O bilhete estava dobrado em quatro quando Luís o encontrou no banco mais afastado do jardim. Não havia ninguém por perto, apenas o movimento lento das folhas secas empurradas pelo vento. Pensando tratar-se de um recibo abandonado, apanhou-o e preparava-se para o deitar fora. Porém, ao abrir o papel amarelado, deparou-se com uma única frase escrita à mão: "Ainda bem que chegaste, Luís."
Leu a frase várias vezes, procurando uma explicação simples para o que tinha acabado de encontrar.
Talvez fosse uma coincidência, uma partida ou um bilhete perdido por outra pessoa com o mesmo nome. Contudo, ao virar o papel, descobriu uma segunda anotação, mais pequena e quase apagada pelo tempo. Dizia apenas: “Não te sentes no banco junto ao lago.” O aviso fê-lo erguer os olhos de imediato para a margem tranquila da água.
Sem
saber porquê, guardou o papel no bolso e começou a caminhar em direção ao lago.
O banco mencionado ficava do outro lado da bacia, parcialmente escondido por um
salgueiro antigo. Enquanto observava o local, viu um homem aproximar-se e
sentar-se ali durante alguns minutos. Depois levantou-se e afastou-se
calmamente. Foi então que Luís reparou num detalhe inesperado: o homem tinha deixado
um bilhete sobre o banco.
Movido
por uma inquietação que não conseguia explicar, acercou-se do banco e recolheu
o segundo bilhete. O papel era semelhante ao primeiro: envelhecido, dobrado e
escrito com a mesma caligrafia irregular. Desta vez, a mensagem era ainda mais
curta: “Cheguei tarde demais.” Luís releu aquelas palavras várias vezes. No
canto inferior, quase escondida pela dobra, aparecia uma data. Era a do dia
seguinte.
Guardou
os dois papéis e regressou a casa com a estranha sensação de que alguém tentava
avisá-lo de algo. Na manhã seguinte, voltou ao jardim ainda antes do sol
nascer. O banco junto ao lago estava vazio, mas um terceiro bilhete aguardava
por ele. Tremendo, leu a mensagem: “Desta vez chegaste a tempo.” Levantou os
olhos em direção à água. Ao longe, um homem que se parecia consigo próprio
afastava-se lentamente pela névoa.
Mais
tarde, já em casa, Luís abriu novamente os três bilhetes e alinhou-os sobre a
mesa. Foi então que reparou num detalhe que antes lhe escapara – a mesma
assinatura surgia no verso de cada um deles. Era o seu próprio nome, escrito
por uma caligrafia que reconhecia, embora tivesse a certeza de nunca a ter
usado.

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