Sem saber porquê,
sentiu um arrepio percorrer-lhe a memória antes mesmo da recordação regressar.
Aquela frase ficou suspensa no silêncio da sala durante
vários minutos. Conhecia a árvore. Conhecia o rio. E conhecia, acima de tudo, o
segredo a que aquelas palavras aludiam. Tinha dez anos quando, numa tarde de
verão já distante, escondera entre as raízes dessa árvore uma pequena caixa de
madeira contendo algo que considerava então o seu bem mais precioso. Nunca
contara a ninguém esse episódio. Nem aos pais, nem aos amigos de infância, nem
sequer à mulher com quem partilhara tantos anos da sua vida. Contudo, ao reler
a frase, as imagens regressaram com uma nitidez desconcertante – o brilho da
água, o rumor das folhas agitadas pelo vento e as suas mãos de criança a
empurrarem a caixa para a terra húmida, como se estivessem a cumprir uma
promessa feita a alguém que já não conseguia recordar.
Sem conseguir afastar a inquietação, procurou no sótão uma
velha fotografia tirada junto ao rio. Encontrou-a ao fim de alguns minutos,
esquecida entre álbuns cobertos de pó. Lá estava a árvore. Aos seus pés, quase
escondida pela sombra, distinguiu a pequena pá com que escavara a terra naquele
verão longínquo. Virou então a carta para a última linha, que até ali passara
despercebida. Em letras mais pequenas, lia-se apenas: "A caixa continua
à tua espera."
No próprio dia regressou ao rio. A árvore continuava lá,
imóvel perante as décadas. Escavou junto às raízes e encontrou a caixa onde a
deixara. Dentro havia apenas uma folha dobrada. Reconheceu de imediato a
caligrafia: era a sua. Tremendo, leu a única frase escrita pela mão da criança
que fora um dia: “Se esta carta chegou até ti, então nunca me esqueceste.”
E, pela primeira vez, compreendeu que algumas recordações passam a vida inteira
à espera de ser encontradas.

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