Sempre que a primavera chegava à aldeia, as andorinhas de vidro apareciam nos beirais das casas sem que ninguém as visse chegar. Quando os habitantes abriam as janelas, encontravam-nas já ali, imóveis e transparentes, refletindo a luz da madrugada como pequenas gotas suspensas. Não cantavam nem batiam as asas. Ainda assim, todos sabiam que a primavera tinha começado.
As crianças eram as que mais gostavam delas. Antes de seguirem para a escola, percorriam as ruas estreitas contando quantas tinham surgido durante a noite.
Algumas eram quase invisíveis à luz do dia; outras devolviam pequenos reflexos
azuis e dourados que dançavam sobre as paredes caiadas. Os mais velhos
limitavam-se a sorrir. Na aldeia, ninguém se lembrava de uma primavera sem
andorinhas de vidro.
Havia
apenas uma regra que todos respeitavam. Ninguém devia tocar nas andorinhas de
vidro. Não porque fossem frágeis, mas porque pareciam desaparecer sempre que
alguém tentava levá-las consigo. Certo ano, uma menina chamada Clara encontrou
uma pousada no parapeito da sua janela durante várias semanas. Todas as manhãs
lhe deixava ao seu lado uma flor silvestre, como quem cumprimenta uma velha
amiga.
Quando
chegou o primeiro dia de verão, Clara acordou mais cedo do que o costume e
correu até à janela. Como acontecia todos os anos, as andorinhas de vidro
tinham desaparecido durante a noite. Porém, a flor que deixara na véspera
permanecia no parapeito. Nas suas pétalas brilhavam pequenos reflexos
transparentes, como se uma gota de luz ali tivesse ficado presa antes de
partir.
Muitos
anos mais tarde, Clara, já adulta, continuava a deixar uma flor no parapeito da
janela na chegada de cada primavera. Nunca voltou a ver a sua andorinha de
vidro, mas continuou sempre a procurá-la entre os reflexos da manhã. E havia
dias em que, por um breve instante, lhe parecia ver uma pequena luz
transparente a cruzar o céu. Então sorria, certa de que algumas amizades não
acabam – apenas aprendem a voar mais alto.






