sexta-feira, 2 de outubro de 2026

ENTRE O BERÇO E O ABISMO

Nasci sem mapa nem destino,
num mundo por desvendar,
com o amor no meu caminho,
e o diabo a espreitar.

Entre promessas e enganos,
fui crescendo sem saber,
se os sonhos contam os anos,
ou os anos fazem morrer.

Vi cidades iluminadas,
e outras prestes a cair,
vi almas serem compradas,
e corações a resistir.

Vi guerras sem sentido,
e gestos de compaixão,
vi o homem dividido,
entre a fome e o pão.

Entre o berço e o abismo,
vai a vida a caminhar,
leva o amor consigo,
e o diabo a acompanhar.

Mas nenhum vence a batalha,
nem reclama a decisão,
pois o destino se entalha,
dentro de cada coração.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A PORTA VELADA

Na rua estreita onde o vento parecia escolher quem tocava, havia uma porta que ninguém se lembrava de ter visto antes. Não era antiga nem nova — apenas estava ali, encaixada no prédio como se tivesse chegado por engano. 

A madeira tinha um tom escuro, quase negro, e refletia a luz da manhã de um modo que não combinava com o resto da rua. As pessoas passavam, olhavam de relance, e seguiam. Mas havia quem parasse. E esses, por razões que nunca eram claras, sentiam a porta respirar.

Quem se detinha diante da porta não o fazia por curiosidade, mas por uma espécie de hesitação interior, como se algo os chamasse sem voz. Alguns aproximavam a mão da madeira escura e sentiam um leve calor, tímido, que não combinava com uma manhã fria. Outros recuavam antes de tocar, convencidos de que a porta os observava. E havia ainda quem a tentasse abrir, mas para esses, ela permanecia imóvel, silenciosa, absolutamente fechada.

Numa dessas manhãs, alguém parou mais tempo do que o habitual. Era uma mulher de passos cautelosos, que trazia no olhar a fadiga de quem já viu demasiadas coincidências na vida. Ficou imóvel diante da porta, como se esperasse que ela lhe desse um sinal. A rua parecia suspensa, o vento recuou, e por um instante a madeira sombria brilhou com uma intensidade quase familiar. A mulher respirou fundo, aproximou a mão, e a porta, pela primeira vez, pareceu inclinar-se para ela.

Manteve a mão suspensa, sem tocar, como se soubesse que o gesto teria consequências. A porta, imóvel para todos os outros, parecia agora ajustar-se à sua presença, impercetivelmente, como um animal que reconhece um cheiro antigo. O reluzir na madeira tornou-se mais profundo, e a rua, antes indiferente, recolheu-se num silêncio atento. Por um instante, a mulher sentiu que bastaria um movimento mínimo para que algo acontecesse — não uma abertura, mas uma espécie de passagem que não precisava de se ver para existir.

Recuou um passo, como se a porta lhe tivesse revelado algo que não precisava de compreender. O brilho desvaneceu-se devagar, retomando a madeira o tom opaco que levava a que todos a ignorassem. A rua retomou o movimento, indiferente ao que não acontecera. A mulher afastou-se sem olhar para trás, certa apenas de uma coisa: a porta abrira-se, mas não para ela.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

LOUIS PASTEUR

“A sorte favorece os espíritos preparados.”

Louis Pasteur, químico e microbiologista francês falecido a 28 de setembro de 1895, dedicou a vida a observar aquilo que a maioria não conseguia ver. Das descobertas que revolucionaram a medicina moderna à compreensão do papel dos microrganismos nas doenças, o seu trabalho deixou uma marca profunda na história da humanidade. Entre as muitas frases que lhe são atribuídas, poucas se tornaram tão célebres como esta.

A primeira leitura parece simples – a sorte existe. Mas Pasteur convida-nos a olhar mais fundo. Quantas oportunidades passam diante de nós sem que as reconheçamos? Quantas respostas se escondem em sinais que ignoramos por falta de atenção, conhecimento ou persistência? Para ele, a sorte não era um acontecimento mágico, mas o encontro entre uma circunstância inesperada e alguém capaz de a compreender.

Esta data em que recordamos o seu legado, torna-se assim uma oportunidade para refletir sobre aquilo que fazemos enquanto esperamos. Porque a diferença entre o acaso e a oportunidade raramente está no acontecimento em si – está na preparação de quem o recebe. O sucesso pode surgir num instante, mas quase sempre encontra décadas de trabalho silencioso, estudo, disciplina e perseverança.

Lida hoje, esta frase lembra-nos que não controlamos tudo o que a vida nos traz, mas podemos controlar a forma como nos preparamos para o que vier. E talvez seja essa a verdadeira sorte: estar pronto quando a oportunidade bate à porta.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A INSUBMERSÍVEL

Quando se fala no Titanic, a memória coletiva guarda o navio, o icebergue e as mais de 1.500 vidas perdidas. O que quase ninguém sabe é que houve uma mulher que sobreviveu não apenas ao Titanic, mas também a outros dois acidentes marítimos envolvendo navios da mesma companhia. Chamava-se Violet Jessop. E acabou por ganhar um apelido improvável – a insubmersível.

Nascida a 25 de setembro de 1887, Violet Jessop trabalhava como hospedeira da White Star Line, a empresa proprietária do Titanic. 

Em 1911 encontrava-se a bordo do Olympic quando este colidiu com um cruzador da marinha britânica. O navio não afundou, mas o acidente foi suficientemente grave para merecer manchetes em todo o mundo.

Qualquer pessoa prudente talvez tivesse considerado mudar de profissão. Mas Violet Jessop continuou a sua carreira no mar. No ano seguinte embarcou no Titanic. Na madrugada de 15 de abril de 1912, quando o navio embateu no icebergue, conseguiu entrar num bote salva-vidas e foi resgatada horas mais tarde.

Sobreviver a um desastre daqueles já seria matéria suficiente para uma vida inteira de histórias. Mas o destino ainda não tinha terminado com ela.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Violet Jessop embarcou no Britannic, o navio-irmão do Titanic transformado em navio-hospital. Em 1916, uma explosão provocada por uma mina afundou a embarcação no Mar Egeu. Mais uma vez, ela escapou com vida. Desta vez, nem tudo correu bem: ao saltar para a água sofreu um ferimento na cabeça que só anos depois viria a descobrir ter sido uma fratura.

Três grandes acidentes. Três navios da mesma família. Três sobrevivências.

Há quem fale em sorte. Há quem fale em destino. Seja qual for a explicação, é difícil encontrar outro currículo semelhante. Enquanto milhões de pessoas lembram o Titanic, poucas recordam a mulher que sobreviveu ao Olympic, ao Titanic e ao Britannic.

O mar tentou três vezes. Não conseguiu.

E esta hem! 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

JOÃO CASARRI NETO

Inteligência Emocional

A Inteligência Emocional (IE) é a capacidade de reconhecer, compreender, gerir e influenciar as próprias emoções e as dos outros. Isto envolve uma série de habilidades que permitem às pessoas lidarem de forma eficaz com as suas emoções e construírem relacionamentos mais sólidos com outras pessoas.

O conceito de IE, foi popularizado pelo psicólogo Daniel Goleman, que destaca cinco componentes principais:

- o autoconhecimento emocional, que envolve reconhecer e compreender as próprias emoções e o seu impacto nos pensamentos e comportamentos;

- a autorregulação, que é a capacidade de controlar ou redirecionar impulsos disruptivos e adaptar-se a mudanças mantendo o equilíbrio emocional;

- a motivação, que significa a disposição para perseguir objetivos com energia e persistência, mesmo diante de desafios;

- a empatia, que se trata da capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos dos outros, respondendo adequadamente às suas necessidades emocionais;

- as habilidades sociais, que é a capacidade de construir e manter relacionamentos saudáveis, comunicar-se de forma eficaz, resolver conflitos e colaborar em equipa.

A Inteligência Emocional, porém, não faz tudo isso sozinha. Na verdade, ela complementa a inteligência cognitiva (QI) e é reconhecida como um fator importante para o sucesso e o bem-estar de qualquer indivíduo.

 Ela melhora a comunicação ao permitir que as pessoas entendam as necessidades e sentimentos dos outros, promovendo assim relacionamentos mais fortes e a solução harmoniosa de conflitos. Além disso, a IE favorece o trabalho em equipa, permitindo dessa forma uma colaboração mais eficaz, além de criar um ambiente de trabalho mais cooperativo e produtivo.

Sem falar que a IE também aumenta a resiliência, uma vez que ajuda as pessoas a lidar com a pressão, o stress e os contratempos de forma equilibrada. Isso permite que se recuperem rapidamente e mantenham o foco nos seus objetivos.

Ajuda os líderes a inspirar e motivar as suas equipas, a partir do momento em que eles passem a compreender e abordar com empatia as emoções dos seus colaboradores. E, adicionalmente, melhora a tomada de decisões, pois evita que os líderes tenham reações impulsivas, abordando situações adversas com racionalidade e estratégia.

A adaptabilidade é mais uma coisa que melhora quando o Indivíduo tem IE, pois permite que os profissionais enfrentem mudanças e incertezas com facilidade — tornando-se assim, uma habilidade essencial no dinâmico mercado de trabalho de hoje.

Por fim, podemos dizer que a Inteligência Emocional não fortalece apenas as habilidades interpessoais, mas também amplia a capacidade de lidar com desafios, tomar decisões assertivas e liderar com eficácia. E não deixa dúvidas de que essas qualidades estão fortemente ligadas ao sucesso profissional, tornando a IE um recurso indispensável para o crescimento pessoal e profissional. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

MARCHA CLIMÁTICA GLOBAL

Há dias em que a humanidade descobre que tem voz. 18 de setembro de 2014 foi um desses dias. Em mais de 150 países, milhões de pessoas saíram à rua para participar na Marcha Climática Global, uma mobilização que não defendia partidos, governos ou ideologias — defendia algo mais simples e mais urgente: o direito ao futuro.

Não houve líder único, nem manifesto fechado. Houve famílias com cartazes feitos à mão, cientistas que deixaram os laboratórios, avós que marcharam para memória dos netos, estudantes que recusavam herdar um planeta em declínio. Em Nova Iorque, Londres, Delhi, Maputo, Rio de Janeiro, Lisboa, Sydney — cidades tão diferentes que raramente se cruzam — o mesmo grito ecoou: “Não há planeta B.”

A força deste dia não esteve na dimensão da marcha, mas na sua natureza. Foi a primeira vez que o mundo falou ao mesmo tempo sobre o clima. A primeira vez que a crise ambiental deixou de ser um debate técnico e passou a ser uma exigência humana. A primeira vez que a urgência se tornou visível, palpável, incontornável.

E, no entanto, ao olhar para 2026, percebe‑se que aquele grito ainda não encontrou resposta à altura. O planeta continua a aquecer, as desigualdades ambientais aprofundam‑se, e a sensação de que estamos a viver numa contagem decrescente tornou‑se quase quotidiana. Talvez por isso este dia seja tão importante – porque recorda que a esperança não nasce da espera, mas da ação.

No fundo, 18 de setembro de 2014 não é apenas o dia em que milhões marcharam. É o dia em que o mundo percebeu que, para salvar o futuro, tem de começar por se unir no presente.

ENTRE O BERÇO E O ABISMO

Nasci sem mapa nem destino, num mundo por desvendar, com o amor no meu caminho, e o diabo a espreitar. Entre promessas e enganos, fui cresce...