sexta-feira, 4 de setembro de 2026

GOSTO DE VER NOVELAS, MAS…



No passado via apenas uma novela de cada vez. Era um ritual doméstico, quase disciplinado, como quem segue uma rotina que não exige explicações. Uma história, um elenco, um conflito central, bastava‑me. Contudo, com o aumento da produção nacional nos principais canais televisivos portugueses, dei por mim a seguir duas ou três simultaneamente, como se tivesse descoberto um novo apetite, não físico, mas narrativo, aquele que se instala quando percebemos que as histórias têm um poder aditivo subtil, quase químico, que se infiltra no quotidiano sem pedir licença.

A capacidade viciante das histórias não nasce apenas da curiosidade, mas da forma como se encadeiam na nossa cabeça. Uma novela não termina quando o episódio acaba – continua a trabalhar dentro de nós, como se cada personagem ocupasse um pequeno compartimento mental. Quando seguimos várias ao mesmo tempo, esses compartimentos começam a comunicar entre si, criando uma espécie de ruído emocional que nos acompanha ao longo do dia. É quase uma polifonia doméstica: enquanto cozinhamos, lembramo‑nos da discussão do casal da novela das nove; enquanto conduzimos, pensamos na reviravolta da outra que vem a seguir; enquanto tentamos dormir, surge aquela pergunta que não devia surgir — “será que ela vai descobrir a verdade?”

Mas o mais curioso é que este fenómeno não acontece da mesma forma com as séries. As séries são organizadas como arquiteturas narrativas: temporadas curtas, episódios pensados ao milímetro, arcos que se fecham com precisão quase cirúrgica. São histórias que se consomem com a sensação de que alguém planeou tudo para que o espectador não se perca. Já as novelas são organismos vivos, que crescem, se estendem, se adaptam ao público, às audiências, às circunstâncias. Uma série pode ter três temporadas; uma novela mais de uma centena de episódios. Uma série é uma casa bem desenhada; uma novela é uma cidade em expansão.

E é precisamente essa expansão que alimenta a adição. Porque quando uma história dura meses, às vezes mais de um ano, cria uma relação de convivência. Não é apenas acompanhar personagens; é viver com elas. A novela atravessa estações, feriados, mudanças de humor, semanas boas e más. E quando seguimos várias ao mesmo tempo, essa convivência multiplica‑se, como se tivéssemos várias famílias ficcionais a ocupar o mesmo espaço na nossa cabeça.

Até que chega um momento em que percebo que não estou apenas a seguir histórias — estou a ser seguido por elas. Elas perseguem‑me, encostam‑se ao meu dia, pedem atenção, exigem continuidade. E eu cedo, claro. Porque há algo de irresistível na forma como as novelas se prolongam, como se recusassem a deixar‑nos ir. Uma série termina e ficamos livres. Uma novela termina e ficamos órfãos.

Gosto de ver novelas, mas… há um ponto em que o prazer da história começa a disputar espaço com uma inquietação mais funda. Porque, ao seguir duas ou três ao mesmo tempo, percebo que não estou apenas a consumir ficção: estou também a absorver um conjunto de mensagens que, mesmo sem intenção explícita, moldam comportamentos, normalizam hábitos, insinuam ideias. E é aqui que entra a tal responsabilidade social que raramente é discutida — aquela que se esconde nos detalhes, nos gestos repetidos, nos objetos que aparecem em cena como se fossem parte natural da paisagem.

Um exemplo claro é a novela A Madrasta, da TVI, que sigo diariamente. A história, por si só, já é um laboratório de tensões: uma família corroída pela intriga, pela falsidade, rodeada de amigos interesseiros que orbitam em torno do poder e do dinheiro. Até aqui, nada de novo — as novelas sempre gostaram de famílias disfuncionais, de segredos mal guardados, de alianças que duram o tempo de um copo pousado na mesa. O problema nesta novela é precisamente esse copo. Porque há sempre um, em quase todas as cenas, divisões e circunstâncias.

Na sala, há bebida. Na biblioteca, há bebida. Nos gabinetes da empresa financeira, há bebida. E não é apenas presença decorativa: é consumo ativo, constante, quase ritualístico.

Os personagens afogam-se em álcool com a mesma naturalidade com que respiram. Não há reflexão, não há consequência, não há sequer um momento de desconforto. A bebida surge como um bálsamo imediato, um calmante emocional, uma espécie de terapia líquida que atenua tudo: discussões, frustrações, revelações, silêncios.

Esta normalização do álcool é uma mensagem subliminar poderosa. Mesmo indo para o ar num horário fora das restrições legais impostas para a publicidade, a novela cria um imaginário onde beber é tão natural como conversar. Onde o álcool é sempre acessível, sempre presente, sempre útil. Onde a ideia de que “um copo ajuda” se infiltra sem resistência.

Gosto de ver novelas, mas… há um ponto em que a ficção deixa de ser apenas entretenimento e passa a ser também influência. E, por isso mesmo, as produtoras têm de reconhecer que cada copo em cena, cada gesto repetido, cada normalização silenciosa carrega uma responsabilidade social real. Não se trata de censura, mas de consciência: quem constrói histórias constrói também referências. E, num país onde tantos procuram nas novelas um espelho do quotidiano, é urgente que esse espelho não distorça aquilo que devia proteger. As narrativas podem ser aditivas, sim, mas que nunca o sejam à custa de valores que merecem ser cuidados.

 

“A responsabilidade é o preço da liberdade.”

Elbert Hubbard (escritor, editor, filósofo e empreendedor cultural norte‑americano) 

Sem comentários:

Enviar um comentário

O HORIZONTE

Durante séculos, a humanidade procurou formas de espreitar o amanhã. Consultou oráculos, interpretou estrelas, observou sinais na natureza e...