quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A CARTA SEM REMETENTE

A carta apareceu numa manhã de novembro, dobrada com um cuidado antigo entre anúncios e folhetos que ninguém lê. O envelope, amarelecido pelo tempo, não trazia selo, carimbo ou remetente, apenas o seu nome escrito à mão numa caligrafia estranhamente familiar. Intrigado, levou-o para dentro e sentou-se junto à janela. A luz suave do dia entrava pela sala quando rompeu a selagem da cola já quebradiça. A folha única que encontrou, continha apenas uma frase, breve e inquietante: "Lembras-te da árvore junto ao rio, onde escondeste aquilo que nunca contaste a ninguém?" 

Sem saber porquê, sentiu um arrepio percorrer-lhe a memória antes mesmo da recordação regressar.

Aquela frase ficou suspensa no silêncio da sala durante vários minutos. Conhecia a árvore. Conhecia o rio. E conhecia, acima de tudo, o segredo a que aquelas palavras aludiam. Tinha dez anos quando, numa tarde de verão já distante, escondera entre as raízes dessa árvore uma pequena caixa de madeira contendo algo que considerava então o seu bem mais precioso. Nunca contara a ninguém esse episódio. Nem aos pais, nem aos amigos de infância, nem sequer à mulher com quem partilhara tantos anos da sua vida. Contudo, ao reler a frase, as imagens regressaram com uma nitidez desconcertante – o brilho da água, o rumor das folhas agitadas pelo vento e as suas mãos de criança a empurrarem a caixa para a terra húmida, como se estivessem a cumprir uma promessa feita a alguém que já não conseguia recordar.

Sem conseguir afastar a inquietação, procurou no sótão uma velha fotografia tirada junto ao rio. Encontrou-a ao fim de alguns minutos, esquecida entre álbuns cobertos de pó. Lá estava a árvore. Aos seus pés, quase escondida pela sombra, distinguiu a pequena pá com que escavara a terra naquele verão longínquo. Virou então a carta para a última linha, que até ali passara despercebida. Em letras mais pequenas, lia-se apenas: "A caixa continua à tua espera."

No próprio dia regressou ao rio. A árvore continuava lá, imóvel perante as décadas. Escavou junto às raízes e encontrou a caixa onde a deixara. Dentro havia apenas uma folha dobrada. Reconheceu de imediato a caligrafia: era a sua. Tremendo, leu a única frase escrita pela mão da criança que fora um dia: “Se esta carta chegou até ti, então nunca me esqueceste.” E, pela primeira vez, compreendeu que algumas recordações passam a vida inteira à espera de ser encontradas.

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