quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O BILHETE

O bilhete estava dobrado em quatro quando Luís o encontrou no banco mais afastado do jardim. Não havia ninguém por perto, apenas o movimento lento das folhas secas empurradas pelo vento. Pensando tratar-se de um recibo abandonado, apanhou-o e preparava-se para o deitar fora. Porém, ao abrir o papel amarelado, deparou-se com uma única frase escrita à mão: "Ainda bem que chegaste, Luís."

Leu a frase várias vezes, procurando uma explicação simples para o que tinha acabado de encontrar. 

Talvez fosse uma coincidência, uma partida ou um bilhete perdido por outra pessoa com o mesmo nome. Contudo, ao virar o papel, descobriu uma segunda anotação, mais pequena e quase apagada pelo tempo. Dizia apenas: “Não te sentes no banco junto ao lago.” O aviso fê-lo erguer os olhos de imediato para a margem tranquila da água.

Sem saber porquê, guardou o papel no bolso e começou a caminhar em direção ao lago. O banco mencionado ficava do outro lado da bacia, parcialmente escondido por um salgueiro antigo. Enquanto observava o local, viu um homem aproximar-se e sentar-se ali durante alguns minutos. Depois levantou-se e afastou-se calmamente. Foi então que Luís reparou num detalhe inesperado: o homem tinha deixado um bilhete sobre o banco.

Movido por uma inquietação que não conseguia explicar, acercou-se do banco e recolheu o segundo bilhete. O papel era semelhante ao primeiro: envelhecido, dobrado e escrito com a mesma caligrafia irregular. Desta vez, a mensagem era ainda mais curta: “Cheguei tarde demais.” Luís releu aquelas palavras várias vezes. No canto inferior, quase escondida pela dobra, aparecia uma data. Era a do dia seguinte.

Guardou os dois papéis e regressou a casa com a estranha sensação de que alguém tentava avisá-lo de algo. Na manhã seguinte, voltou ao jardim ainda antes do sol nascer. O banco junto ao lago estava vazio, mas um terceiro bilhete aguardava por ele. Tremendo, leu a mensagem: “Desta vez chegaste a tempo.” Levantou os olhos em direção à água. Ao longe, um homem que se parecia consigo próprio afastava-se lentamente pela névoa.

Mais tarde, já em casa, Luís abriu novamente os três bilhetes e alinhou-os sobre a mesa. Foi então que reparou num detalhe que antes lhe escapara – a mesma assinatura surgia no verso de cada um deles. Era o seu próprio nome, escrito por uma caligrafia que reconhecia, embora tivesse a certeza de nunca a ter usado.

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O BILHETE

O bilhete estava dobrado em quatro quando Luís o encontrou no banco mais afastado do jardim. Não havia ninguém por perto, apenas o movimento...