sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A INSUBMERSÍVEL

Quando se fala no Titanic, a memória coletiva guarda o navio, o icebergue e as mais de 1.500 vidas perdidas. O que quase ninguém sabe é que houve uma mulher que sobreviveu não apenas ao Titanic, mas também a outros dois acidentes marítimos envolvendo navios da mesma companhia. Chamava-se Violet Jessop. E acabou por ganhar um apelido improvável – a insubmersível.

Nascida a 25 de setembro de 1887, Violet Jessop trabalhava como hospedeira da White Star Line, a empresa proprietária do Titanic. 

Em 1911 encontrava-se a bordo do Olympic quando este colidiu com um cruzador da marinha britânica. O navio não afundou, mas o acidente foi suficientemente grave para merecer manchetes em todo o mundo.

Qualquer pessoa prudente talvez tivesse considerado mudar de profissão. Mas Violet Jessop continuou a sua carreira no mar. No ano seguinte embarcou no Titanic. Na madrugada de 15 de abril de 1912, quando o navio embateu no icebergue, conseguiu entrar num bote salva-vidas e foi resgatada horas mais tarde.

Sobreviver a um desastre daqueles já seria matéria suficiente para uma vida inteira de histórias. Mas o destino ainda não tinha terminado com ela.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Violet Jessop embarcou no Britannic, o navio-irmão do Titanic transformado em navio-hospital. Em 1916, uma explosão provocada por uma mina afundou a embarcação no Mar Egeu. Mais uma vez, ela escapou com vida. Desta vez, nem tudo correu bem: ao saltar para a água sofreu um ferimento na cabeça que só anos depois viria a descobrir ter sido uma fratura.

Três grandes acidentes. Três navios da mesma família. Três sobrevivências.

Há quem fale em sorte. Há quem fale em destino. Seja qual for a explicação, é difícil encontrar outro currículo semelhante. Enquanto milhões de pessoas lembram o Titanic, poucas recordam a mulher que sobreviveu ao Olympic, ao Titanic e ao Britannic.

O mar tentou três vezes. Não conseguiu.

E esta hem! 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

JOÃO CASARRI NETO

Inteligência Emocional

A Inteligência Emocional (IE) é a capacidade de reconhecer, compreender, gerir e influenciar as próprias emoções e as dos outros. Isto envolve uma série de habilidades que permitem às pessoas lidarem de forma eficaz com as suas emoções e construírem relacionamentos mais sólidos com outras pessoas.

O conceito de IE, foi popularizado pelo psicólogo Daniel Goleman, que destaca cinco componentes principais:

- o autoconhecimento emocional, que envolve reconhecer e compreender as próprias emoções e o seu impacto nos pensamentos e comportamentos;

- a autorregulação, que é a capacidade de controlar ou redirecionar impulsos disruptivos e adaptar-se a mudanças mantendo o equilíbrio emocional;

- a motivação, que significa a disposição para perseguir objetivos com energia e persistência, mesmo diante de desafios;

- a empatia, que se trata da capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos dos outros, respondendo adequadamente às suas necessidades emocionais;

- as habilidades sociais, que é a capacidade de construir e manter relacionamentos saudáveis, comunicar-se de forma eficaz, resolver conflitos e colaborar em equipa.

A Inteligência Emocional, porém, não faz tudo isso sozinha. Na verdade, ela complementa a inteligência cognitiva (QI) e é reconhecida como um fator importante para o sucesso e o bem-estar de qualquer indivíduo.

 Ela melhora a comunicação ao permitir que as pessoas entendam as necessidades e sentimentos dos outros, promovendo assim relacionamentos mais fortes e a solução harmoniosa de conflitos. Além disso, a IE favorece o trabalho em equipa, permitindo dessa forma uma colaboração mais eficaz, além de criar um ambiente de trabalho mais cooperativo e produtivo.

Sem falar que a IE também aumenta a resiliência, uma vez que ajuda as pessoas a lidar com a pressão, o stress e os contratempos de forma equilibrada. Isso permite que se recuperem rapidamente e mantenham o foco nos seus objetivos.

Ajuda os líderes a inspirar e motivar as suas equipas, a partir do momento em que eles passem a compreender e abordar com empatia as emoções dos seus colaboradores. E, adicionalmente, melhora a tomada de decisões, pois evita que os líderes tenham reações impulsivas, abordando situações adversas com racionalidade e estratégia.

A adaptabilidade é mais uma coisa que melhora quando o Indivíduo tem IE, pois permite que os profissionais enfrentem mudanças e incertezas com facilidade — tornando-se assim, uma habilidade essencial no dinâmico mercado de trabalho de hoje.

Por fim, podemos dizer que a Inteligência Emocional não fortalece apenas as habilidades interpessoais, mas também amplia a capacidade de lidar com desafios, tomar decisões assertivas e liderar com eficácia. E não deixa dúvidas de que essas qualidades estão fortemente ligadas ao sucesso profissional, tornando a IE um recurso indispensável para o crescimento pessoal e profissional. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

MARCHA CLIMÁTICA GLOBAL

Há dias em que a humanidade descobre que tem voz. 18 de setembro de 2014 foi um desses dias. Em mais de 150 países, milhões de pessoas saíram à rua para participar na Marcha Climática Global, uma mobilização que não defendia partidos, governos ou ideologias — defendia algo mais simples e mais urgente: o direito ao futuro.

Não houve líder único, nem manifesto fechado. Houve famílias com cartazes feitos à mão, cientistas que deixaram os laboratórios, avós que marcharam para memória dos netos, estudantes que recusavam herdar um planeta em declínio. Em Nova Iorque, Londres, Delhi, Maputo, Rio de Janeiro, Lisboa, Sydney — cidades tão diferentes que raramente se cruzam — o mesmo grito ecoou: “Não há planeta B.”

A força deste dia não esteve na dimensão da marcha, mas na sua natureza. Foi a primeira vez que o mundo falou ao mesmo tempo sobre o clima. A primeira vez que a crise ambiental deixou de ser um debate técnico e passou a ser uma exigência humana. A primeira vez que a urgência se tornou visível, palpável, incontornável.

E, no entanto, ao olhar para 2026, percebe‑se que aquele grito ainda não encontrou resposta à altura. O planeta continua a aquecer, as desigualdades ambientais aprofundam‑se, e a sensação de que estamos a viver numa contagem decrescente tornou‑se quase quotidiana. Talvez por isso este dia seja tão importante – porque recorda que a esperança não nasce da espera, mas da ação.

No fundo, 18 de setembro de 2014 não é apenas o dia em que milhões marcharam. É o dia em que o mundo percebeu que, para salvar o futuro, tem de começar por se unir no presente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

VIDAS PARARELAS

Eles viveram vidas idênticas por 39 anos — casaram com mulheres com os mesmos nomes, conduziram os mesmos carros e deram aos filhos o mesmo nome.

Eles nunca se haviam conhecido. Nem sabiam que o outro existia.

A 19 de agosto de 1939, em Piqua, Ohio, uma mulher solteira deu à luz gémeos idênticos. Incapaz de os criar, colocou os dois para adoção quando tinham três semanas de vida.

Por coincidência — ou algo ainda mais estranho — as duas famílias adotivas escolheram o mesmo nome para os meninos: James.

Jim Lewis foi adotado pela família Lewis, em Lima.

Jim Springer foi adotado pela família Springer, em Piqua, a apenas 64 quilómetros de distância.

Os Springer foram informados de que o outro gémeo havia morrido. Já os Lewis sabiam que existia um irmão gémeo, mas não tinham qualquer informação sobre ele.

Assim, durante 39 anos, dois meninos idênticos cresceram e tornaram-se homens praticamente iguais, vivendo vidas paralelas sem qualquer conhecimento um do outro.

Desde a infância, as semelhanças eram impressionantes:

• Ambos tinham irmãos adotivos chamados Larry.

• Ambos tiveram cachorros na infância chamados Toy.

• Ambos gostavam de matemática e marcenaria, mas odiavam ortografia.

• Ambos roíam as unhas e sofriam de enxaquecas.

Na vida adulta, as coincidências continuaram:

• Os dois trabalharam na área policial.

• Os dois conduziram Chevrolets.

• Os dois fumavam cigarros em cadeia.

• Os dois tinham hobbies como carpintaria e desenho mecânico.

Ambos se apaixonaram por mulheres chamadas Linda — e casaram-se com elas.

Quando os casamentos fracassaram, ambos se divorciaram.

Depois, cada um conheceu e se casou com mulheres chamadas Betty.

Cada um teve um filho primogénito.

Jim Lewis deu-lhe o nome de James Alan.

Jim Springer deu-lhe o nome de James Allan — o mesmo nome, com grafia levemente diferente.

Sem saber disso, ambos passaram férias no mesmo trecho de três quarteirões de praia perto de St. Petersburg, Flórida — possivelmente ao mesmo tempo, cruzando-se um com o outro sem perceber.

Eles estavam vivendo a mesma vida duas vezes.

Em 1977, Jim Lewis — que sempre soubera que tinha um irmão gémeo — decidiu procurá-lo. Tinha 37 anos e estava curioso.

Ele entrou em contato com o tribunal de Ohio que havia tratado da sua adoção e, com ajuda, conseguiu um número de telefone.

Em 5 de fevereiro de 1979, ele ligou.

Jim Springer atendeu.

Após uma conversa cautelosa, tentando processar o que estava acontecendo, Lewis perguntou:

“Você é meu irmão?”

Springer respondeu:

“Sou.”

Quatro dias depois, em 9 de fevereiro de 1979, eles encontraram-se pessoalmente pela primeira vez, após 39 anos.

Quando se viram, algo pareceu encaixar-se imediatamente. Springer diria depois que sempre sentiu um vazio até aquele momento.

Ao começarem a comparar as suas vidas, o espanto só aumentava:

“Tu também casaste com uma Linda?”

“Tu também te divorciaste e depois casaste com uma Betty?”

“O teu filho também se chama James Allan?”

“Tu também passas férias na Flórida? Em qual praia?”

Cada resposta confirmava outra coincidência impossível.

A história espalhou-se rapidamente pelo país. Os gémeos apareceram em programas de televisão e revistas, tornando-se um fenómeno nacional.

O caso chamou a atenção do psicólogo Thomas Bouchard, da Universidade de Minnesota, que estudava o impacto da genética e do ambiente na formação da personalidade.

Os gémeos Jim eram um exemplo perfeito: DNA idêntico, ambientes completamente diferentes.

Em maio de 1979, Bouchard convidou os dois para uma série extensa de testes: avaliações psicológicas, exames médicos, testes de personalidade e análises de ondas cerebrais.

Os resultados foram impressionantes:

• As suas pontuações em testes eram quase idênticas.

• Quando pediram que desenhassem algo sem orientação, ambos fizeram o mesmo desenho.

• Descreviam as suas enxaquecas com palavras praticamente iguais.

• As suas ondas cerebrais apresentavam padrões muito semelhantes.

O caso deu origem ao famoso Estudo dos Gémeos Criados Separadamente, conduzido entre 1979 e 1999, com 137 pares de gémeos idênticos.

Os resultados mostraram que a genética tem uma influência muito maior sobre a personalidade, a inteligência e o comportamento do que se imaginava.

Mesmo assim, pequenas diferenças existiam. Um dos Jim divorciou-se novamente e casou-se outra vez; o outro permaneceu com a sua segunda esposa.

Isso mostrava que o ambiente também tem o seu papel, mas a semelhança impressionante entre os dois reforçava o poder da herança genética.

Após o reencontro, os irmãos permaneceram próximos, visitando-se regularmente.

Eles não sentiam que se haviam tornado mais parecidos — sempre foram. Apenas não o sabiam.

A história dos gémeos Jim levantou questões profundas:

Quanto do que somos já está escrito em nosso DNA antes mesmo de nascermos?

As nossas escolhas são realmente livres, ou seguem tendências biológicas invisíveis?

Durante 39 anos, eles acreditaram estar vivendo vidas únicas e independentes.

Então encontraram-se e descobriram que os seus caminhos haviam sido quase perfeitamente sincronizados.

Separados ao nascer. Criados por famílias diferentes. Sem saber da existência um do outro.

E, ainda assim, ambos se casaram com Lindas e Bettys, deram aos filhos o mesmo nome, passaram férias na mesma praia e conduziram os mesmos carros.

Trinta e nove anos de vidas paralelas.

Um único DNA compartilhado.

E uma história que até hoje faz cientistas perguntarem o quanto realmente escolhemos quem nos tornamos. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

GEORGE EASTMAN

George Eastman nasceu a 12 de julho de 1854, em Waterville, e cresceu num ambiente onde a disciplina e a curiosidade eram quase sinónimos. Autodidata, empreendedor, inventor, foi ele quem percebeu que a fotografia não tinha de ser um ritual técnico reservado a especialistas – podia ser um gesto simples, íntimo, doméstico. Fundou a Eastman Kodak Company e dedicou-se a transformar a complexidade química da imagem num objeto acessível. 

A 14 de setembro de 1888, registou a patente da marca Kodak e lançou a primeira câmara portátil com rolo — um cubo de possibilidades que cabia na mão e que prometia: You press the button, we do the rest. Nesse dia, o mundo descobriu que a memória podia ser capturada sem esforço, como quem apanha um raio de sol.

Em 14 de setembro de 1888, Rochester acordou com o seu ritmo habitual — o cheiro a madeira, o rumor das fábricas, a pressa dos que acreditam que o futuro se constrói com engenho — sem imaginar que, naquela manhã, um homem estava a libertar a fotografia da sua própria rigidez. Eastman não era um visionário teatral – era um artesão da simplicidade. Trabalhou anos para reduzir o peso, o custo e o mistério da imagem, como quem lima uma ideia até ela caber no bolso de qualquer pessoa.

Quando a Kodak foi apresentada ao público, não houve espanto ruidoso — houve um silêncio atento, quase reverente. A máquina não prometia arte – prometia acesso. E, nesse gesto, inaugurou uma era em que a memória deixou de ser privilégio e passou a ser hábito. As famílias começaram a guardar domingos, viagens, aniversários. Os desconhecidos tornaram-se rostos. Os instantes tornaram-se história.

Nos anos seguintes, Eastman expandiu a empresa, criou programas sociais para os trabalhadores, apoiou escolas, hospitais, universidades. Era um líder que acreditava que o sucesso empresarial só faz sentido quando devolve algo ao mundo. Talvez seja isso que faz de Eastman um grande líder: ter dado ao mundo uma forma de se lembrar de si próprio. Não deixou apenas uma empresa — deixou um gesto. O gesto de fixar a luz antes que ela desapareça. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

SANDY DAHL

“Se não aprendermos mais nada com esta tragédia, aprendemos que a vida é curta e não há tempo para o ódio.”

No dia 11 de setembro de 2001, há exatamente vinte e cinco anos, o mundo assistiu ao ataque que redefiniu o século: as Torres Gémeas caíram, Nova Iorque ficou suspensa no silêncio e a ideia de segurança global mudou para sempre. 

Hoje, olhando para as guerras que continuam ativas — da Europa ao Médio Oriente — é difícil não sentir que pouco aprendemos com aquela manhã. A violência repete-se, a desconfiança cresce, e a humanidade parece continuar presa ao mesmo ciclo de medo e resposta.

É por isso que as palavras de Sandy Dahl, viúva de Jason Dahl, piloto do voo United 93 — o avião que se despenhou, sem atingir o alvo, porque os passageiros decidiram resistir — permanecem tão necessárias. Ditas no contexto íntimo de uma perda irreparável, não procuram explicar o mundo, nem oferecer consolo fácil. São apenas verdade humana, nascida da dor e da lucidez de quem viveu o acontecimento por dentro:

“Se não aprendermos mais nada com esta tragédia, aprendemos que a vida é curta e não há tempo para o ódio.”

Sandy Dahl não fala de política, nem de geoestratégia. Fala daquilo que sobra quando tudo o resto desaba: o tempo que temos, e o que fazemos com ele. No meio de um mundo que parece insistir em repetir os mesmos erros, a sua frase devolve-nos uma clareza simples — a vida é breve demais para ser entregue ao ódio, e longa o suficiente para podermos escolher um futuro melhor. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O PRIMEIRO BUG

Toda a gente usa hoje a palavra bug para falar de erros informáticos. É quase um reflexo: quando algo falha, dizemos que “tem um bug”. O que quase ninguém sabe é que o primeiro bug da história… era mesmo um bicho. Literalmente. 

A 9 de setembro de 1947, no laboratório onde funcionava o computador Harvard Mark II, os engenheiros encontraram uma falha num dos relés. Nada de novo — máquinas falham. Mas quando abriram o painel, descobriram o culpado: uma traça morta, presa entre os contactos.

O episódio tornou‑se lendário não pelo erro, mas pela coincidência linguística. Já se chamava “bug” a problemas mecânicos desde o século XIX, mas nunca ninguém tinha encontrado um bug tão… entomológico. A equipa colou a traça ao registo técnico com fita adesiva e anotou: “First actual case of bug being found.” O humor involuntário estava lá: pela primeira vez, um bug era mesmo um bug.

Há aqui uma ironia irresistível. Hoje, quando um programa falha, ninguém imagina um inseto escondido dentro do código. Falamos de bugs digitais, invisíveis, abstratos — mas o primeiro foi tão físico quanto possível. Um lembrete de que, antes de a informática ser uma ciência, era uma oficina, cheia de cabos, relés, ruído, pó… e, pelos vistos, traças aventureiras.

E talvez haja outra ironia mais subtil: desde esse dia, passámos a culpar “bugs” por tudo o que corre mal nos computadores. É uma palavra conveniente, quase simpática, que nos poupa a admitir que, muitas vezes, o erro não está na máquina — está em quem a programa. O primeiro bug era um bicho. Os seguintes, quase sempre, somos nós.

O primeiro bug foi uma traça. Os outros são histórias para outro dia.

E esta hem!

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

GOSTO DE VER NOVELAS, MAS…



No passado via apenas uma novela de cada vez. Era um ritual doméstico, quase disciplinado, como quem segue uma rotina que não exige explicações. Uma história, um elenco, um conflito central, bastava‑me. Contudo, com o aumento da produção nacional nos principais canais televisivos portugueses, dei por mim a seguir duas ou três simultaneamente, como se tivesse descoberto um novo apetite, não físico, mas narrativo, aquele que se instala quando percebemos que as histórias têm um poder aditivo subtil, quase químico, que se infiltra no quotidiano sem pedir licença.

A capacidade viciante das histórias não nasce apenas da curiosidade, mas da forma como se encadeiam na nossa cabeça. Uma novela não termina quando o episódio acaba – continua a trabalhar dentro de nós, como se cada personagem ocupasse um pequeno compartimento mental. Quando seguimos várias ao mesmo tempo, esses compartimentos começam a comunicar entre si, criando uma espécie de ruído emocional que nos acompanha ao longo do dia. É quase uma polifonia doméstica: enquanto cozinhamos, lembramo‑nos da discussão do casal da novela das nove; enquanto conduzimos, pensamos na reviravolta da outra que vem a seguir; enquanto tentamos dormir, surge aquela pergunta que não devia surgir — “será que ela vai descobrir a verdade?”

Mas o mais curioso é que este fenómeno não acontece da mesma forma com as séries. As séries são organizadas como arquiteturas narrativas: temporadas curtas, episódios pensados ao milímetro, arcos que se fecham com precisão quase cirúrgica. São histórias que se consomem com a sensação de que alguém planeou tudo para que o espectador não se perca. Já as novelas são organismos vivos, que crescem, se estendem, se adaptam ao público, às audiências, às circunstâncias. Uma série pode ter três temporadas; uma novela mais de uma centena de episódios. Uma série é uma casa bem desenhada; uma novela é uma cidade em expansão.

E é precisamente essa expansão que alimenta a adição. Porque quando uma história dura meses, às vezes mais de um ano, cria uma relação de convivência. Não é apenas acompanhar personagens; é viver com elas. A novela atravessa estações, feriados, mudanças de humor, semanas boas e más. E quando seguimos várias ao mesmo tempo, essa convivência multiplica‑se, como se tivéssemos várias famílias ficcionais a ocupar o mesmo espaço na nossa cabeça.

Até que chega um momento em que percebo que não estou apenas a seguir histórias — estou a ser seguido por elas. Elas perseguem‑me, encostam‑se ao meu dia, pedem atenção, exigem continuidade. E eu cedo, claro. Porque há algo de irresistível na forma como as novelas se prolongam, como se recusassem a deixar‑nos ir. Uma série termina e ficamos livres. Uma novela termina e ficamos órfãos.

Gosto de ver novelas, mas… há um ponto em que o prazer da história começa a disputar espaço com uma inquietação mais funda. Porque, ao seguir duas ou três ao mesmo tempo, percebo que não estou apenas a consumir ficção: estou também a absorver um conjunto de mensagens que, mesmo sem intenção explícita, moldam comportamentos, normalizam hábitos, insinuam ideias. E é aqui que entra a tal responsabilidade social que raramente é discutida — aquela que se esconde nos detalhes, nos gestos repetidos, nos objetos que aparecem em cena como se fossem parte natural da paisagem.

Um exemplo claro é a novela A Madrasta, da TVI, que sigo diariamente. A história, por si só, já é um laboratório de tensões: uma família corroída pela intriga, pela falsidade, rodeada de amigos interesseiros que orbitam em torno do poder e do dinheiro. Até aqui, nada de novo — as novelas sempre gostaram de famílias disfuncionais, de segredos mal guardados, de alianças que duram o tempo de um copo pousado na mesa. O problema nesta novela é precisamente esse copo. Porque há sempre um, em quase todas as cenas, divisões e circunstâncias.

Na sala, há bebida. Na biblioteca, há bebida. Nos gabinetes da empresa financeira, há bebida. E não é apenas presença decorativa: é consumo ativo, constante, quase ritualístico.

Os personagens afogam-se em álcool com a mesma naturalidade com que respiram. Não há reflexão, não há consequência, não há sequer um momento de desconforto. A bebida surge como um bálsamo imediato, um calmante emocional, uma espécie de terapia líquida que atenua tudo: discussões, frustrações, revelações, silêncios.

Esta normalização do álcool é uma mensagem subliminar poderosa. Mesmo indo para o ar num horário fora das restrições legais impostas para a publicidade, a novela cria um imaginário onde beber é tão natural como conversar. Onde o álcool é sempre acessível, sempre presente, sempre útil. Onde a ideia de que “um copo ajuda” se infiltra sem resistência.

Gosto de ver novelas, mas… há um ponto em que a ficção deixa de ser apenas entretenimento e passa a ser também influência. E, por isso mesmo, as produtoras têm de reconhecer que cada copo em cena, cada gesto repetido, cada normalização silenciosa carrega uma responsabilidade social real. Não se trata de censura, mas de consciência: quem constrói histórias constrói também referências. E, num país onde tantos procuram nas novelas um espelho do quotidiano, é urgente que esse espelho não distorça aquilo que devia proteger. As narrativas podem ser aditivas, sim, mas que nunca o sejam à custa de valores que merecem ser cuidados.

 

“A responsabilidade é o preço da liberdade.”

Elbert Hubbard (escritor, editor, filósofo e empreendedor cultural norte‑americano) 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

BERT HELLINGER

A Vida

A vida dececiona-o para parar de viver com ilusões e ver a realidade.

A vida destrói todo o supérfluo até que reste somente o importante.

A vida não o deixa em paz, para que deixe de se culpar e aceite tudo como “É”.

A vida vai retirar o que tem, até que pare de reclamar e comece a agradecer.

A vida envia pessoas conflitantes para o curar, para que deixe de olhar para fora e comece a refletir o que é por dentro.

A vida permite que caia de novo, e de novo, até que decida aprender a lição.

A vida tira-o do caminho e apresenta-lhe encruzilhadas, até que pare de querer controlar tudo e flua como um rio.

A vida coloca os seus inimigos na estrada, até que pare de “reagir”.

A vida assusta-o e assustará quantas vezes for necessário, até que perca o medo e recupere a sua fé.

A vida tira o seu amor verdadeiro, ele não concede ou permite, até que pare de tentar comprá-lo.

A vida distancia-o das pessoas que ama, até entender que não somos este corpo, mas a alma que ele contém.

A vida ri de si muitas e muitas vezes, até parar de levar tudo tão a sério e rir de si mesmo.

A vida quebra-o em tantas partes quantas forem necessárias para a luz penetrar em si.

A vida confronta-o com rebeldes, até que pare de tentar controlar.

A vida repete a mesma mensagem, se for preciso com gritos e tapas, até que finalmente a ouça.

A vida envia raios e tempestades, para o acordar.

A vida humilha-o e por vezes derrota-o de novo, e de novo, até que decida deixar o seu ego morrer.

A vida nega-lhe bens e grandeza até que pare de querer bens e grandeza e comece a servir.

A vida corta as suas asas e poda as suas raízes, até que não precise de asas nem raízes, mas apenas desapareça nas formas e seu ser voe.

A vida nega-lhe milagres, até que entenda que tudo é um milagre.

A vida encurta o seu tempo, para se apressar em aprender a viver.

A vida ridiculariza-o até que se torne em nada, em ninguém, para então tornar-se tudo.

A vida não lhe dá o que quer, mas aquilo que precisa para evoluir.

A vida machuca-o e atormenta-o até que solte os seus caprichos e birras e aprecie a respiração.

A vida esconde-lhe tesouros até que aprenda a sair para a vida e a buscá-los.

A vida nega-lhe Deus, até o ver em todos e em tudo.

A vida acorda-o, poda-o, quebra-o, desaponta-o… Mas creia, isso é para que o seu melhor se manifeste… até que só o AMOR permaneça em si.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A REVOLTA DE SHAYS

Há datas que funcionam como avisos. 28 de agosto de 1786 é uma delas. Nesse dia, em Massachusetts, um grupo de agricultores endividados, veteranos da Guerra da Independência, homens que tinham lutado pela liberdade e agora eram esmagados por impostos e tribunais, decidiu que já não podia continuar a viver como antes. Liderados por Daniel Shays, levantaram-se contra um sistema que parecia ter esquecido quem o tinha sustentado.

A Revolta de Shays não foi um capricho: foi um grito. Um grito contra elites que governavam de longe, contra políticas que ignoravam a vida real, contra uma democracia jovem que já mostrava sinais de fragilidade. A mensagem era simples: quando o poder deixa de ouvir, o povo levanta-se.

E é impossível não olhar para este episódio sem pensar na América de hoje. Um país que continua a debater-se com desigualdades profundas, tensões sociais, polarização extrema e uma liderança que, muitas vezes, parece governar olhando apenas para o próprio umbigo. Há quem diga que os Estados Unidos vivem um momento em que a democracia parece cada vez menos uma casa sólida, e mais uma estrutura que range a cada ideia louca do seu líder.

A Revolta de Shays lembra que a democracia não é garantida. Que não basta proclamar liberdade — é preciso praticá-la. Que o poder que se fecha sobre si próprio acaba sempre por perder o chão. E que, quando as instituições se afastam demasiado das pessoas, as pessoas acabam por bater à porta, às vezes de forma violenta.

No fundo, 28 de agosto de 1786 não foi apenas o dia em que um grupo de agricultores se revoltou. É o dia em que a América aprendeu — e talvez precise de reaprender — que a democracia só existe enquanto houver quem a exija.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A MAIS BELA PROFISSÃO!

Há profissões extraordinárias, mas palhaço em contexto hospitalar é a mais bela…

Já o vivenciei várias vezes, mas recentemente tive o privilégio e a honra de viver um momento único, soberbo, mágico.

“Na cama 14 está o senhor Artur. Penso que não vale a pena visitarem… É um doente com demência em fase terminal, paliativo, não comunica ou, quando o faz, não o entendemos… A família esteve lá há pouco para se despedir dele! É uma situação muito complexa… não recomendo que visitem!” — disse a enfermeira.

“Podemos ir? Podemos tentar, enfermeira?” — dissemos nós. E fomos…

Na primeira tentativa, o senhor Artur estava a dormir…

Na segunda, estava uma enfermeira a falar com ele…

À terceira foi de vez… Parámos à porta e ficámos à espera de um sinal…

“Podemos entrar?” — perguntámos. Os sinais não eram claros, mas entrámos.

“Boa tarde, senhor Artur!” — disse a Marilua.

O olhar era de leitura complexa e os sons que saíam da boca, seca e frágil, eram impercetíveis…

 “Senhor Artur, pediram-nos para vir cá cantar-lhe uma música…” — disse o Risotto. Cantámos o Malhão, Malhão!

E o senhor Artur — pele branca, magro, movimentos lentos — transformou-se! Começou primeiro a bater palmas, depois começou a dançar… foi lindo!

Começou a dançar com braços, mãos e ombros, num movimento característico de quem dança no rancho… extraordinário!!

Olhei para a Marília e os olhos dela brilhavam de felicidade… Os dois olhámos um para o outro, a cantar, mas com um ar de pura felicidade, orgulhosos por poder estar a assistir a um momento mágico, extraordinário, belo, encantador, memorável…

Ao sair do quarto, demos um abraço; os nossos olhos falavam pelo coração…

No caminho para casa, só pensava: como “passo isto para palavras”? Gostava de ter a capacidade de “misturar as letras” e “juntar as palavras” para que pudesse mostrar ao mundo que, em todos nós, em todos os momentos da vida, mesmo nas situações mais duras, mais ou menos complexas, podemos sempre tocar o outro, podemos trazer o outro para o aqui e para o agora. Que, até ao último respirar, devemos sempre cuidar, amar e dar o melhor do mundo ao outro…

Como diz o humanista francês Abbé Pierre: “temos dois olhos: um para ver as coisas belas do mundo e outro para as coisas feias!" Para mim, o mundo está cheio de coisas belas e de gente boa… depende de como olhámos!

Palhaços d' Opital (Jorge Rosado) 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

STEVE WOZNIAK

Steve Wozniak nasceu a 11 de agosto de 1950, em San José, filho de um engenheiro que lhe ensinou cedo que a eletrónica não era apenas técnica — era uma forma de brincar com o mundo. Cresceu entre circuitos, rádios desmontados e aquela curiosidade quase infantil que nunca o abandonou. Ao lado de Steve Jobs, fundou a Apple em 1976, mas foi Wozniak quem deu corpo ao sonho: o Apple I, um computador simples, elegante, acessível, que parecia mais uma promessa do que um produto. E foi a 14 de agosto de 1976, há precisamente 50 anos, que Wozniak concluiu o projeto final da máquina, transformando uma ideia de garagem numa semente de futuro.

Nesse dia, a Califórnia acordou com o seu sol habitual — o brilho nos carros, o cheiro a asfalto quente, a pressa dos que acreditam que o futuro está sempre a chegar — sem imaginar que, naquela manhã, um homem terminava um circuito capaz de alterar a relação entre pessoas e tecnologia. Wozniak não era um visionário performativo; era um artesão da simplicidade. Trabalhou sozinho, noite após noite, como quem afina um instrumento que ainda não sabe que vai mudar a música do mundo.

Quando o Apple I ganhou forma definitiva, não houve fogos de artifício. Houve apenas a serenidade de um engenheiro que olha para o seu trabalho e reconhece nele uma espécie de inevitabilidade. A máquina não era poderosa; era possível. E, nesse gesto, inaugurou uma era em que os computadores deixaram de ser monstros industriais e passaram a ser companheiros domésticos, extensões da curiosidade humana.

Nos anos seguintes, a Apple cresceu, multiplicou-se, reinventou-se. Steve Jobs tornou-se o rosto público, o narrador da revolução. Mas Wozniak permaneceu como o seu coração técnico — o homem que acreditava que a tecnologia devia ser generosa, clara, acessível. E foi naquele 14 de agosto que o mundo, sem o saber, recebeu o primeiro sopro dessa generosidade.

Talvez seja isso que faz de Wozniak um grande líder: ter mostrado que a verdadeira grandeza não se mede em poder, mas em legado. E que há homens que, um dia quando partirem, continuarão a mover o mundo, como uma máquina que nunca se apaga totalmente.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

THOMAS MANN


“A tolerância torna possível a convivência; a verdade torna possível o respeito.”

Thomas Mann, romancista alemão nascido em 1875 e falecido a 12 de agosto de 1955, foi uma das vozes morais mais influentes da literatura europeia do século XX. A sua obra, marcada por uma atenção rigorosa às tensões entre indivíduo e sociedade, sempre procurou compreender como se constrói uma vida ética num mundo em permanente conflito. 

A frase “A tolerância torna possível a convivência; a verdade torna possível o respeito” condensa essa visão: a convivência exige abertura, mas o respeito exige coragem — a coragem de dizer, ouvir e sustentar a verdade.

É precisamente essa dupla exigência que ressoa no 12 de agosto, dia em que Mann é lembrado e em que também se celebra o Dia Internacional da Juventude. A coincidência não é apenas cronológica: é simbólica. A juventude, enquanto força que questiona, renova e desafia, precisa tanto da tolerância que permite o encontro como da verdade que funda relações autênticas. Sem tolerância, não há espaço para crescer; sem verdade, não há estrutura para permanecer.

Lida hoje, a frase de Mann funciona como um lembrete discreto de maturidade cívica: tolerar não é relativizar, é acolher; dizer a verdade não é ferir, é clarificar. E quando estes dois gestos se encontram, a convivência deixa de ser apenas possível — torna-se digna. É essa dignidade que o 12 de agosto procura celebrar: a capacidade de construir futuro com respeito, lucidez e coragem.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O DIA EM QUE O LOUVRE ABRIU PORTAS!

Toda a gente sabe que o Louvre é hoje o museu mais visitado do mundo, com filas intermináveis, multidões diante da Mona Lisa e turistas a disputar centímetros de chão para uma fotografia. O que quase ninguém sabe é que, no dia em que abriu portas ao público, quase ninguém apareceu. 

A 10 de agosto de 1793, Paris ganhava o seu grande “Museu Central das Artes da República”, mas a cidade tinha coisas bem mais urgentes em que pensar.

O contexto ajuda a perceber o silêncio. Estávamos em plena Revolução Francesa, num dos períodos mais turbulentos da história do país. A monarquia tinha caído, a guilhotina trabalhava em horário alargado, a suspeita era uma forma de respiração. No meio deste cenário, o antigo palácio real, símbolo de luxo e poder, transformava‑se em museu público, aberto a todos. Um gesto profundamente revolucionário: a arte deixava de ser privilégio da corte e passava a ser património de povo.

Só que o povo, nesse dia, não estava exatamente disponível para ir ver quadros. Entre o preço do pão, o medo das denúncias, as prisões e as execuções, a visita ao Louvre não era prioridade. Os salões, preparados para receber multidões, acolheram apenas alguns curiosos, funcionários e poucos visitantes dispersos. O grande museu da República nasceu, na prática, quase em silêncio.

Há aqui uma ironia deliciosa: o lugar que hoje simboliza a democratização da arte começou a sua vida pública sem público. O gesto político era enorme, mas o impacto imediato foi mínimo. A História, como tantas vezes acontece, só se apercebeu da importância daquele dia muito depois. O Louvre foi crescendo, mudando, acumulando obras, tornando‑se ícone mundial, mas a sua estreia foi tímida, quase invisível.

Talvez haja nisto uma pequena lição contemporânea: nem todos os momentos decisivos começam com aplausos, nem todas as mudanças estruturais se anunciam com multidões. Às vezes, o futuro abre portas discretamente, num edifício quase vazio, enquanto a cidade olha para outro lado.

O Louvre abriu portas. O mundo demorou a entrar.

E esta hem! 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

MERYL STREEP

Não deixar de ser quem somos…

Se eu tiver de explicar o meu valor, se tiver de convencer alguém a me amar, então esse não é o meu lugar.

A vida é muito curta para desperdiçar energia com o que não é mútuo.

Não tenho medo de envelhecer.

Tenho medo de deixar de ser eu mesma para agradar aos outros.

Neste ponto, escolho a minha paz acima de qualquer coisa.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

NASCEU A NASA

Há datas que não pertencem apenas à história política, pertencem à história da imaginação humana. 29 de julho de 1958 é uma delas. Nesse dia, o presidente Dwight D. Eisenhower assinou a lei que criava a NASA, a agência espacial que viria a transformar o modo como pensamos o universo — e o modo como pensamos nós próprios.

O mundo vivia a tensão da Guerra Fria, e o espaço tornara‑se o novo território simbólico onde se disputava poder, tecnologia e futuro. 

A União Soviética tinha surpreendido o planeta com o lançamento do Sputnik em 1957, e os Estados Unidos perceberam que não bastava reagir. Era preciso reinventar‑se. A NASA nasceu desse impulso, não apenas como resposta estratégica, mas como afirmação de que o conhecimento, quando perseguido com rigor, pode abrir portas que antes nem sabíamos existir.

A criação da agência marcou o início de uma era em que o impossível começou a ser tratado como hipótese de trabalho. Da Lua às sondas interplanetárias, dos telescópios que veem para lá do tempo às missões que estudam a fragilidade da Terra, tudo começou naquele gesto administrativo que, na verdade, era um gesto de visão.

No fundo, 29 de julho de 1958 não é apenas o dia em que uma instituição foi fundada. É o dia em que a humanidade decidiu que o céu não era limite — era convite. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

CAROLINE KENNEDY

Quando John F. Kennedy foi morto em Dallas em 22 de novembro de 1963, Caroline Kennedy estava a apenas cinco dias de completar seis anos. Pouco depois deixou a Casa Branca com sua mãe, Jacqueline, e seu irmão John, saindo do único lar que tinha conhecido até então.

Desde muito pequena, a sua vida foi marcada pelo luto e pelo olhar atento do mundo.

Em 1968, o assassinato de Robert Kennedy voltou a atingir a família. Nesse mesmo ano, Jacqueline casou-se com Aristóteles Onassis, procurando para os seus filhos uma vida com mais segurança e mais distância do cerco público.

Mas Caroline não transformou esse nome em abrigo passivo.

Estudou em Radcliffe e na Faculdade de Direito de Columbia. Ao longo dos anos, trabalhou para preservar a memória do seu pai desde a fundação da Biblioteca Kennedy e foi encontrando uma forma própria de serviço público, mais silenciosa e menos teatral do que a de outros membros da sua família.

Isso ficou claro depois do 11 de setembro.

Em 2002, Caroline entregou um prémio especial Profile in Courage aos servidores públicos que atuaram durante os atentados. Lá disse que, naqueles momentos terríveis, milhares de homens e mulheres comuns colocaram as suas vidas em risco para que outros pudessem ser salvos. Ela não falou de si mesma. Ela não falou das perdas que tinham passado pela sua vida. Falou de coragem, serviço e dever.

Mais tarde representou os EUA no exterior.

Foi embaixadora no Japão de 2013 a 2017, a primeira mulher a ocupar esse cargo, e depois embaixadora na Austrália entre 2022 e 2024.

Caroline Kennedy não construiu a sua vida a partir do show do sobrenome.

Construiu-a a partir da contenção, disciplina e uma ideia muito clara: que o legado não é herdado por completo, mas sim sustenta-se ato por ato. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

ALEXANDER GRAHAM BELL

Alexander Graham Bell nasceu a 3 de março de 1847, em Edimburgo, numa família onde a voz era quase uma herança: o pai estudava fonética, a mãe era surda, e Bell cresceu entre sons, silêncios e a obsessão de compreender como se constrói uma palavra. Emigrado para os Estados Unidos, dedicou-se ao ensino de pessoas surdas e à investigação da transmissão da voz, até que, em 1876, patenteou o telefone — um objeto tão improvável que muitos o consideraram um capricho científico. Mas foi a 22 de julho de 1879 que se deu o momento decisivo: Bell apresentou publicamente o seu sistema telefónico numa demonstração que deixou jornalistas, investidores e curiosos atónitos. 

A partir desse dia, o mundo percebeu que a distância tinha acabado de perder o seu poder.

Há datas que não pertencem apenas ao calendário. Pertencem à transformação íntima das sociedades. 22 de julho de 1879 foi uma dessas datas. Boston acordou com o seu ritmo habitual — o rumor das carruagens, o cheiro a madeira e carvão, a pressa dos comerciantes — sem imaginar que, naquela manhã, um homem iria mostrar que duas pessoas separadas por quilómetros podiam conversar como se estivessem lado a lado. Bell não era um orador carismático. Era um artesão da curiosidade. Subiu ao palco com a serenidade de quem sabe que a verdadeira revolução não precisa de estrondo, apenas de clareza.

Quando a voz atravessou o fio e chegou ao outro lado, houve um silêncio estranho na sala — não o silêncio da dúvida, mas o silêncio raro de quem percebe que o mundo acabou de mudar. Bell não prometeu nada, apenas mostrou. E, nesse gesto simples, inaugurou uma era em que a distância deixou de ser destino e passou a ser apenas um detalhe técnico.

Nos anos seguintes, o telefone espalhou-se como uma nova forma de respiração. As cidades tornaram-se mais próximas, os negócios mais rápidos, as relações mais contínuas. Bell continuou a trabalhar, inquieto, movido por aquela energia dos inventores que nunca se satisfazem com o que já existe. Mas foi naquele 22 de julho que o mundo o ouviu verdadeiramente, e que ele, por fim, ouviu o mundo.

Talvez seja isso que faz de Bell um grande líder: ter mostrado que a verdadeira grandeza não se mede em poder, mas em legado. E que há homens que, mesmo depois de partirem, continuam a mover o mundo, como uma máquina que nunca se apaga totalmente. 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

CÍCERO

“Dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade.”

Marco Túlio Cícero, orador, filósofo e estadista romano, dedicou grande parte da sua vida a pensar a ética das relações humanas e a forma como a amizade sustenta a vida pública e privada. A frase “Dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade” condensa essa visão clássica: a amizade como vínculo que não exige posse, não reclama domínio, não se alimenta de interesse — apenas de presença, lealdade e reconhecimento mútuo.

É precisamente essa ideia que ressoa no 20 de julho, dia em que se celebra o Dia do Amigo. A escolha da data tem uma origem curiosa e profundamente simbólica: foi inspirada pela chegada do homem à Lua, em 20 de julho de 1969. A frase de Armstrong — “um pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade” — tornou-se um símbolo de união global, de conquista partilhada, de algo que só foi possível porque muitos trabalharam juntos. A amizade, nesse contexto, não é apenas afeto: é cooperação, confiança, construção comum.

Lida hoje, a frase de Cícero ganha uma nova luz. A amizade que ele descreve — pura, desinteressada, não egoísta — é a mesma que permite que projetos impossíveis se tornem realidade, que comunidades se fortaleçam, que o mundo avance. O 20 de julho recorda-nos que nenhum passo é verdadeiramente solitário: há sempre alguém que nos acompanha, que nos sustém, que nos ajuda a chegar mais longe. E talvez seja por isso que esta frase continua tão atual — porque a amizade, como a Lua, ilumina mesmo quando não a vemos diretamente. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

AVALIAR O QUE JÁ NÃO IMPORTA

Há um debate aceso em Portugal sobre a avaliação no ensino. Fala‑se de exames, de médias, de critérios, de grelhas, de percentagens. Discute‑se tudo, menos o essencial. Porque, no fundo, continuamos a avaliar como se o conhecimento fosse um bem raro, guardado em cofres de alta segurança, transmitido de mestre para aluno, medido em testes que verificam o que ficou retido. A questão é simples: o mundo mudou, mas os sistemas de ensino não acompanharam.

Hoje, qualquer aluno tem acesso a mais informação no bolso do que um professor universitário tinha há quarenta anos pesquisando em intermináveis bibliotecas. O conhecimento democratizou‑se, multiplicou‑se, tornou‑se instantâneo. Mas o sistema de ensino insiste em medir a capacidade de o decorar. É como avaliar um cozinheiro pela quantidade de receitas que sabe de cor, em vez de ver se consegue preparar um prato apetitoso e equilibrado. A escola continua a premiar quem memoriza, não quem procura, seleciona, interpreta e aplica.

E aqui está a ironia: nunca foi tão fácil aceder ao conhecimento, e nunca foi tão difícil ensinar a usá‑lo bem. Porque o desafio já não é saber “o quê”, mas saber “como”. Como distinguir o rigor da opinião. Como validar fontes. Como resolver problemas reais com informação disponível. Como transformar dados em decisões. O ensino devia ser o laboratório onde se aprende a navegar neste oceano. Em vez disso, muitas vezes é apenas o lugar onde se verifica se o aluno decorou o mapa.

O mais curioso é que todos reconhecem isto — professores, alunos, pais, especialistas — mas o sistema continua preso a uma lógica industrial: produção, transmissão e verificação de conteúdos. Como se estivéssemos a formar máquinas de retenção, quando devíamos estar a formar mentes capazes de pensar com o que sabem e com o que ainda não sabem.

A mudança de paradigma é profunda, urgente e inevitável: deixar de avaliar a memória e começar a avaliar a inteligência aplicada. Menos “o que sabes”, mais “o que fazes com o que sabes”. Menos retenção, mais ação. Menos passado, mais futuro.

E esta hem! 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

DARWYN FURLAN

A mudança é voluntária!

Você pode oferecer apoio, escuta e presença. Pode estender a mão, aconselhar, acolher, orientar e até caminhar ao lado de alguém durante momentos difíceis. Mas existe um limite que muitas vezes custa caro para ser compreendido: ninguém muda apenas porque nós desejamos.

Na prática clínica, educacional e profissional, vejo esse movimento acontecer com frequência. Pais que tentam convencer filhos a assumirem responsabilidades. 

Parceiros que acreditam que amor suficiente será capaz de transformar comportamentos. Gestores que investem tempo e energia tentando desenvolver profissionais que ainda não reconhecem a necessidade de crescimento. Amigos que carregam problemas que não lhes pertencem.

Existe uma diferença importante entre ajudar alguém e assumir a responsabilidade pela mudança dessa pessoa!!!

A Psicanálise ajuda-nos a compreender que toda transformação verdadeira depende de um movimento interno. Nenhuma orientação produz efeito duradouro quando não encontra, do outro lado, algum desejo de mudança. É por isso que muitas vezes o sofrimento se prolonga quando tentamos ocupar um lugar que não nos pertence.

A Neurociência também oferece uma contribuição interessante. O cérebro humano tende a resistir a mudanças que ameaçam hábitos, crenças e padrões já estabelecidos. Mesmo quando uma transformação seria benéfica, ela frequentemente gera desconforto, insegurança e medo. Por isso, mudar não depende apenas de informação ou incentivo, depende de disposição.

Muitas pessoas acabam emocionalmente exaustas porque confundem cuidado com controlo. Acreditam que precisam encontrar as palavras certas, insistir mais um pouco ou sacrificar-se mais um pouco para que o outro finalmente mude. Mas apoio não é controlo, estar presente não significa conduzir a vida de alguém e cuidar não significa assumir responsabilidades que pertencem ao outro.

Existe maturidade emocional quando compreendemos que podemos oferecer suporte sem carregar o peso da decisão alheia. Podemos abrir caminhos, mas não podemos percorrê-los por outra pessoa.

Nem toda dor pode ser evitada, nem toda mudança pode ser acelerada e nem todo resgate depende de quem estende a mão. Às vezes, uma das formas mais difíceis de amor é continuar disponível sem tentar controlar o processo do outro.

Porque toda transformação genuína exige algo que ninguém pode fornecer de fora para dentro: "a participação de quem precisa mudar."

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A ILUSÃO DE SERMOS INVENCÍVEIS

Obriguei-me a deixar passar vinte e quatro horas sobre a derrota de Portugal frente à Espanha, nos oitavos de final do Mundial de futebol de 2026 para escrever este texto. Todos sabemos, mas muitos se esquecem, até os políticos, que para decidirmos com alguma isenção necessitamos de um período de reflexão, como o que é imposto antes de qualquer ato eleitoral.

Todavia, criou-se a fantasia de que emitir uma opinião, ou formular uma crítica, não são ações que careçam de qualquer resolução ou meditação. “Penso, logo existo”, é uma máxima ultrapassada do filósofo René Descartes, com teias de aranha depositadas ao longo de quase quatrocentos anos, que só fazia sentido num mundo sem redes sociais. Hoje, para “existir” basta estar ativo nestes espaços virtuais, publicar regularmente conteúdos que agradem a quem os consome, sem necessidade de “pensar”, não vá esse exercício trair-nos e conquistarmos “haters” em vez de seguidores.

Desde o final do jogo de ontem da nossa Seleção que já pude ler e ouvir os mais disparatados comentários à nossa participação na competição. Desde a falta de coragem do selecionador até à vaidade de Cristiano Ronaldo, tudo já foi dito e escrito, por vezes de forma injuriosa. De facto, o Roberto Martinez devia ter tido a coragem de pôr o Ronaldo no banco, nem que jogasse apenas com dez, pois seria uma manifestação de liderança, deixar o líder de fora. E este mundo é para os corajosos, que mesmo sem pensar são capazes de feitos assinaláveis. Se assim tivesse feito, Roberto Martinez podia não ganhar o Mundial, mas sairia pela porta grande por ter tido a coragem de sentar o Cristiano no banco. Admirável!

Por outro lado, Ronaldo teria a lição que merece, depois de ter dado tão pouco a Portugal. Modric com quarenta anos pode jogar pela Croácia, ou Messi aos trinta e nove pela Argentina, mas nós, conquistadores do mundo, não podemos permitir que um velho de quarenta e um anos condicione o nosso sucesso.

Depois da felicidade da véspera que alguns portugueses sentiram ao ver o Brasil afastado da competição, esquecendo que foi Luiz Filipe Scolari o responsável pela primeira internacionalização de Cristiano Ronaldo na seleção A, de ter conduzido Portugal à primeira final de um campeonato europeu da modalidade, e ter devolvido o orgulho dos portugueses na bandeira nacional, só ainda não assisti a que alguém afirmasse que Roberto Martinez fez com que Portugal perdesse por ser espanhol!  

Compreendo que a frustração de não seguirmos em frente tolde o discernimento de algumas pessoas, e que um sentimento de tristeza nos invade enquanto portugueses. Contudo, devemos ter presente que ser melhor é um conceito relativo e dependente do estado do adversário que defrontamos. Que um jogo de futebol dura noventa minutos, ou cento e vinte minutos quando tem prolongamento, e que é nesse espaço de tempo que a vitória, ou a derrota, acontecem. Podemos fazer tudo bem, e nesse lapso de tempo o resultado desejado não surgir.

Orgulhemo-nos daquilo que fizemos. Sonhamos com uma final entre Cabo Verde e Portugal, transformando Vozinha num herói nacional, embora tenha quarenta anos. Enquanto torcíamos por esta seleção, que fala a nossa língua, tal como o Brasil, não exigíamos à equipa que fosse melhor que o antagonista, nem que o seu guarda-redes defendesse tudo, só queríamos que ganhassem para alimentar a quimera de os termos na final contra nós. Aí, se perdêssemos, seria como na final do Euro 2004 com a Grécia. Só teríamos de esperar uma dúzia de anos para sermos campeões mundiais, sem Ronaldo, e com um treinador português.

Perdoem-me pela minha imaginação me ter levado tão longe. Sei que muitos dirão que acabo de escrever um chorrilho de disparates, mas vaguearmos por caminhos improváveis faz-nos pensar e refletir sobre os factos que a realidade nos oferece, mas que nos inibe de os analisarmos com clareza.

Ao fim e ao cabo, tudo ou nada é futebol, e apenas resulta da ilusão de sermos invencíveis.

 

“A nossa maior ilusão é acreditar que não temos ilusões.”

Fernando Pessoa (poeta e escritor português)


segunda-feira, 6 de julho de 2026

O DIA EM QUE O ATLÂNTICO DEIXOU DE SER OBSTÁCULO

6 de julho de 1919, é uma data que assiná-la não é apenas um acontecimento, mas sim uma mudança de imaginação. Nesse dia, o dirigível britânico R‑34 aterrou em Nova Iorque, completando a primeira travessia aérea do Atlântico. Uma viagem de mais de 6.000 quilómetros, feita lentamente, suspensa entre nuvens, vento e incerteza.

O R‑34 partiu da Escócia dois dias antes, carregando uma tripulação que sabia que estava a entrar num território onde nada estava garantido. Não havia precedentes, nem mapas aéreos fiáveis, nem a certeza de que o enorme corpo de hidrogénio resistiria às tempestades do oceano. Havia apenas coragem, engenho e uma vontade teimosa de provar que o céu também podia ser caminho.

Quando o dirigível finalmente desceu sobre o campo de Roosevelt, Nova Iorque recebeu-o como se recebesse o futuro. A travessia não foi apenas um feito técnico. Foi uma declaração de possibilidade. Pela primeira vez, o Atlântico — esse espaço de separação, distância e demora — tinha sido vencido pelo ar. O mundo ficava, de repente, mais pequeno. E a ideia de viajar entre continentes em pouco tempo, deixava de ser sonho para se tornar promessa.

No fundo, 6 de julho de 1919 não é apenas o dia em que um dirigível chegou ao outro lado do oceano. É o dia em que a humanidade percebeu que o impossível podia, afinal, ser realizável. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

EFEITO ROSENHAN

Em 1972, o psicólogo David Rosenhan expôs uma das maiores fragilidades da psiquiatria: quando um rótulo é colocado, tudo passa a ser visto sob a lente do diagnóstico. A experiência mostrou que até comportamentos comuns, como ser educado ou escrever anotações, foram interpretados como sintomas de doença mental. O mais impressionante? Apenas os verdadeiros pacientes perceberam que havia algo errado, enquanto médicos e enfermeiros viam doença onde ela não existia.

A experiência assentava numa pergunta simples, mas ousada: será que os médicos realmente sabem diferenciar uma pessoa saudável de outra com doença mental?

Para testar isso, ele criou uma experiência radical. Recrutou 8 voluntários saudáveis: psicólogos, médicos, um pintor e uma dona de casa. Todos com um objetivo: fazerem passar-se por pacientes psiquiátricos.

Eles apresentaram-se em diferentes hospitais dos Estados Unidos com o mesmo sintoma: ouviam uma voz dizendo as palavras “vazio”, “oco” e “baque”. Apenas isso. Nada mais.

Foram todos internados com diagnósticos graves. Sete deles como esquizofrênicos. O oitavo, como psicótico maníaco-depressivo.

Assim que entraram, pararam de simular qualquer sintoma. Comportaram-se com total normalidade: conversavam, comiam, anotavam o que viam. Agiam como qualquer pessoa saudável.

E ainda assim… foram considerados doentes. Cada atitude foi reinterpretada como sintoma. Fazer anotações? “Escrita obsessiva.” Ser educado? “Necessidade patológica de agradar.”

O mais surpreendente? Apenas os verdadeiros pacientes desconfiavam. Trinta e cinco internados afirmaram: “Esses aí não são doentes. São pesquisadores infiltrados.”

Já os médicos e enfermeiros, mesmo diante do óbvio… Mantiveram os seus diagnósticos.

O tempo médio de internamento foi de 19 dias. Um deles ficou 52 dias internado. E só tiveram alta depois de aceitarem: “Sim, eu sou doente. Aceito o tratamento.”

Não bastava ser saudável. Era preciso declarar-se doente para conquistar a liberdade.

Durante o internamento foram prescritas mais de 2100 pílulas de antipsicóticos. Nenhuma foi ingerida. Todas foram escondidas e descartadas.

Quando o estudo foi publicado na revista Science, a psiquiatria foi sacudida. Hospitais sentiram-se expostos. Muitos profissionais viram-se questionados.

Um hospital desafiou Rosenhan: “Envie os seus pacientes falsos. Nós vamos identificá-los.” Ele aceitou.

Três meses depois, o hospital declarou com orgulho ter detetado 41 impostores. Mas Rosenhan não havia enviado ninguém.

A desconfiança no sistema virou quase uma paranoia. Eles viam pacientes falsos por todo lado… mesmo quando não havia ninguém infiltrado.

O estudo ficou conhecido como Efeito Rosenhan. Uma demonstração poderosa de como os rótulos psiquiátricos podem distorcer completamente a realidade, tanto para quem diagnostica, quanto para quem é diagnosticado. Constituiu-se um divisor de águas na história da saúde mental. Ele lembra-nos que diagnósticos são importantes, mas não podem substituir a escuta, a empatia e a individualidade de cada pessoa. 

A INSUBMERSÍVEL

Quando se fala no Titanic, a memória coletiva guarda o navio, o icebergue e as mais de 1.500 vidas perdidas. O que quase ninguém sabe é que ...