terça-feira, 3 de novembro de 2026

A PELE DO LOBO

Em quase todas as histórias antigas existe um lobo. Nem sempre ameaça a aldeia, nem sempre surge à vista de todos, mas está presente como explicação para medos, fracassos e perigos que poucos conseguem enfrentar. Talvez por isso continuemos a procurá-lo em cada problema que nos inquieta. É mais fácil apontar para a sombra que julgamos reconhecer ao longe do que admitir que algumas das respostas procuradas começam muito mais perto de nós.

É por isso que a palavra "eles" se tornou tão confortável. São “eles” que governam, decidem, investigam, administram e escolhem os caminhos que afetam a vida de todos. Sempre que surge um problema coletivo, procuramos naturalmente quem o possa resolver. Poucas vezes, porém, nos detemos a pensar que os "eles" de hoje foram, há não muito tempo, parte do mesmo "nós". A responsabilidade muda de mãos com frequência, mas a tendência para a entregar aos outros parece atravessar todas as épocas.

O mais curioso é que raramente nos apercebemos do momento em que alguém veste a pele do lobo. Não porque tenha mudado de natureza, mas porque passou a ocupar um lugar onde as decisões têm consequências alargadas. A partir desse instante, aquilo que antes parecia simples revela-se mais complexo e aquilo que parecia distante torna-se imediato. Os problemas permanecem os mesmos – muda apenas a perspetiva de quem é chamado a enfrentá-los.

Talvez o equívoco comece quando imaginamos que a responsabilidade pode ser inteiramente delegada. Nenhuma comunidade funciona apenas pela ação dos que decidem, tal como nenhuma decisão produz resultados sem o envolvimento dos que dela dependem. Os "eles" precisam de ouvir, compreender e prestar contas, mas também necessitam da participação ativa dos "nós". Quando essa ligação se enfraquece, cresce a distância entre quem assume responsabilidades e quem acredita já não ter nenhuma.

No fim, a pele do lobo não pertence a ninguém em particular. Passa de uns para outros, em diferentes momentos e circunstâncias. E porventura a melhor forma de a tornar menos pesada seja recordar que os desafios de todos raramente se resolvem sem a colaboração de cada um.

 

"Sozinhos podemos fazer tão pouco; juntos podemos fazer tanto."

Helen Keller (escritora, conferencista e ativista norte-americana) 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

NEWSLETTER 44/2026

Resenha da Semana

A coerência é uma das qualidades mais admiradas na vida pública. Talvez porque seja também uma das mais difíceis de praticar. Esta semana, tanto a nível internacional como nacional, fomos confrontados com situações que nos recordam como é fácil defender determinados princípios quando eles nos favorecem, e como se torna mais difícil mantê-los quando as circunstâncias mudam.

No Brasil, as eleições culminaram com a vitória de Lula da Silva, assegurando a continuidade do processo democrático num país profundamente dividido. Ao mesmo tempo, a decisão de Flávio Bolsonaro de se deslocar para os Estados Unidos, reacendeu o debate sobre a responsabilidade dos líderes políticos perante as instituições que afirmam defender. Afinal, confiar na justiça de um país é relativamente simples quando ela protege os nossos interesses. Mais exigente é aceitá-la quando as suas decisões nos podem ser desfavoráveis.

Em Portugal, a semana ficou marcada pela manifestação das forças policiais. O facto seria, por si só, perfeitamente legítimo numa sociedade democrática. Contudo, a circunstância de muitos dos seus participantes terem sido recentemente chamados a intervir nas operações de desocupação das acampadas pela habitação trouxe um inevitável contraste. Aqueles que garantem o cumprimento da ordem pública encontraram-se agora a exercer o mesmo direito à contestação que, noutras circunstâncias, lhes compete enquadrar e proteger.

Em ambos os casos, a questão fundamental é a mesma: os princípios revelam o seu verdadeiro valor quando somos chamados a aplicá-los a nós próprios. Porque a coerência não se mede pelas ideias que defendemos, mas pela forma como as mantemos quando mudamos de lugar no debate.

 

História extraordinária

Em junho de 1940, quando milhares de refugiados procuravam escapar ao avanço do exército alemão em França, o cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, recebeu ordens claras para restringir a emissão de vistos. A decisão era simples: cumprir as instruções recebidas ou seguir a própria consciência.

Escolheu a segunda opção.

Durante dias, emitiu vistos a refugiados de diversas nacionalidades e religiões, permitindo que milhares de pessoas encontrassem refúgio e atravessassem a fronteira portuguesa. Sabia que estava a desobedecer às orientações do Governo português e sabia também que essa decisão teria consequências.

E teve.

Foi alvo de processo disciplinar, perdeu o cargo e passou os últimos anos da sua vida em dificuldades económicas.

Décadas mais tarde, o seu gesto viria a ser reconhecido internacionalmente como um dos mais notáveis exemplos de coragem moral durante a Segunda Guerra Mundial.

A história de Aristides de Sousa Mendes recorda-nos que a coerência raramente é confortável. Defender princípios quando eles não têm custos é relativamente fácil. Mais difícil é mantê-los quando exigem sacrifícios pessoais.

Porque os valores só revelam o seu verdadeiro significado quando somos chamados a pagar o preço de lhes permanecer fiéis.

 

Não sou eu que digo

Na abertura do Seminário Internacional sobre Justiça Constitucional e Estado de Direito, realizado este ano em Maputo, o Presidente moçambicano Daniel Chapo alertou para os riscos que a impunidade e a desigualdade na aplicação da lei representam para a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas. A propósito do fortalecimento do Estado de Direito, deixou uma reflexão que ultrapassa fronteiras e sistemas políticos.

"Não há democracia sustentável sem Estado de Direito. Não há Estado de Direito sem instituições fortes. E não existem instituições verdadeiramente fortes sem respeito pela Constituição."


Frase da Semana

"Chega sempre o momento em que é preciso tomar uma posição que não é segura, nem conveniente, nem popular. Mas deve ser tomada porque é a correta."

— Martin Luther King Jr. (pastor batista americano e ativista dos direitos civis) 

A PELE DO LOBO

Em quase todas as histórias antigas existe um lobo. Nem sempre ameaça a aldeia, nem sempre surge à vista de todos, mas está presente como ex...