim, mas que nunca o sejam à custa
de valores que merecem ser cuidados.
“A responsabilidade
é o preço da liberdade.”
Elbert Hubbard (escritor, editor, filósofo e empreendedor cultural norte‑americano)





