quarta-feira, 12 de agosto de 2026

THOMAS MANN


“A tolerância torna possível a convivência; a verdade torna possível o respeito.”

Thomas Mann, romancista alemão nascido em 1875 e falecido a 12 de agosto de 1955, foi uma das vozes morais mais influentes da literatura europeia do século XX. A sua obra, marcada por uma atenção rigorosa às tensões entre indivíduo e sociedade, sempre procurou compreender como se constrói uma vida ética num mundo em permanente conflito. 

A frase “A tolerância torna possível a convivência; a verdade torna possível o respeito” condensa essa visão: a convivência exige abertura, mas o respeito exige coragem — a coragem de dizer, ouvir e sustentar a verdade.

É precisamente essa dupla exigência que ressoa no 12 de agosto, dia em que Mann é lembrado e em que também se celebra o Dia Internacional da Juventude. A coincidência não é apenas cronológica: é simbólica. A juventude, enquanto força que questiona, renova e desafia, precisa tanto da tolerância que permite o encontro como da verdade que funda relações autênticas. Sem tolerância, não há espaço para crescer; sem verdade, não há estrutura para permanecer.

Lida hoje, a frase de Mann funciona como um lembrete discreto de maturidade cívica: tolerar não é relativizar, é acolher; dizer a verdade não é ferir, é clarificar. E quando estes dois gestos se encontram, a convivência deixa de ser apenas possível — torna-se digna. É essa dignidade que o 12 de agosto procura celebrar: a capacidade de construir futuro com respeito, lucidez e coragem.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O DIA EM QUE O LOUVRE ABRIU PORTAS!

Toda a gente sabe que o Louvre é hoje o museu mais visitado do mundo, com filas intermináveis, multidões diante da Mona Lisa e turistas a disputar centímetros de chão para uma fotografia. O que quase ninguém sabe é que, no dia em que abriu portas ao público, quase ninguém apareceu. 

A 10 de agosto de 1793, Paris ganhava o seu grande “Museu Central das Artes da República”, mas a cidade tinha coisas bem mais urgentes em que pensar.

O contexto ajuda a perceber o silêncio. Estávamos em plena Revolução Francesa, num dos períodos mais turbulentos da história do país. A monarquia tinha caído, a guilhotina trabalhava em horário alargado, a suspeita era uma forma de respiração. No meio deste cenário, o antigo palácio real, símbolo de luxo e poder, transformava‑se em museu público, aberto a todos. Um gesto profundamente revolucionário: a arte deixava de ser privilégio da corte e passava a ser património de povo.

Só que o povo, nesse dia, não estava exatamente disponível para ir ver quadros. Entre o preço do pão, o medo das denúncias, as prisões e as execuções, a visita ao Louvre não era prioridade. Os salões, preparados para receber multidões, acolheram apenas alguns curiosos, funcionários e poucos visitantes dispersos. O grande museu da República nasceu, na prática, quase em silêncio.

Há aqui uma ironia deliciosa: o lugar que hoje simboliza a democratização da arte começou a sua vida pública sem público. O gesto político era enorme, mas o impacto imediato foi mínimo. A História, como tantas vezes acontece, só se apercebeu da importância daquele dia muito depois. O Louvre foi crescendo, mudando, acumulando obras, tornando‑se ícone mundial, mas a sua estreia foi tímida, quase invisível.

Talvez haja nisto uma pequena lição contemporânea: nem todos os momentos decisivos começam com aplausos, nem todas as mudanças estruturais se anunciam com multidões. Às vezes, o futuro abre portas discretamente, num edifício quase vazio, enquanto a cidade olha para outro lado.

O Louvre abriu portas. O mundo demorou a entrar.

E esta hem! 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

MERYL STREEP

Não deixar de ser quem somos…

Se eu tiver de explicar o meu valor, se tiver de convencer alguém a me amar, então esse não é o meu lugar.

A vida é muito curta para desperdiçar energia com o que não é mútuo.

Não tenho medo de envelhecer.

Tenho medo de deixar de ser eu mesma para agradar aos outros.

Neste ponto, escolho a minha paz acima de qualquer coisa.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

NASCEU A NASA

Há datas que não pertencem apenas à história política, pertencem à história da imaginação humana. 29 de julho de 1958 é uma delas. Nesse dia, o presidente Dwight D. Eisenhower assinou a lei que criava a NASA, a agência espacial que viria a transformar o modo como pensamos o universo — e o modo como pensamos nós próprios.

O mundo vivia a tensão da Guerra Fria, e o espaço tornara‑se o novo território simbólico onde se disputava poder, tecnologia e futuro. 

A União Soviética tinha surpreendido o planeta com o lançamento do Sputnik em 1957, e os Estados Unidos perceberam que não bastava reagir. Era preciso reinventar‑se. A NASA nasceu desse impulso, não apenas como resposta estratégica, mas como afirmação de que o conhecimento, quando perseguido com rigor, pode abrir portas que antes nem sabíamos existir.

A criação da agência marcou o início de uma era em que o impossível começou a ser tratado como hipótese de trabalho. Da Lua às sondas interplanetárias, dos telescópios que veem para lá do tempo às missões que estudam a fragilidade da Terra, tudo começou naquele gesto administrativo que, na verdade, era um gesto de visão.

No fundo, 29 de julho de 1958 não é apenas o dia em que uma instituição foi fundada. É o dia em que a humanidade decidiu que o céu não era limite — era convite. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

CAROLINE KENNEDY

Quando John F. Kennedy foi morto em Dallas em 22 de novembro de 1963, Caroline Kennedy estava a apenas cinco dias de completar seis anos. Pouco depois deixou a Casa Branca com sua mãe, Jacqueline, e seu irmão John, saindo do único lar que tinha conhecido até então.

Desde muito pequena, a sua vida foi marcada pelo luto e pelo olhar atento do mundo.

Em 1968, o assassinato de Robert Kennedy voltou a atingir a família. Nesse mesmo ano, Jacqueline casou-se com Aristóteles Onassis, procurando para os seus filhos uma vida com mais segurança e mais distância do cerco público.

Mas Caroline não transformou esse nome em abrigo passivo.

Estudou em Radcliffe e na Faculdade de Direito de Columbia. Ao longo dos anos, trabalhou para preservar a memória do seu pai desde a fundação da Biblioteca Kennedy e foi encontrando uma forma própria de serviço público, mais silenciosa e menos teatral do que a de outros membros da sua família.

Isso ficou claro depois do 11 de setembro.

Em 2002, Caroline entregou um prémio especial Profile in Courage aos servidores públicos que atuaram durante os atentados. Lá disse que, naqueles momentos terríveis, milhares de homens e mulheres comuns colocaram as suas vidas em risco para que outros pudessem ser salvos. Ela não falou de si mesma. Ela não falou das perdas que tinham passado pela sua vida. Falou de coragem, serviço e dever.

Mais tarde representou os EUA no exterior.

Foi embaixadora no Japão de 2013 a 2017, a primeira mulher a ocupar esse cargo, e depois embaixadora na Austrália entre 2022 e 2024.

Caroline Kennedy não construiu a sua vida a partir do show do sobrenome.

Construiu-a a partir da contenção, disciplina e uma ideia muito clara: que o legado não é herdado por completo, mas sim sustenta-se ato por ato. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

ALEXANDER GRAHAM BELL

Alexander Graham Bell nasceu a 3 de março de 1847, em Edimburgo, numa família onde a voz era quase uma herança: o pai estudava fonética, a mãe era surda, e Bell cresceu entre sons, silêncios e a obsessão de compreender como se constrói uma palavra. Emigrado para os Estados Unidos, dedicou-se ao ensino de pessoas surdas e à investigação da transmissão da voz, até que, em 1876, patenteou o telefone — um objeto tão improvável que muitos o consideraram um capricho científico. Mas foi a 22 de julho de 1879 que se deu o momento decisivo: Bell apresentou publicamente o seu sistema telefónico numa demonstração que deixou jornalistas, investidores e curiosos atónitos. 

A partir desse dia, o mundo percebeu que a distância tinha acabado de perder o seu poder.

Há datas que não pertencem apenas ao calendário. Pertencem à transformação íntima das sociedades. 22 de julho de 1879 foi uma dessas datas. Boston acordou com o seu ritmo habitual — o rumor das carruagens, o cheiro a madeira e carvão, a pressa dos comerciantes — sem imaginar que, naquela manhã, um homem iria mostrar que duas pessoas separadas por quilómetros podiam conversar como se estivessem lado a lado. Bell não era um orador carismático. Era um artesão da curiosidade. Subiu ao palco com a serenidade de quem sabe que a verdadeira revolução não precisa de estrondo, apenas de clareza.

Quando a voz atravessou o fio e chegou ao outro lado, houve um silêncio estranho na sala — não o silêncio da dúvida, mas o silêncio raro de quem percebe que o mundo acabou de mudar. Bell não prometeu nada, apenas mostrou. E, nesse gesto simples, inaugurou uma era em que a distância deixou de ser destino e passou a ser apenas um detalhe técnico.

Nos anos seguintes, o telefone espalhou-se como uma nova forma de respiração. As cidades tornaram-se mais próximas, os negócios mais rápidos, as relações mais contínuas. Bell continuou a trabalhar, inquieto, movido por aquela energia dos inventores que nunca se satisfazem com o que já existe. Mas foi naquele 22 de julho que o mundo o ouviu verdadeiramente, e que ele, por fim, ouviu o mundo.

Talvez seja isso que faz de Bell um grande líder: ter mostrado que a verdadeira grandeza não se mede em poder, mas em legado. E que há homens que, mesmo depois de partirem, continuam a mover o mundo, como uma máquina que nunca se apaga totalmente. 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

CÍCERO

“Dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade.”

Marco Túlio Cícero, orador, filósofo e estadista romano, dedicou grande parte da sua vida a pensar a ética das relações humanas e a forma como a amizade sustenta a vida pública e privada. A frase “Dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade” condensa essa visão clássica: a amizade como vínculo que não exige posse, não reclama domínio, não se alimenta de interesse — apenas de presença, lealdade e reconhecimento mútuo.

É precisamente essa ideia que ressoa no 20 de julho, dia em que se celebra o Dia do Amigo. A escolha da data tem uma origem curiosa e profundamente simbólica: foi inspirada pela chegada do homem à Lua, em 20 de julho de 1969. A frase de Armstrong — “um pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade” — tornou-se um símbolo de união global, de conquista partilhada, de algo que só foi possível porque muitos trabalharam juntos. A amizade, nesse contexto, não é apenas afeto: é cooperação, confiança, construção comum.

Lida hoje, a frase de Cícero ganha uma nova luz. A amizade que ele descreve — pura, desinteressada, não egoísta — é a mesma que permite que projetos impossíveis se tornem realidade, que comunidades se fortaleçam, que o mundo avance. O 20 de julho recorda-nos que nenhum passo é verdadeiramente solitário: há sempre alguém que nos acompanha, que nos sustém, que nos ajuda a chegar mais longe. E talvez seja por isso que esta frase continua tão atual — porque a amizade, como a Lua, ilumina mesmo quando não a vemos diretamente. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

AVALIAR O QUE JÁ NÃO IMPORTA

Há um debate aceso em Portugal sobre a avaliação no ensino. Fala‑se de exames, de médias, de critérios, de grelhas, de percentagens. Discute‑se tudo, menos o essencial. Porque, no fundo, continuamos a avaliar como se o conhecimento fosse um bem raro, guardado em cofres de alta segurança, transmitido de mestre para aluno, medido em testes que verificam o que ficou retido. A questão é simples: o mundo mudou, mas os sistemas de ensino não acompanharam.

Hoje, qualquer aluno tem acesso a mais informação no bolso do que um professor universitário tinha há quarenta anos pesquisando em intermináveis bibliotecas. O conhecimento democratizou‑se, multiplicou‑se, tornou‑se instantâneo. Mas o sistema de ensino insiste em medir a capacidade de o decorar. É como avaliar um cozinheiro pela quantidade de receitas que sabe de cor, em vez de ver se consegue preparar um prato apetitoso e equilibrado. A escola continua a premiar quem memoriza, não quem procura, seleciona, interpreta e aplica.

E aqui está a ironia: nunca foi tão fácil aceder ao conhecimento, e nunca foi tão difícil ensinar a usá‑lo bem. Porque o desafio já não é saber “o quê”, mas saber “como”. Como distinguir o rigor da opinião. Como validar fontes. Como resolver problemas reais com informação disponível. Como transformar dados em decisões. O ensino devia ser o laboratório onde se aprende a navegar neste oceano. Em vez disso, muitas vezes é apenas o lugar onde se verifica se o aluno decorou o mapa.

O mais curioso é que todos reconhecem isto — professores, alunos, pais, especialistas — mas o sistema continua preso a uma lógica industrial: produção, transmissão e verificação de conteúdos. Como se estivéssemos a formar máquinas de retenção, quando devíamos estar a formar mentes capazes de pensar com o que sabem e com o que ainda não sabem.

A mudança de paradigma é profunda, urgente e inevitável: deixar de avaliar a memória e começar a avaliar a inteligência aplicada. Menos “o que sabes”, mais “o que fazes com o que sabes”. Menos retenção, mais ação. Menos passado, mais futuro.

E esta hem! 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

DARWYN FURLAN

A mudança é voluntária!

Você pode oferecer apoio, escuta e presença. Pode estender a mão, aconselhar, acolher, orientar e até caminhar ao lado de alguém durante momentos difíceis. Mas existe um limite que muitas vezes custa caro para ser compreendido: ninguém muda apenas porque nós desejamos.

Na prática clínica, educacional e profissional, vejo esse movimento acontecer com frequência. Pais que tentam convencer filhos a assumirem responsabilidades. 

Parceiros que acreditam que amor suficiente será capaz de transformar comportamentos. Gestores que investem tempo e energia tentando desenvolver profissionais que ainda não reconhecem a necessidade de crescimento. Amigos que carregam problemas que não lhes pertencem.

Existe uma diferença importante entre ajudar alguém e assumir a responsabilidade pela mudança dessa pessoa!!!

A Psicanálise ajuda-nos a compreender que toda transformação verdadeira depende de um movimento interno. Nenhuma orientação produz efeito duradouro quando não encontra, do outro lado, algum desejo de mudança. É por isso que muitas vezes o sofrimento se prolonga quando tentamos ocupar um lugar que não nos pertence.

A Neurociência também oferece uma contribuição interessante. O cérebro humano tende a resistir a mudanças que ameaçam hábitos, crenças e padrões já estabelecidos. Mesmo quando uma transformação seria benéfica, ela frequentemente gera desconforto, insegurança e medo. Por isso, mudar não depende apenas de informação ou incentivo, depende de disposição.

Muitas pessoas acabam emocionalmente exaustas porque confundem cuidado com controlo. Acreditam que precisam encontrar as palavras certas, insistir mais um pouco ou sacrificar-se mais um pouco para que o outro finalmente mude. Mas apoio não é controlo, estar presente não significa conduzir a vida de alguém e cuidar não significa assumir responsabilidades que pertencem ao outro.

Existe maturidade emocional quando compreendemos que podemos oferecer suporte sem carregar o peso da decisão alheia. Podemos abrir caminhos, mas não podemos percorrê-los por outra pessoa.

Nem toda dor pode ser evitada, nem toda mudança pode ser acelerada e nem todo resgate depende de quem estende a mão. Às vezes, uma das formas mais difíceis de amor é continuar disponível sem tentar controlar o processo do outro.

Porque toda transformação genuína exige algo que ninguém pode fornecer de fora para dentro: "a participação de quem precisa mudar."

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ILUSÃO DE SERMOS INVENCÍVEIS

Obriguei-me a deixar passar vinte e quatro horas sobre a derrota de Portugal frente à Espanha, nos oitavos de final do Mundial de futebol de 2026 para escrever este texto. Todos sabemos, mas muitos se esquecem, até os políticos, que para decidirmos com alguma isenção necessitamos de um período de reflexão, como o que é imposto antes de qualquer ato eleitoral.

Todavia, criou-se a fantasia de que emitir uma opinião, ou formular uma crítica, não são ações que careçam de qualquer resolução ou meditação. “Penso, logo existo”, é uma máxima ultrapassada do filósofo René Descartes, com teias de aranha depositadas ao longo de quase quatrocentos anos, que só fazia sentido num mundo sem redes sociais. Hoje, para “existir” basta estar ativo nestes espaços virtuais, publicar regularmente conteúdos que agradem a quem os consome, sem necessidade de “pensar”, não vá esse exercício trair-nos e conquistarmos “haters” em vez de seguidores.

Desde o final do jogo de ontem da nossa Seleção que já pude ler e ouvir os mais disparatados comentários à nossa participação na competição. Desde a falta de coragem do selecionador até à vaidade de Cristiano Ronaldo, tudo já foi dito e escrito, por vezes de forma injuriosa. De facto, o Roberto Martinez devia ter tido a coragem de pôr o Ronaldo no banco, nem que jogasse apenas com dez, pois seria uma manifestação de liderança, deixar o líder de fora. E este mundo é para os corajosos, que mesmo sem pensar são capazes de feitos assinaláveis. Se assim tivesse feito, Roberto Martinez podia não ganhar o Mundial, mas sairia pela porta grande por ter tido a coragem de sentar o Cristiano no banco. Admirável!

Por outro lado, Ronaldo teria a lição que merece, depois de ter dado tão pouco a Portugal. Modric com quarenta anos pode jogar pela Croácia, ou Messi aos trinta e nove pela Argentina, mas nós, conquistadores do mundo, não podemos permitir que um velho de quarenta e um anos condicione o nosso sucesso.

Depois da felicidade da véspera que alguns portugueses sentiram ao ver o Brasil afastado da competição, esquecendo que foi Luiz Filipe Scolari o responsável pela primeira internacionalização de Cristiano Ronaldo na seleção A, de ter conduzido Portugal à primeira final de um campeonato europeu da modalidade, e ter devolvido o orgulho dos portugueses na bandeira nacional, só ainda não assisti a que alguém afirmasse que Roberto Martinez fez com que Portugal perdesse por ser espanhol!  

Compreendo que a frustração de não seguirmos em frente tolde o discernimento de algumas pessoas, e que um sentimento de tristeza nos invade enquanto portugueses. Contudo, devemos ter presente que ser melhor é um conceito relativo e dependente do estado do adversário que defrontamos. Que um jogo de futebol dura noventa minutos, ou cento e vinte minutos quando tem prolongamento, e que é nesse espaço de tempo que a vitória, ou a derrota, acontecem. Podemos fazer tudo bem, e nesse lapso de tempo o resultado desejado não surgir.

Orgulhemo-nos daquilo que fizemos. Sonhamos com uma final entre Cabo Verde e Portugal, transformando Vozinha num herói nacional, embora tenha quarenta anos. Enquanto torcíamos por esta seleção, que fala a nossa língua, tal como o Brasil, não exigíamos à equipa que fosse melhor que o antagonista, nem que o seu guarda-redes defendesse tudo, só queríamos que ganhassem para alimentar a quimera de os termos na final contra nós. Aí, se perdêssemos, seria como na final do Euro 2004 com a Grécia. Só teríamos de esperar uma dúzia de anos para sermos campeões mundiais, sem Ronaldo, e com um treinador português.

Perdoem-me pela minha imaginação me ter levado tão longe. Sei que muitos dirão que acabo de escrever um chorrilho de disparates, mas vaguearmos por caminhos improváveis faz-nos pensar e refletir sobre os factos que a realidade nos oferece, mas que nos inibe de os analisarmos com clareza.

Ao fim e ao cabo, tudo ou nada é futebol, e apenas resulta da ilusão de sermos invencíveis.

 

“A nossa maior ilusão é acreditar que não temos ilusões.”

Fernando Pessoa (poeta e escritor português)


segunda-feira, 6 de julho de 2026

O DIA EM QUE O ATLÂNTICO DEIXOU DE SER OBSTÁCULO

6 de julho de 1919, é uma data que assiná-la não é apenas um acontecimento, mas sim uma mudança de imaginação. Nesse dia, o dirigível britânico R‑34 aterrou em Nova Iorque, completando a primeira travessia aérea do Atlântico. Uma viagem de mais de 6.000 quilómetros, feita lentamente, suspensa entre nuvens, vento e incerteza.

O R‑34 partiu da Escócia dois dias antes, carregando uma tripulação que sabia que estava a entrar num território onde nada estava garantido. Não havia precedentes, nem mapas aéreos fiáveis, nem a certeza de que o enorme corpo de hidrogénio resistiria às tempestades do oceano. Havia apenas coragem, engenho e uma vontade teimosa de provar que o céu também podia ser caminho.

Quando o dirigível finalmente desceu sobre o campo de Roosevelt, Nova Iorque recebeu-o como se recebesse o futuro. A travessia não foi apenas um feito técnico. Foi uma declaração de possibilidade. Pela primeira vez, o Atlântico — esse espaço de separação, distância e demora — tinha sido vencido pelo ar. O mundo ficava, de repente, mais pequeno. E a ideia de viajar entre continentes em pouco tempo, deixava de ser sonho para se tornar promessa.

No fundo, 6 de julho de 1919 não é apenas o dia em que um dirigível chegou ao outro lado do oceano. É o dia em que a humanidade percebeu que o impossível podia, afinal, ser realizável. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

EFEITO ROSENHAN

Em 1972, o psicólogo David Rosenhan expôs uma das maiores fragilidades da psiquiatria: quando um rótulo é colocado, tudo passa a ser visto sob a lente do diagnóstico. A experiência mostrou que até comportamentos comuns, como ser educado ou escrever anotações, foram interpretados como sintomas de doença mental. O mais impressionante? Apenas os verdadeiros pacientes perceberam que havia algo errado, enquanto médicos e enfermeiros viam doença onde ela não existia.

A experiência assentava numa pergunta simples, mas ousada: será que os médicos realmente sabem diferenciar uma pessoa saudável de outra com doença mental?

Para testar isso, ele criou uma experiência radical. Recrutou 8 voluntários saudáveis: psicólogos, médicos, um pintor e uma dona de casa. Todos com um objetivo: fazerem passar-se por pacientes psiquiátricos.

Eles apresentaram-se em diferentes hospitais dos Estados Unidos com o mesmo sintoma: ouviam uma voz dizendo as palavras “vazio”, “oco” e “baque”. Apenas isso. Nada mais.

Foram todos internados com diagnósticos graves. Sete deles como esquizofrênicos. O oitavo, como psicótico maníaco-depressivo.

Assim que entraram, pararam de simular qualquer sintoma. Comportaram-se com total normalidade: conversavam, comiam, anotavam o que viam. Agiam como qualquer pessoa saudável.

E ainda assim… foram considerados doentes. Cada atitude foi reinterpretada como sintoma. Fazer anotações? “Escrita obsessiva.” Ser educado? “Necessidade patológica de agradar.”

O mais surpreendente? Apenas os verdadeiros pacientes desconfiavam. Trinta e cinco internados afirmaram: “Esses aí não são doentes. São pesquisadores infiltrados.”

Já os médicos e enfermeiros, mesmo diante do óbvio… Mantiveram os seus diagnósticos.

O tempo médio de internamento foi de 19 dias. Um deles ficou 52 dias internado. E só tiveram alta depois de aceitarem: “Sim, eu sou doente. Aceito o tratamento.”

Não bastava ser saudável. Era preciso declarar-se doente para conquistar a liberdade.

Durante o internamento foram prescritas mais de 2100 pílulas de antipsicóticos. Nenhuma foi ingerida. Todas foram escondidas e descartadas.

Quando o estudo foi publicado na revista Science, a psiquiatria foi sacudida. Hospitais sentiram-se expostos. Muitos profissionais viram-se questionados.

Um hospital desafiou Rosenhan: “Envie os seus pacientes falsos. Nós vamos identificá-los.” Ele aceitou.

Três meses depois, o hospital declarou com orgulho ter detetado 41 impostores. Mas Rosenhan não havia enviado ninguém.

A desconfiança no sistema virou quase uma paranoia. Eles viam pacientes falsos por todo lado… mesmo quando não havia ninguém infiltrado.

O estudo ficou conhecido como Efeito Rosenhan. Uma demonstração poderosa de como os rótulos psiquiátricos podem distorcer completamente a realidade, tanto para quem diagnostica, quanto para quem é diagnosticado. Constituiu-se um divisor de águas na história da saúde mental. Ele lembra-nos que diagnósticos são importantes, mas não podem substituir a escuta, a empatia e a individualidade de cada pessoa. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

JOHN FITZGERALD KENNEDY

John Fitzgerald Kennedy nasceu a 29 de maio de 1917, em Brookline, e cresceu entre livros, debates e a exigência silenciosa de uma família que via o serviço público como destino. Veterano da Marinha, congressista, senador e, mais tarde, 35.º Presidente dos Estados Unidos, trouxe para a política uma energia jovem e uma rara capacidade de comunicar esperança num mundo suspenso entre o medo e o futuro. 

Defendeu os direitos civis, impulsionou o programa espacial e enfrentou a crise dos mísseis de Cuba com uma combinação improvável de firmeza e prudência. Mas foi a 26 de junho de 1963, em Berlim Ocidental, que deixou uma das marcas mais profundas da sua liderança — um momento em que a palavra se ergueu como fronteira moral.

Há dias que não pertencem ao calendário. Pertencem à memória do mundo, e 26 de junho de 1963 foi um desses dias. Berlim acordou dividida, não apenas por um muro de betão, mas por um medo que se infiltrava nas ruas, nos gestos, nos silêncios. E, no entanto, naquela manhã, algo mudou. Um homem atravessou o Atlântico para dizer a uma cidade ferida que ela não estava sozinha.

Kennedy subiu ao púlpito com a contenção de quem sabe que as palavras podem ser mais perigosas do que armas. Olhou para aquela multidão comprimida entre a esperança e o desespero, e disse apenas: Ich bin ein Berliner. Não era uma frase política. Era uma promessa. Uma forma de dizer: “A vossa liberdade é também a minha.”

Naquele instante, o ar pareceu ganhar outra densidade. O muro continuava lá, frio e implacável, mas algo se deslocou no interior das pessoas. Porque há líderes que comandam exércitos, e líderes que comandam a coragem. Kennedy não derrubou o muro, mas fez com que, por um momento, ele deixasse de ser invencível.

E talvez seja isso que faz de Kennedy um grande líder: ter mostrado que, às vezes, basta uma frase para que uma cidade inteira volte a respirar. Ter lembrado ao mundo que a força não está apenas no poder, mas na capacidade de dizer a palavra certa no momento exato, e de a dizer com verdade.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

BILLY WILDER

“Confie, mas verifique.”

Billy Wilder, nascido a 22 de junho de 1906, foi um dos grandes mestres do cinema — um criador que unia ironia, lucidez e uma compreensão muito fina da natureza humana. A frase “Confie, mas verifique” é frequentemente evocada neste dia, não apenas por assinalar o seu aniversário, mas porque condensa a sua visão pragmática do mundo: a confiança é essencial, mas não dispensa o cuidado.

Billy Wilder nunca usou esta citação como um convite à suspeita. Pelo contrário, lembrava que verificar não diminui a confiança, protege-a. Verificar é garantir que o que construímos com os outros assenta em bases sólidas, que as falhas não se acumulam por distração e que a relação, seja pessoal ou profissional, se mantém íntegra. Lida a 22 de junho, a frase funciona como um lembrete discreto de maturidade. Confiar é um gesto de abertura. Verificar é um gesto de responsabilidade. E quando os dois se encontram, o resultado é sempre mais seguro, mais claro e mais verdadeiro. 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

1984, UM LIVRO PREMONITÓRIO

A 8 de junho de 1949 chegava às livrarias um romance que, ironicamente, não pretendia ser profético. George Orwell escreveu 1984 como um aviso urgente sobre o presente — o seu presente — e não como um mapa do futuro. O que ele queria era exagerar os mecanismos de propaganda, vigilância e manipulação que já via à sua volta. O que conseguiu foi outra coisa: criar o vocabulário com que o mundo viria a descrever a sua própria decadência.

O curioso é que, na altura, poucos imaginaram que o livro se tornaria um espelho tão fiel das décadas seguintes. Orwell estava doente, isolado numa ilha escocesa, a escrever febrilmente para terminar o manuscrito antes que a tuberculose o vencesse. Não estava a tentar adivinhar nada — estava a tentar alertar. Mas o alerta transformou‑se em diagnóstico. E o diagnóstico, com o tempo, tornou‑se quase banal: “Big Brother”, “duplipensar”, “novilíngua”, “Ministério da Verdade”. Expressões que hoje usamos com a naturalidade de quem respira.

E, no entanto, há um detalhe que raramente se recorda: Orwell não temia apenas os regimes totalitários. Temia também a passividade das pessoas comuns, a facilidade com que se aceita uma meia‑verdade, a rapidez com que se normaliza o absurdo, a tentação de acreditar que “não é bem assim”. O perigo, para ele, não estava só no poder — estava na indiferença.

E aqui está a ironia contemporânea: 75 anos depois da publicação, vivemos rodeados de versões suaves, higienizadas e até sorridentes daquilo que Orwell temia. Não precisamos de um Big Brother de botas cardadas quando temos vigilância voluntária, algoritmos que nos conhecem melhor do que nós próprios e discursos públicos onde a verdade é, muitas vezes, apenas uma questão de insistência.

Orwell não queria prever o futuro. Mas o futuro, teimoso, acabou por lhe dar razão. Talvez porque, no fundo, 1984 não fala de regimes — fala de pessoas. Das que mandam. Das que obedecem. Das que preferem não ver.

E esta hem! 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

GUILHERME PAIXÃO

O perdão reconfigura o cérebro

Quando perdoa alguém, o cérebro não decide simplesmente "soltar" emocionalmente. Ele reconfigura-se.

Como médico, vou explicar o que a neurociência vem mostrando. O perdão produz alterações mensuráveis na atividade cerebral e na sinalização química — alterações que reduzem o stress e remodelam o modo como o cérebro processa emoção. Em vez de ativar repetidamente os circuitos de ameaça e dor, o cérebro migra para regiões que sustentam compreensão, perspectiva e regulação emocional. Mas só quando o perdão é genuíno e intencional.

Nos momentos de ressentimento, a amígdala e outras redes sensíveis a ameaça ficam mais ativas. Isso mantém o corpo num estado contínuo de alerta. Essa resposta de stress sustentado eleva hormônios ligados à ansiedade e à tensão crónica. O ressentimento, em termos fisiológicos, é uma fogueira que não apaga.

Quando a pessoa trabalha o perdão, a atividade nas regiões frontais — envolvidas em empatia e controlo cognitivo — aumenta. Essas áreas reinterpretam a dor passada, reduzem a carga emocional das memórias e abafam os sinais persistentes de luta ou fuga que alimentam o stress.

Com o tempo, esse deslocamento neural melhora o bem-estar global. Ao acalmar as vias de stress e fortalecer conexões associadas à empatia e à compreensão social, o perdão sustenta melhor equilíbrio emocional e reduz a carga fisiológica do rancor crónico.

E aqui mora o ponto que muita gente não consegue ver: perdoar não é esquecer o que aconteceu. É mudar a resposta do cérebro à memória — para que ela deixe de disparar, repetidamente, uma ativação prolongada de stress.

Ressentimento não é só emoção. É carga fisiológica. Perdão não é só virtude. É medicina.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Há datas que não nasceram para celebrar, mas para lembrar. 1 de junho, Dia Mundial da Criança em Portugal e em muitos outros países, é uma dessas datas. A sua origem não se inspirou num gesto festivo, mas numa preocupação profunda: a consciência de que, mesmo num mundo que se dizia moderno, as crianças continuavam a ser as mais vulneráveis.

A semente desta efeméride foi lançada em 1925, em Genebra, durante a Conferência Mundial para o Bem‑Estar da Criança. Ali, pela primeira vez, representantes de vários países reconheceram que era urgente criar um dia dedicado a proteger quem ainda não tinha voz. Foi um apelo à responsabilidade coletiva, num tempo em que pobreza, trabalho infantil e abandono eram realidades demasiado comuns.

Décadas mais tarde, em 1950, as Nações Unidas retomaram esse impulso e passaram a assinalar oficialmente o Dia Mundial da Criança, reforçando a necessidade de colocar os direitos dos mais novos no centro das políticas públicas. Em 1959, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos da Criança, documento que afirmava, com clareza inédita, que todas as crianças, independentemente da sua origem, têm direito a amor, proteção, saúde, educação e dignidade.

Portugal, tal como vários países, escolheu 1 de junho como data de celebração. É um dia que convida a olhar para a infância não como um dado adquirido, mas como uma responsabilidade permanente. Um lembrete de que brincar é um direito, não um luxo, que a proteção não é opcional, e que a infância é o território onde se decide grande parte do futuro.

No fundo, 1 de junho não é apenas o Dia Mundial da Criança. É o dia em que o mundo se compromete, ou deveria comprometer‑se, a não falhar com elas. 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

DO BORDEL À REDENÇÃO

Ela foi desprezada, ridicularizada, humilhada.

A sua beleza tornou-se uma maldição.

Em 1878, entre a poeira e a ténue luz dos becos de Abilene, Clara Duvall fez o impensável: abandonou o bordel que havia marcado o seu nome com vergonha.

Nascida no Missouri em 1856, ela chegou ao oeste em busca de trabalho, mas só encontrou homens que a usavam e depois a esqueciam.

A cidade conhecia o seu rosto, mas não a sua história.

Ninguém se perguntou como a fome pode transformar graça em sobrevivência.

Não foi o amor que a salvou. Foi misericórdia.

Numa noite, Nathan Cole, rancheiro e viúvo, entrou naquele salão não em busca de prazer, mas de redenção.

Ele viu os olhos de Clara, cansados, porém corajosos, e algo dentro dele se recusou a deixá-la ali.

Ofereceu-lhe a mão, não por pena, mas por paz, e eles casaram-se sob um teto simples, enquanto até o padre hesitava em pronunciar o nome dela.

Nathan disse-o sem tremer, e a sua voz apagou o julgamento do mundo.

Juntos, deixaram para trás a cidade que a condenara.

Construíram uma casa, um jardim e uma vida tranquila, onde a compaixão floresceu em vez do rancor.

Quando morreu, em 1892, Clara Cole já não era “a mulher do prazer”.

Era aquela que alimentava os órfãos, remendava as roupas dos pobres e se sentava na primeira fila da igreja, ao lado do marido.

A história esqueceu o seu rosto, mas não a sua lição.

Porque nem todos os heróis nascem do triunfo. Alguns surgem do perdão.

E poucos se conseguem levantar da poeira da vergonha... para escolher a bondade. 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

ISAMBARD KINGDOM BRUNEL

Isambard Kingdom Brunel nasceu a 9 de abril de 1806, em Portsmouth, filho de um engenheiro francês que lhe ensinou cedo a arte de pensar com as mãos. Cresceu entre desenhos, cálculos e máquinas, como se o mundo fosse um grande mecanismo à espera de ser aperfeiçoado. Tornou‑se um dos maiores engenheiros da Revolução Industrial britânica, autor de obras que ainda hoje parecem desafiar o tempo: a Great Western Railway, que encurtou distâncias e inaugurou uma nova ideia de velocidade; a Clifton Suspension Bridge, que suspende o impossível sobre o vazio; o SS Great Britain, o primeiro grande navio transatlântico em ferro; e o monumental SS Great Eastern, que parecia demasiado vasto até para o oceano que o recebia. A 27 de maio de 1859, a sua morte marcou o fim de uma vida que empurrou o mundo para a frente, não pela força, mas pela inovação.

Há datas que não encerram apenas uma vida. Encerram uma forma de imaginar o mundo. 27 de maio de 1859 foi uma dessas datas. Londres acordou com o seu habitual nevoeiro, mas havia no ar uma estranha sensação de que algo se tinha deslocado, como se uma engrenagem silenciosa tivesse parado de girar. Nesse dia, Isambard Kingdom Brunel deixou de respirar, e com ele cessou também o impulso inquieto que empurrava a modernidade para diante.

Brunel não era um homem de discursos. Era um homem de estruturas. Onde outros viam obstáculos, ele via possibilidades. Onde outros viam rios, ele via pontes. Onde outros viam oceanos, ele via navios capazes de os atravessar com a serenidade de quem atravessa um lago. Era um criador compulsivo, desses que não esperam que o futuro chegue. Tratam de o construir.

Nos seus estaleiros, entre o ferro, o vapor e o cheiro a madeira recém-cortada, Brunel praticava uma forma rara de liderança: a liderança que nasce da visão. Não precisava de levantar a voz. Bastava-lhe apontar um desenho, uma curva, uma solução improvável. E, de repente, o impossível tornava-se apenas uma questão de cálculo.

Talvez seja isso que faz de Brunel um grande líder: ter mostrado que a verdadeira grandeza não se mede em poder, mas em legado. E que há homens que, mesmo depois de partirem, continuam a mover o mundo, como uma máquina que nunca se apaga totalmente. 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

IAN MCKELLEN

“Ser diferente não é um problema. O problema é ser tratado como se fosse.”

Ian McKellen, nascido a 25 de maio de 1939, é mais do que um dos grandes atores do nosso tempo. Tornou‑se uma voz ética, firme e luminosa na defesa da dignidade humana. A frase “Ser diferente não é um problema. O problema é ser tratado como se fosse” é frequentemente evocada neste dia, não apenas por assinalar o seu aniversário, mas porque condensa a clareza moral que sempre o guiou. McKellen lembra-nos que a diferença não é uma falha a corrigir, mas uma forma de presença no mundo, e que a verdadeira violência nasce do olhar que reduz, exclui ou desumaniza. Lida a 25 de maio, a frase funciona como um convite à atenção e ao cuidado.

Aquilo que somos não nos diminui. O que nos fere é a forma como o mundo decide olhar-nos. E talvez seja por isso que continua tão necessária — porque a dignidade, como a arte, começa sempre no reconhecimento do outro. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

MIGUEL ESTEVES CARDOSO

DIA INTERNACIONAL DO ABRAÇO

Às Minhas Pessoas, 

lealdade e abraços, sempre...

«Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amigo, não se pode ter muitos amigos. (...)

Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. (...)

A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser.»

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas' 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A CEGUEIRA DE COLOMBO

No dia 20 de maio de 1506, morria em Valladolid um homem convencido de que tinha mudado o mundo. E tinha. O que ele não sabia — e recusou admitir até ao último suspiro — era que o mundo que mudara não era aquele que imaginava. Cristóvão Colombo partiu desta vida persuadido de que tinha chegado às “Índias”, fiel à sua convicção inicial, impermeável a qualquer evidência em contrário. Morreu certo. E morreu errado.

A ironia histórica é deliciosa: o “descobridor” da América nunca soube que tinha descoberto a América. 

Não porque ninguém lho tivesse dito — pelo contrário, vários cosmógrafos, navegadores e até membros da corte espanhola tentaram explicar‑lhe que aquelas terras não batiam certo com as descrições asiáticas. Mas Colombo tinha uma característica que atravessa séculos e continua viva em muitas figuras públicas de hoje: a incapacidade de rever uma convicção quando ela já se colou ao ego.

A sua certeza era tão sólida que se tornou cegueira. Para ele, cada nova ilha era apenas mais uma prova de que estava certo; cada contradição era um detalhe irrelevante; cada aviso era um incómodo. A realidade podia mudar, mas a sua narrativa não mudava com ela. Há quem lhe chame teimosia. Outros chamam‑lhe fé. Hoje, talvez lhe chamássemos outra coisa: aquela forma de arrogância tranquila que transforma a opinião própria em dogma pessoal.

E não é curioso como este traço resiste ao tempo? Quinhentos anos depois, continua a haver quem ocupe cargos, púlpitos e câmaras de televisão com a mesma convicção inabalável de Colombo: estar certo é mais importante do que estar correto. A dúvida é vista como fraqueza, a revisão como derrota, a escuta como perda de autoridade. E assim, tal como o genovês obstinado, muitos preferem manter o mapa errado a admitir que o caminho pode não ser aquele.

Colombo morreu sem saber onde tinha chegado. Mas chegou. E mudou o mundo apesar de si próprio — ou talvez por causa dessa mesma cegueira que o impediu de recuar. A História tem destas ironias: às vezes, quem está errado deixa marcas mais profundas do que quem acerta.

E esta hem! 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

GREVE GERAL DE WINNIPEG

Há dias em que uma cidade acorda diferente. 15 de maio de 1919 foi um desses dias em Winnipeg. Às 11 da manhã, como se um relógio invisível tivesse dado o sinal, mais de 30 mil trabalhadores pararam ao mesmo tempo. Não houve violência, nem tumulto inicial. Houve silêncio. Um silêncio firme, organizado, quase coreografado — o tipo de silêncio que anuncia que algo profundo está a mudar.

A Greve Geral de Winnipeg não nasceu de um único conflito, mas de uma acumulação de injustiças: salários baixos, jornadas exaustivas, condições indignas, e a sensação crescente de que o progresso industrial deixava demasiadas pessoas para trás. Quando os metalúrgicos e os trabalhadores da construção decidiram parar, toda a cidade os seguiu — empregados de correios, tipógrafos, cozinheiras, motoristas, funcionários públicos. Até a polícia, solidária, hesitou entre a farda e a consciência.

O que começou naquele 15 de maio tornou‑se uma das maiores mobilizações laborais da América do Norte. Durante seis semanas, Winnipeg viveu suspensa entre o medo e a esperança, entre a pressão das autoridades e a determinação dos trabalhadores. A cidade funcionou a meio‑gás, mas funcionou com uma clareza rara: a de que a dignidade não é negociável.

A Greve Geral de Winnipeg não foi apenas um protesto — foi um despertar coletivo. Foi a prova de que a justiça social não nasce de decretos, mas de pessoas comuns que decidem que o mundo pode ser diferente. Foi o instante em que uma cidade inteira, cansada de esperar, escolheu levantar a voz.

No fundo, 15 de maio de 1919 não é apenas o dia em que uma greve começou. É o dia em que Winnipeg descobriu o poder de dizer “basta”. 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

UMA LIÇÃO DE AMOR

Ela estava com os dois olhos roxos e o nariz partido — e absolutamente nenhum interesse no astro de cinema. Foi exatamente por isso que ele se apaixonou por ela.

Em 1975, um jovem ator chamado Jeff Bridges chegou a Paradise Valley, Montana para filmar Rancho Deluxe. A equipa estava hospedada em Chico Hot Springs, um refúgio tranquilo cercado por montanhas e céu aberto.

Jeff já estava em ascensão em Hollywood, indicado ao Oscar, vindo de uma família de atores. O seu futuro parecia não ter limites.

Mas o momento que mudaria a sua vida não teve nada a ver com cinema.

Durante uma cena, ele notou uma jovem trabalhando por perto. Não sabia dizer se era empregada de mesa ou funcionária do hotel. O que ele sabia era que ela chamava a atenção — mesmo que o seu rosto contasse outra história.

Ela estava com os dois olhos roxos e o nariz partido, resultado de um acidente de carro recente. Sem maquiagem. Sem tentar esconder. Apenas uma confiança silenciosa enquanto trabalhava.

Anos depois, Jeff diria que ficou fascinado pelo contraste. A beleza… e os hematomas. Ela parecia real de um jeito que ninguém mais parecia.

Depois da cena, ele criou coragem e convidou-a para sair.

O nome dela era Susan Geston. Tinha 21 anos, era de Fargo e trabalhava para se sustentar enquanto estudava.

Ela disse que não.

Sem dureza. Sem drama. Apenas um “não” simples. Era uma cidade pequena, disse ela — talvez se encontrassem de novo. Ela não tinha interesse em se deixar levar por um astro de cinema.

Jeff ficou surpreso… e completamente encantado.

Algumas noites depois, eles encontraram-se novamente num bar local. Dançaram durante horas. Mais tarde, Jeff diria que ali foi o momento em que se apaixonou de verdade.

O primeiro encontro “oficial” veio de forma inesperada. Jeff tinha uma reunião para ver uma propriedade rural e convidou Susan para ir com ele. Enquanto caminhavam perto de um rio, ele teve um pensamento repentino:

“Você está olhando para uma casa com a sua futura esposa.”

Aquilo assustou-o. Ele estava profundamente apaixonado, mas o compromisso apavorava-o.

Levou dois anos para pedir Susan em casamento.

Ela, firme e clara como sempre, deixou evidente que não esperaria para sempre. Anos depois, Jeff admitiu que teve sorte de “acordar a tempo” antes de a perder.

Em 5 de junho de 1977, eles casaram-se.

Juntos, construíram uma vida longe do caos de Hollywood. Criaram três filhas — Isabelle, Jessica e Hayley. Enquanto a carreira de Jeff decolava, Susan mantinha tudo firme, simples e real.

Em 2010, quando Jeff ganhou o Oscar, milhões viram um vislumbre da história dos dois — Susan emocionada enquanto ele falava da família.

Então veio o teste mais difícil.

Em 2020, Jeff foi diagnosticado com um linfoma. Durante o tratamento, contraiu COVID-19 e ficou semanas internado.

Susan também adoeceu, mas voltou para o lado dele assim que pôde. Quando decisões difíceis precisaram ser tomadas, ela disse aos médicos:

“Salvem a vida dele. Façam o que for preciso.”

Jeff diria depois que o amor dela o salvou.

Hoje, o cancro está em remissão. Eles continuam juntos, cercados pela família.

Ele ainda guarda uma foto do dia em que se conheceram — a empregada de mesa magoada que mudou tudo.

Susan nunca precisou dos holofotes.

Mas tornou-se o motivo pelo qual a vida dele permaneceu estável, forte e cheia de amor.

E a lição permanece:

Quando você sabe o seu valor, não precisa correr atrás do amor.

Você atrai o tipo que permanece. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

NELSON MANDELA

Nelson Rolihlahla Mandela, nascido a 18 de julho de 1918 na pequena vila de Mvezo, tornou‑se o rosto mais reconhecido da luta contra o apartheid na África do Sul. Advogado, ativista, líder do ANC e símbolo global de resistência, passou 27 anos preso por desafiar um regime que institucionalizava a desigualdade racial. Libertado em 1990, conduziu o país a uma transição pacífica e exemplar, marcada pela reconciliação e pela construção de uma democracia multirracial. 

A 11 de maio de 1994, tomou posse como o primeiro Presidente negro da África do Sul, inaugurando uma era que redefiniu não apenas o destino do seu povo, mas também o significado contemporâneo de liderança moral.

Há datas que não pertencem apenas ao calendário. Pertencem à consciência de um povo. 11 de maio de 1994 foi uma dessas datas. Pretória acordou com um silêncio diferente — não o silêncio do medo, mas o silêncio raro de quem pressente que algo irreversível está a acontecer. Nesse dia, Nelson Mandela subiu ao púlpito não como vencedor, mas como guardião de uma promessa.

Ele sabia que o país que herdava era uma ferida aberta. Sabia que a história recente tinha deixado cicatrizes profundas, difíceis de nomear e impossíveis de ignorar. E, no entanto, falou. Falou de reconciliação, de futuro, de uma liberdade que não se conquista contra alguém, mas com todos. Falou como quem atravessou a escuridão e regressou com uma luz que não lhe pertence apenas a si.

Aquele momento — a mão levantada, o olhar firme, a respiração contida — não era apenas a posse de um Presidente. Era a inauguração de uma nova gramática moral. Mandela não prometeu milagres — prometeu humanidade. E cumpriu-a com a serenidade de quem sabe que a verdadeira força não está na vingança, mas na capacidade de perdoar sem esquecer.

Há líderes que mudam leis — ele mudou destinos. Há líderes que governam países — ele ensinou o mundo a imaginar-se melhor. E talvez seja isso que faz de Mandela um grande líder — ter transformado um dia comum num ponto de viragem para toda a humanidade. Ter mostrado que a coragem pode ser suave, e que a justiça, quando é verdadeira, não precisa de gritar. 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

JÁ ESQUECEMOS A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL?

Todos sabemos que nesta data, 8 de maio, terminou “oficialmente” a Segunda Guerra Mundial na Europa. É o dia que os livros assinalam, o dia que a memória coletiva repete, o dia que marca o fim de um dos períodos mais sombrios da humanidade. Todavia, nem todos sabem — ou já não se lembram — que este “fim” não aconteceu no mesmo momento para todos. 

A História, caprichosa como sempre, decidiu repartir o desfecho por três dias diferentes.

Hoje, enquanto o Ocidente recorda os 81 anos do fim da guerra, Moscovo prepara‑se para o seu próprio ritual: o Desfile da Vitória, celebrado a 9 de maio. Este ano, porém, o ambiente é mais tenso do que festivo. A guerra com a Ucrânia paira sobre a Praça Vermelha como uma sombra desconfortável, tornando a celebração simultaneamente patriótica e paradoxal: comemora‑se o fim de uma guerra enquanto outra continua a decorrer.

A razão desta diferença de datas é menos conhecida do que se imagina. A União Soviética fixou o dia 9 de maio porque, em Berlim, a assinatura da rendição alemã ocorreu já depois da meia‑noite. Para Moscovo, a guerra terminou no dia seguinte. Para o Ocidente, ficou registada no dia 8. Duas horas, dois fusos horários, duas narrativas.

Mas a verdadeira surpresa está antes disso. A primeira rendição alemã não foi nem a 8 nem a 9 de maio. Foi a 7 de maio, em Reims, numa cerimónia discreta, quase burocrática. Os soviéticos, porém, não aceitaram. Consideravam que o Exército Vermelho, responsável pelo maior sacrifício humano da guerra, merecia uma assinatura “à altura”. Exigiram uma segunda cerimónia, mais solene, mais simbólica, mais sua.

Resultado: 7 de maio — rendição técnica; 8 de maio — celebração ocidental; 9 de maio — celebração soviética/russa.

Três datas para um único fim. Três versões para a mesma vitória. A História, afinal, raramente cabe num só dia.

E esta hem! 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

ORSON WELLES

“Criar é a melhor forma de dar sentido à vida.”

Orson Welles, nascido a 6 de maio de 1915, foi um daqueles raros criadores que mudam para sempre a expressão de uma arte. No cinema, no teatro ou na rádio, trabalhou sempre com a mesma convicção: a de que a imaginação não é um luxo, mas uma necessidade vital.

A frase “Criar é a melhor forma de dar sentido à vida” tornou‑se uma das mais evocadas neste dia, porque condensa a sua visão do gesto criativo como forma de orientação interior. 

Para Orson Welles, criar não era apenas produzir obras. Era encontrar um eixo, uma direção, uma razão para avançar.

Lida a 6 de maio, a frase recorda-nos que a criação — seja ela artística, profissional ou íntima — é uma maneira de organizar o caos, de transformar inquietação em conteúdo, de dar nome ao que ainda não sabemos nomear. E talvez seja por isso que continua tão atual: porque todos, à nossa escala, procuramos esse lugar onde o que fazemos ilumina quem somos. 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

DARWYN FURLAN

Pensar demais!

Pensar demais é como andar em círculos dentro da própria mente: cansamos, mas não saímos do lugar.

A Psicanálise lembra-nos que, quando ficamos presos em repetições internas o “devia ter dito outra coisa”, o “e se tudo correr mal”, na verdade estamos diante de conteúdos inconscientes que pedem elaboração, não punição. É a mente tentando controlar o incontrolável.

Já a Gestão Emocional, apoiada pela prática da atenção plena, convida-nos a outro caminho: validar.  

Validar não é negar a angústia, nem dizer que “está tudo bem” quando não está. 

É reconhecer a experiência, dar-lhe um nome, acolher a emoção como parte legítima da vida psíquica. Essa validação abre espaço para escolhas mais conscientes e menos automáticas.

Na Educação, esse movimento é transformador. Um estudante que aprende a diferenciar pensamento excessivo de atenção plena não só melhora a sua aprendizagem, mas também fortalece a sua saúde emocional. Ele descobre que pode respirar fundo antes de reagir, pode aceitar erros como parte do processo, pode ser grato pelo que já construiu, em vez de ser refém da autocrítica ou do medo do julgamento alheio.

Professores e famílias, quando também se permitem a essa prática, tornam-se modelos vivos de equilíbrio, construindo uma cultura escolar menos ansiosa e mais humana.

No trabalho, a lógica é a mesma. A pressão por resultados, se não for acompanhada de validação e Gestão Emocional, vira a combustível para exaustão e conflitos. Já quando aprendemos a focar no agora, a aceitar limites e a lidar com o que vier, tornamo-nos profissionais mais criativos, colaborativos e resilientes.

A vida pessoal também sai beneficiada: relações baseadas em validação e presença são mais autênticas, menos reféns das expectativas irreais.

Ser melhor ser humano não é sobre eliminar o pensamento excessivo, mas aprender a dialogar com ele, transformando-o em consciência. O diferencial está em reconhecer: eu não controlo tudo, mas posso escolher como viver cada instante. E essa escolha muda o rumo não só da educação, mas da vida inteira.

Entre o inconsciente que nos habita e a vida que nos exige presença, a maturidade emocional nasce quando aprendemos a não ser escravos nem dos pensamentos nem das circunstâncias.

Como diria Sêneca: "Não é o que nos acontece que nos define, mas a forma como escolhemos responder."

E a Psicanálise acrescenta: ao reconhecer o que sentimos, libertamos a mente para viver com mais verdade.

THOMAS MANN

“A tolerância torna possível a convivência; a verdade torna possível o respeito.” Thomas Mann, romancista alemão nascido em 1875 e falecid...