sexta-feira, 9 de outubro de 2026

OS MERCADORES DA VERDADE

Nas praças da modernidade,
vendem sonhos sem valor,
trocam ouro por vaidade,
e mentira por louvor,
fazem preço da verdade,
e negócio do amor.


Levantam vozes ao vento,
como quem sabe guiar,
mas escondem pensamento,
por detrás de cada olhar,
e transformam sentimento,
num produto para dar.


Há quem siga essa corrente,
sem sequer a questionar,
e há quem guarde, firmemente,
uma luz para encontrar,
pois nem todo o coração mente,
quando escolhe acreditar.


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O BILHETE

O bilhete estava dobrado em quatro quando Luís o encontrou no banco mais afastado do jardim. Não havia ninguém por perto, apenas o movimento lento das folhas secas empurradas pelo vento. Pensando tratar-se de um recibo abandonado, apanhou-o e preparava-se para o deitar fora. Porém, ao abrir o papel amarelado, deparou-se com uma única frase escrita à mão: "Ainda bem que chegaste, Luís."

Leu a frase várias vezes, procurando uma explicação simples para o que tinha acabado de encontrar. 

Talvez fosse uma coincidência, uma partida ou um bilhete perdido por outra pessoa com o mesmo nome. Contudo, ao virar o papel, descobriu uma segunda anotação, mais pequena e quase apagada pelo tempo. Dizia apenas: “Não te sentes no banco junto ao lago.” O aviso fê-lo erguer os olhos de imediato para a margem tranquila da água.

Sem saber porquê, guardou o papel no bolso e começou a caminhar em direção ao lago. O banco mencionado ficava do outro lado da bacia, parcialmente escondido por um salgueiro antigo. Enquanto observava o local, viu um homem aproximar-se e sentar-se ali durante alguns minutos. Depois levantou-se e afastou-se calmamente. Foi então que Luís reparou num detalhe inesperado: o homem tinha deixado um bilhete sobre o banco.

Movido por uma inquietação que não conseguia explicar, acercou-se do banco e recolheu o segundo bilhete. O papel era semelhante ao primeiro: envelhecido, dobrado e escrito com a mesma caligrafia irregular. Desta vez, a mensagem era ainda mais curta: “Cheguei tarde demais.” Luís releu aquelas palavras várias vezes. No canto inferior, quase escondida pela dobra, aparecia uma data. Era a do dia seguinte.

Guardou os dois papéis e regressou a casa com a estranha sensação de que alguém tentava avisá-lo de algo. Na manhã seguinte, voltou ao jardim ainda antes do sol nascer. O banco junto ao lago estava vazio, mas um terceiro bilhete aguardava por ele. Tremendo, leu a mensagem: “Desta vez chegaste a tempo.” Levantou os olhos em direção à água. Ao longe, um homem que se parecia consigo próprio afastava-se lentamente pela névoa.

Mais tarde, já em casa, Luís abriu novamente os três bilhetes e alinhou-os sobre a mesa. Foi então que reparou num detalhe que antes lhe escapara – a mesma assinatura surgia no verso de cada um deles. Era o seu próprio nome, escrito por uma caligrafia que reconhecia, embora tivesse a certeza de nunca a ter usado.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

ONDE NADA FICOU

Há lugares que não se perdem num dia – dissolvem‑se. Primeiro desaparece o som das casas habitadas, depois a geometria das ruas, por fim a certeza de que ali existiu uma comunidade inteira. A antiga aldeia que repousa sob o espelho da barragem é um desses lugares. Quem chega à margem sente uma ausência que não se explica pela água. Não há ruínas à vista, não há pedras soltas, não há restos de fundações. Há apenas um silêncio húmido, pesado, como se o tempo tivesse decidido apagar o lugar sem deixar testemunho.

A aldeia era Vilarinho da Furna, submersa em 1971 pela construção da barragem do Rio Homem. Durante décadas, o lugar viveu apenas na memória dos antigos habitantes e nos registos dispersos que sobreviveram ao desaparecimento físico. Hoje, quem observa a superfície tranquila da albufeira sabe que, sob aquela água imóvel, repousa o traço apagado de uma comunidade inteira. Nada do que ali existiu é visível, mas tudo permanece latente, como se o tempo tivesse guardado o lugar num silêncio próprio.

Os antigos habitantes falam da aldeia como quem recorda um corpo perdido – cada casa guardava uma história, cada rua tinha um nome, cada gesto quotidiano parecia ter uma espessura própria. Quando a água chegou, não foi apenas o território que submergiu — foi uma forma de viver. Muitos ainda descrevem o dia em que partiram como uma espécie de suspensão. Deixaram portas abertas, como se fossem regressar, e levaram apenas o que cabia na memória. O que desapareceu não foi só um lugar, foi a continuidade das pessoas que o habitavam.

Há memórias que sobrevivem melhor do que as pedras. Quem viveu em Vilarinho da Furna não recorda apenas a aldeia submersa, mas a forma como o tempo parecia mover‑se ali, devagar, com uma espécie de respeito pelos gestos simples. Talvez por isso o desaparecimento tenha doído mais do que a perda material. A água engoliu as casas, mas não conseguiu levar o modo como cada pessoa se reconhecia no outro. O que ficou não é visível, mas permanece como uma respiração antiga que insiste em não se apagar.

Hoje, ao olhar a superfície tranquila da barragem, percebe‑se que o desaparecimento de Vilarinho da Furna não é apenas passado. É uma lembrança que continua a ensinar silêncio. Há lugares que persistem sem se mostrar, guardados na forma como pensamos o tempo.

 

“A memória é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos.”

Johann Paul Friedrich Richter (escritor alemão do Século XVIII) 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

NEWSLETTER 40/2026

Resenha da Semana

Há semanas que parecem anunciar mudanças. Esta foi uma delas.

Enquanto, em Nova Iorque, os líderes mundiais se reuniam na Assembleia-Geral das Nações Unidas para discutir a necessidade de restaurar a confiança num mundo marcado por guerras, tensões económicas, alterações climáticas e transformações tecnológicas, também em Portugal se assistia ao encerramento de um ciclo que marcou uma geração de adeptos. A confiança emergiu como palavra-chave de ambos os acontecimentos.

No plano internacional, multiplicaram-se os apelos ao diálogo e à cooperação, numa altura em que muitos questionam a capacidade das instituições para responder aos desafios do presente. O mundo procura novas respostas sem perder de vista os valores que lhe deram estabilidade durante décadas.

No plano nacional, o futebol ofereceu-nos uma metáfora semelhante. A saída de Cristiano Ronaldo da Seleção Nacional encerra uma era inédita, feita de recordes, conquistas e inspiração. Mas o futebol, como a vida, raramente permite paragens prolongadas. Sob a liderança de Jorge Jesus, Portugal respondeu com três vitórias consecutivas, demonstrando que a sucessão não representa necessariamente uma rutura, mas antes a continuação de um caminho por novas mãos.

Entre nações e seleções, a lição da semana talvez seja a mesma: os ciclos mudam, os protagonistas passam, mas o futuro constrói-se quando existe confiança suficiente para acreditar no que vem a seguir.

 

Não sou eu que digo

Durante a abertura do debate da 81.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, traçou um retrato das principais ameaças que o mundo enfrenta atualmente, e deixou um apelo à cooperação internacional, tão necessária para ultrapassarmos este momento complexo que vivemos:

"O mundo encontra-se numa encruzilhada. As linhas de fratura estão a alargar-se. A nossa resposta à guerra, à desigualdade, às alterações climáticas e à inteligência artificial determinará o futuro da humanidade. Devemos assegurar que prevaleça o poder da lei e não a lei do poder."

 

Grandes Líderes

A saída de Cristiano Ronaldo da Seleção Nacional recorda-nos que a influência nem sempre termina quando termina a função. Os grandes líderes deixam marcas que sobrevivem ao cargo, à posição ou ao protagonismo.

Um dos melhores exemplos foi Nelson Mandela. Depois de abandonar a presidência da África do Sul, deixou de exercer o poder formal, mas continuou a ser a principal referência moral do seu país. Já não governava, mas continuava a inspirar. Já não decidia, mas continuava a influenciar gerações através do exemplo, da coragem e da capacidade de unir pessoas em torno de um objetivo comum.

As organizações, os países e até as equipas desportivas necessitam de líderes formais. Mas necessitam também de referências que ajudem os outros a acreditar quando os ciclos mudam. É essa capacidade de inspirar, mesmo sem exercer o comando direto, que distingue os líderes verdadeiramente grandes dos que apenas ocupam posições de poder.

Porque, no fim, liderar não é mandar. É deixar um legado que continue a orientar os outros mesmo quando já não estamos à frente.

 

Frase da Semana

"O futuro depende do que fazemos no presente."

— Mahatma Gandhi (líder pacifista indiano) 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

ENTRE O BERÇO E O ABISMO

Nasci sem mapa nem destino,
num mundo por desvendar,
com o amor no meu caminho,
e o diabo a espreitar.

Entre promessas e enganos,
fui crescendo sem saber,
se os sonhos contam os anos,
ou os anos fazem morrer.

Vi cidades iluminadas,
e outras prestes a cair,
vi almas serem compradas,
e corações a resistir.

Vi guerras sem sentido,
e gestos de compaixão,
vi o homem dividido,
entre a fome e o pão.

Entre o berço e o abismo,
vai a vida a caminhar,
leva o amor consigo,
e o diabo a acompanhar.

Mas nenhum vence a batalha,
nem reclama a decisão,
pois o destino se entalha,
dentro de cada coração.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A PORTA VELADA

Na rua estreita onde o vento parecia escolher quem tocava, havia uma porta que ninguém se lembrava de ter visto antes. Não era antiga nem nova — apenas estava ali, encaixada no prédio como se tivesse chegado por engano. 

A madeira tinha um tom escuro, quase negro, e refletia a luz da manhã de um modo que não combinava com o resto da rua. As pessoas passavam, olhavam de relance, e seguiam. Mas havia quem parasse. E esses, por razões que nunca eram claras, sentiam a porta respirar.

Quem se detinha diante da porta não o fazia por curiosidade, mas por uma espécie de hesitação interior, como se algo os chamasse sem voz. Alguns aproximavam a mão da madeira escura e sentiam um leve calor, tímido, que não combinava com uma manhã fria. Outros recuavam antes de tocar, convencidos de que a porta os observava. E havia ainda quem a tentasse abrir, mas para esses, ela permanecia imóvel, silenciosa, absolutamente fechada.

Numa dessas manhãs, alguém parou mais tempo do que o habitual. Era uma mulher de passos cautelosos, que trazia no olhar a fadiga de quem já viu demasiadas coincidências na vida. Ficou imóvel diante da porta, como se esperasse que ela lhe desse um sinal. A rua parecia suspensa, o vento recuou, e por um instante a madeira sombria brilhou com uma intensidade quase familiar. A mulher respirou fundo, aproximou a mão, e a porta, pela primeira vez, pareceu inclinar-se para ela.

Manteve a mão suspensa, sem tocar, como se soubesse que o gesto teria consequências. A porta, imóvel para todos os outros, parecia agora ajustar-se à sua presença, impercetivelmente, como um animal que reconhece um cheiro antigo. O reluzir na madeira tornou-se mais profundo, e a rua, antes indiferente, recolheu-se num silêncio atento. Por um instante, a mulher sentiu que bastaria um movimento mínimo para que algo acontecesse — não uma abertura, mas uma espécie de passagem que não precisava de se ver para existir.

Recuou um passo, como se a porta lhe tivesse revelado algo que não precisava de compreender. O brilho desvaneceu-se devagar, retomando a madeira o tom opaco que levava a que todos a ignorassem. A rua retomou o movimento, indiferente ao que não acontecera. A mulher afastou-se sem olhar para trás, certa apenas de uma coisa: a porta abrira-se, mas não para ela.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

LOUIS PASTEUR

“A sorte favorece os espíritos preparados.”

Louis Pasteur, químico e microbiologista francês falecido a 28 de setembro de 1895, dedicou a vida a observar aquilo que a maioria não conseguia ver. Das descobertas que revolucionaram a medicina moderna à compreensão do papel dos microrganismos nas doenças, o seu trabalho deixou uma marca profunda na história da humanidade. Entre as muitas frases que lhe são atribuídas, poucas se tornaram tão célebres como esta.

A primeira leitura parece simples – a sorte existe. Mas Pasteur convida-nos a olhar mais fundo. Quantas oportunidades passam diante de nós sem que as reconheçamos? Quantas respostas se escondem em sinais que ignoramos por falta de atenção, conhecimento ou persistência? Para ele, a sorte não era um acontecimento mágico, mas o encontro entre uma circunstância inesperada e alguém capaz de a compreender.

Esta data em que recordamos o seu legado, torna-se assim uma oportunidade para refletir sobre aquilo que fazemos enquanto esperamos. Porque a diferença entre o acaso e a oportunidade raramente está no acontecimento em si – está na preparação de quem o recebe. O sucesso pode surgir num instante, mas quase sempre encontra décadas de trabalho silencioso, estudo, disciplina e perseverança.

Lida hoje, esta frase lembra-nos que não controlamos tudo o que a vida nos traz, mas podemos controlar a forma como nos preparamos para o que vier. E talvez seja essa a verdadeira sorte: estar pronto quando a oportunidade bate à porta.

OS MERCADORES DA VERDADE

Nas praças da modernidade, vendem sonhos sem valor, trocam ouro por vaidade, e mentira por louvor, fazem preço da verdade, e negócio do amor...