quarta-feira, 25 de março de 2026

MÃE, SEM TEMPO, NEM DISTÂNCIA

Mãe. Palavra que o tempo não conseguiu desgastar.

Hoje, 25 de março de 2026, ela volta a mim com a mesma força de sempre, como se atravessasse décadas sem perder brilho.

Há noventa anos que nasceste para o ser, e em todos os anos que tenho tu tens sido presença que me acompanha — e, ainda assim, surpreende-me sempre a tua capacidade de resistir à distância, como se tivesses aprendido a atravessar o mundo sem perder calor.

O tempo, mãe, sempre me pareceu uma casa onde tu moras com uma serenidade que me escapa.

Há quem envelheça como quem perde camadas. Tu fizeste o contrário: foste ganhando profundidade, como se cada ano acrescentasse mais chão aos teus gestos, mais silêncio às tuas palavras, mais luz ao que deixas em nós. Aos noventa, não te vejo como quem chega ao fim de um caminho, mas como quem o alarga. É talvez por isso que, mesmo longe, sinto que continuo a caminhar dentro do tempo que viveste e me deste.

Há dias em que o espaço que nos separa se estende diante de mim como um corpo inteiro, feito de ar, de horas e de silêncio. Mas, por mais que se imponha, nunca conseguiu erguer‑se como uma barreira. Pelo contrário, quanto mais longe estou, mais nítida se torna a tua presença, como se o espaço entre nós funcionasse como uma lente que amplia o essencial e desfoca o acessório.

A distância tem destas ironias: obriga‑nos a escutar o que permanece, a reconhecer o que não se quebra, a perceber que há amores que não precisam de proximidade para se manterem vivos. É nesse intervalo, tão físico e tão inevitável, que descubro o quanto me ensinaste sem palavras: que o amor verdadeiro não se mede apenas pelo toque, mas também pela forma como continua a respirar dentro de nós, mesmo quando o mundo nos coloca distantes.

Há coisas que nunca disseste e que, ainda assim, sempre soube. Não porque as tivesses escondido, mas porque as foste deixando em mim como quem pousa pequenas pedras num caminho para que o outro não se perca. A tua força nunca precisou de voz. Bastava o modo como enfrentavas os dias, como arrumavas o mundo com gestos simples, como seguravas o silêncio sem medo. Foi aí que aprendi que a coragem raramente faz barulho, que o amor não exige explicações, que a presença mais profunda é a que não se impõe.

Olhando agora para trás, percebo que muito do que sou nasceu dessa forma discreta de me ensinares: a paciência que me sustenta, a serenidade com que atravesso as incertezas, a capacidade de continuar mesmo quando o caminho se estreita. Nada disso me foi dito. Foi vivido diante de mim. É essa herança invisível, tão tua, que me acompanha hoje, aqui, longe, como se fosse uma respiração antiga que ainda me guia por dentro.

Hoje, ao completares noventa anos, não é a longevidade que mais me impressiona, embora ela seja, por si só, um feito raro. O que verdadeiramente me comove é a mulher que foste e continuas a ser: firme sem dureza, doce sem fragilidade, inteira sem alarde. Criaste quatro filhos com a mesma naturalidade com que se respira, como se amar fosse um gesto tão simples quanto abrir a janela pela manhã. E és avó com a mesma generosidade silenciosa, oferecendo aos teus cinco netos uma presença que não precisa de palavras para ser absoluta. Há vidas que se medem em datas – a tua mede‑se em marcas deixadas, em gestos que perduram, em raízes que se espalham muito para além do que imaginaste. Por isso, neste dia que é teu, não te celebro apenas pelos anos que somas, mas pela força tranquila com que os viveste, e pela luz que, sem nunca o dizeres, acendeste em cada um de nós.

“Há ausências que são presenças demoradas.”

Mia Couto (escritor e biólogo moçambicano)


segunda-feira, 16 de março de 2026

O PRIMEIRO PASSO PARA A CONQUISTA DO UNIVERSO

Há dias que parecem insignificantes quando acontecem, mas que mais tarde percebemos ter sido determinante para o futuro. 16 de março de 1926 é um desses dias. Num campo gelado de Auburn, Massachusetts, Robert H. Goddard preparava um pequeno foguete de combustível líquido. Não havia multidões, nem imprensa, nem qualquer certeza de sucesso. 

Apenas um homem, uma máquina frágil e uma fé teimosa na possibilidade de ir mais longe do que o mundo acreditava ser possível.

O foguete percorreu apenas 56 metros. Subiu, hesitou, inclinou-se e caiu. Mas naquele breve arco de fogo estava escondido o início de tudo: viagens orbitais, satélites, sondas, passos na Lua, sonhos de Marte. O que parecia pequeno era, na verdade, inaugural e promissor. O que parecia falhar estava, de facto, a abrir caminho.

Goddard não lançou apenas um foguete, lançou uma ideia: a de que o impossível começa sempre com um gesto solitário. A técnica, ali, não era apenas técnica. Era ponte para o desconhecido. Era a prova de que um ato individual pode transformar-se em herança coletiva. Era o instante em que a humanidade percebeu que o céu já não era limite, mas um convite para ir mais além.

Este episódio encerra também uma beleza discreta. Goddard trabalhou quase em silêncio, muitas vezes ridicularizado, quase sempre ignorado. E mesmo assim continuou. Criou sem garantia de retorno. Acreditou sem testemunhas. Arriscou sem aplausos. E talvez seja por isso que este dia ressoa tanto, porque nos lembra que o futuro começa sempre com alguém que decide acreditar antes de ser compreendido.

No fundo, 16 de março de 1926 não é apenas o dia em que um foguete subiu 56 metros. É o dia em que a humanidade deu o seu primeiro passo para a conquista do Universo. 

quarta-feira, 11 de março de 2026

DIVÓRCIO AOS SESSENTA E OITO ANOS

Divorciar-me aos sessenta e oito anos não foi um capricho nem um ato de rebeldia tardia. Foi um reconhecimento amargo, a aceitação de que, após quatro décadas de casamento com uma mulher com quem partilhei tanto o pão como o vazio dos jantares em silêncio, eu falhara em ser quem devia. Chamo-me Artur, sou de Viseu, e a minha história nasceu da solidão para desaguar numa verdade que jamais antevi.

Com a Celeste, vivi quase uma existência inteira. Casamo-nos aos vinte e dois anos, nos tempos em que o país ainda respirava sob o peso da ditadura. Naquela época, havia paixão, beijos roubados nos largos da cidade, promessas murmuradas ao luar, sonhos entrelaçados. Depois, a vida encarregou-se de nos desfiar. Vieram os filhos, as contas por pagar, os dias iguais, o cansaço que se instalou como sombra. As palavras transformaram-se em bilhetes apressados na mesa da cozinha: "Pagaste o gás?", "Não te esqueças do pão", "O João precisa de ir ao médico."

De manhã, fitava-a e já não via a rapariga de riso fácil, mas uma estranha de olhos cansados. E eu, certamente, era igual para ela. Não éramos marido e mulher. Éramos dois desconhecidos a dividir um telhado. Um dia, o meu orgulho, teimoso como um burro do Alentejo, sussurrou-me: "Mereces mais. Uma segunda oportunidade. Um sopro de vida, pelo menos." E pedi o divórcio.

A Celeste não discutiu. Apenas assentiu, fitando o rio pela janela, e disse: "Faz como entenderes. Já não tenho ânimo para batalhas."

Saí de casa. Nos primeiros dias, senti-me leve, como se tivesse deixado cair um fardo antigo. Passei a dormir do lado esquerdo da cama, adotei um cão chamado Tico, comecei a beber o café da manhã na varanda, ouvindo os pássaros. Mas, pouco a pouco, o alívio deu lugar a outra coisa, um vazio que ecoava pelas paredes. A comida perdia o sabor, os dias tornavam-se demasiado longos.

Foi então que surgiu a ideia: encontrar uma mulher que me auxiliasse. Alguém como a Celeste costumava fazer. Lavar, cozinhar, manter a casa em ordem. De preferência mais nova, pelos cinquenta anos, prática, de bom coração. Talvez uma viúva. Não pedia muito. Convenci-me: "Não sou mau partido. Tenho casa, reforma digna, saúde. Por que não?"

Comecei a procurar. Espalhei a palavra entre vizinhos, deixei cair indiretas no café. Por fim, ousei mais e publiquei um anúncio no jornal da terra. Curto e direto: "Homem, 68 anos, deseja companhia feminina para auxílio no lar. Alojamento e alimentação garantidos."

Foi esse anúncio que me mudou. Três dias depois, chegou uma resposta. Só uma. Mas uma carta que me fez tremer os dedos ao lê-la.

"Estimado Artur,

Será que o senhor acredita, em pleno século XXI, que uma mulher existe para lavar cuecas e cozinhar feijoada? Não vivemos nos tempos da sua avó.

O que o senhor procura não é uma companheira, mas uma criada de servir, vestida de afeto.

Talvez devesse aprender primeiro a estender a sua própria roupa e a temperar o seu cozido.

Cordialmente,

Uma mulher que não precisa de um fidalgo a apontar-lhe a vassoura."

Li a carta vezes sem conta. No início, a raiva ferver-me-ia no peito. Como ousava? Quem se julgava ela? Eu não queria explorar ninguém, apenas desejava conforto, um lar que cheirasse a vida...

Mas, devagar, a fúria deu lugar a outra coisa. E se ela tivesse razão? Talvez eu estivesse apenas à procura de quem me poupasse ao trabalho de viver. Será que esperava que alguém chegasse e me desse aquilo que eu mesmo devia construir?

Comecei pelo mais simples. Aprendi a fazer caldo verde. Depois, arrisquei um cozido à portuguesa. Inscrevi-me num canal chamado “Sabores da Aldeia”, passei a fazer lista de compras, a dobrar as minhas próprias camisas. No início, senti-me desengonçado, quase patético. Mas, com o tempo, percebi que aquilo já não eram tarefas, era a minha vida. A minha conquista.

Cheguei a colocar a carta emoldurada na sala. Um aviso para mim mesmo: não queiras que alguém te salve se ainda não aprendeste a nadar.

Passaram-se meses. Continuo só. Mas agora a minha casa cheira a pão quente. Na varanda, cultivo manjericos. Aos domingos, faço arroz-doce, receita da Celeste. E, às vezes, pergunto-me: “Devia levar-lhe um prato?” Pela primeira vez em quarenta anos, compreendi o que é estar ao lado de alguém não por obrigação, mas por escolha.

Se me perguntarem se quero casar outra vez, direi que não. Mas se, por acaso, uma mulher se sentar ao meu lado no jardim, não à procura de senhor, mas apenas de conversa, talvez eu lhe diga duas ou três palavras. Só que agora serei um homem diferente. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

AMÉRICO VESPÚCIO

Há datas que parecem nascer antes das pessoas, como se aguardassem pacientemente por alguém capaz de lhes dar sentido. 9 de março de 1454 foi uma dessas datas. Florença acordou igual a si mesma, ruas estreitas, mercadores apressados, o rumor das oficinas renascentistas, mas sem o saber, viu nascer um homem que viria a deslocar o eixo do mundo.

Américo Vespúcio não liderou exércitos, não ergueu bandeiras, não incendiou multidões. A sua liderança era de outra natureza: silenciosa, obstinada, feita de mapas, de margens, de perguntas que ninguém tinha ainda ousado formular. 

Era o tipo de homem que olha para o horizonte e não vê apenas mar. Vê possibilidade.

Dizem que partiu para o Novo Mundo como quem parte para dentro de si. E talvez seja verdade. Porque o que encontrou não foi apenas terra. Foi a coragem de admitir que tudo o que a Europa pensava saber estava errado. Que aquelas costas imensas não eram a Ásia, mas algo radicalmente novo. Um continente inteiro à espera de nome, de forma, de narrativa.

E é aqui que a sua liderança se revela: não no gesto heroico, mas na lucidez rara. Vespúcio percebeu o que ninguém tinha percebido. E, ao fazê-lo, mudou o mapa mental da humanidade. Há quem lidere povos. Ele liderou a imaginação do mundo.

Hoje, quando pronunciamos “América”, repetimos sem o saber o eco desse homem nascido a 9 de março. Um homem que não conquistou territórios, mas conquistou a ideia de que o desconhecido merece ser nomeado com coragem.

Talvez seja isso que faz de Vespúcio um grande líder: não o tamanho das suas façanhas, mas a profundidade do seu olhar. Um olhar capaz de transformar uma data num ponto de partida e um continente numa revelação. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

A IMPORTÂNCIA DAS COISAS

Na sequência da preparação de uma crónica com o mesmo título desta publicação, que integrará o meu próximo livro, senti a necessidade de preparar uma estrutura narrativa que me permitisse não me perder no meio das ideias que queria abordar. O resultado foi algo que considerei útil partilhar com os meus seguidores e que passo a apresentar de uma forma pragmática e objetiva, sem qualquer preocupação de lhe conferir um cariz literário.

AS QUATRO FORMAS DE IMPORTÂNCIA NA VIDA

1) Coisas que sempre foram importantes — e continuam a ser

São os pilares silenciosos: relações fundadoras, valores que resistem ao tempo, gestos que nos definem mesmo quando não os vemos.

  • São estáveis, mas não imutáveis.
  • Exigem cuidado para não se tornarem invisíveis.
  • Revelam a nossa identidade mais profunda.

2) Coisas que foram importantes — e deixaram de ser

Aqui vive a mudança, a maturidade, a perda e a libertação.

  • Podem ter sido essenciais numa fase da vida, mas já não nos servem.
  • O perigo é a nostalgia que nos prende ou a culpa por “abandonar” algo que já não faz sentido.
  • São capítulos concluídos que insistimos em reler.

3) Coisas que continuam a ser importantes — mas às quais deixámos de dar importância

Este é talvez o território mais fértil para o esquecimento do essencial.

  • A rotina desgasta o brilho.
  • A urgência do mundo abafa o que é vital.
  • O amor, a saúde, a amizade, o tempo — tudo pode ser negligenciado sem deixarem de ser fundamentais.

4) Coisas que não são importantes — mas às quais damos importância excessiva

O ruído, o ego, a comparação, a ansiedade social.

  • São distrações que se disfarçam de prioridades.
  • Crescem porque alimentamos a sua fome.
  • São as ladras de atenção que nos afastam do que realmente importa.

COMO DISTINGUIR ESTAS QUATRO CATEGORIAS SEM CAIR NA MORALIZAÇÃO?

1) A importância verdadeira resiste ao silêncio

Se deixarmos de olhar para algo e ele continuar a pulsar dentro de nós, é importante. Se só existe quando o olhamos, é ruído.

2) A importância falsa exige urgência

O que é essencial raramente grita. O que é irrelevante vive de alarmes, notificações, pressas, comparações.

3) A importância madura transforma-se

O que foi importante pode deixar de ser — e isso não é falha, é crescimento. A vida não é um museu de prioridades fixas.

4) A importância negligenciada dói em silêncio

Quando algo essencial é esquecido, não desaparece: transforma-se em ausência, em saudade, em cansaço, em sensação de vida desalinhada.

COMO ESTAR ATENTO AO QUE REALMENTE IMPORTA?

Não existem regras que possam ser propostas, mas movimentos interiores — quase gestos de consciência:

  • Escutar o que permanece: aquilo que regressa quando o mundo se cala.
  • Observar o que nos esgota: muitas vezes, o que nos cansa não é o que importa, mas o que ocupa espaço indevido.
  • Revisitar prioridades com honestidade: não com culpa, mas com curiosidade.
  • Aceitar que a importância é dinâmica: a vida muda, nós mudamos, e a hierarquia das coisas também.
  • Perguntar: “Isto aproxima-me ou afasta-me de quem quero ser?” A resposta raramente engana.

 Desejo que esta reflexão sobre a importância das coisas vos possa ser útil! 

segunda-feira, 2 de março de 2026

HEGEL

“Nada de verdadeiramente grande no mundo foi realizado sem paixão.”

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831) foi um dos grandes arquitetos do pensamento moderno, um filósofo que viu o mundo como um processo vivo, em constante transformação, onde o espírito humano se descobre e se supera através das tensões que enfrenta. A sua obra, densa e exigente, procurou sempre compreender como a liberdade se realiza na história e como a ação humana ganha sentido quando se inscreve num movimento maior do que o indivíduo. Talvez por isso esta frase tenha atravessado os séculos com uma força tão particular. 

Não está ligada a um acontecimento específico de 2 de março, mas tornou‑se, em muitas coleções de citações, a máxima escolhida para este dia, como se a data, situada entre o fim do inverno e o prenúncio da primavera, pedisse precisamente esta ideia de impulso interior, de energia que desperta e se orienta para algo que vale a pena.

Lida hoje, a frase ganha uma ressonância especial. Para Hegel, a paixão não era um excesso emocional, mas a força que dá direção ao que fazemos, a centelha que nos arranca da inércia e nos compromete com algo que nos ultrapassa. O grande, aquilo que transforma, que inaugura, que deixa marca, nunca nasce do cálculo frio, mas da entrega total, do risco assumido, da vulnerabilidade de quem se expõe ao que acredita. A paixão, neste sentido, é uma forma de fidelidade, ao que somos, ao que desejamos, ao que o mundo nos pede. É ela que nos permite agir com sentido, aceitar a possibilidade de falhar e, ainda assim, avançar. E é também ela que nos transforma enquanto transformamos o que nos rodeia.

Por isso, talvez faça sentido que esta frase acompanhe o 2 de março: um dia que não celebra Hegel, mas que parece convocar o que ele quis dizer, que nada floresce sem que alguém se entregue, que nada se renova sem que alguém se mova, que nada se torna grande sem que alguém esteja inteiro no gesto que faz.


MÃE, SEM TEMPO, NEM DISTÂNCIA

Mãe. Palavra que o tempo não conseguiu desgastar. Hoje, 25 de março de 2026, ela volta a mim com a mesma força de sempre, como se atravess...