Há um debate aceso em Portugal sobre a avaliação no ensino. Fala‑se de exames, de médias, de critérios, de grelhas, de percentagens. Discute‑se tudo, menos o essencial. Porque, no fundo, continuamos a avaliar como se o conhecimento fosse um bem raro, guardado em cofres de alta segurança, transmitido de mestre para aluno, medido em testes que verificam o que ficou retido. A questão é simples: o mundo mudou, mas os sistemas de ensino não acompanharam.
Hoje, qualquer aluno tem acesso a mais informação no bolso do que um professor universitário tinha há quarenta anos pesquisando em intermináveis bibliotecas. O conhecimento democratizou‑se, multiplicou‑se, tornou‑se instantâneo. Mas o sistema de ensino insiste em medir a capacidade de o decorar. É como avaliar um cozinheiro pela quantidade de receitas que sabe de cor, em vez de ver se consegue preparar um prato apetitoso e equilibrado. A escola continua a premiar quem memoriza, não quem procura, seleciona, interpreta e aplica.
E aqui está a
ironia: nunca foi tão fácil aceder ao conhecimento, e nunca foi tão difícil
ensinar a usá‑lo bem. Porque o desafio já não é saber “o quê”, mas saber
“como”. Como distinguir o rigor da opinião. Como validar fontes. Como resolver
problemas reais com informação disponível. Como transformar dados em decisões.
O ensino devia ser o laboratório onde se aprende a navegar neste oceano. Em vez
disso, muitas vezes é apenas o lugar onde se verifica se o aluno decorou o
mapa.
O mais
curioso é que todos reconhecem isto — professores, alunos, pais, especialistas
— mas o sistema continua preso a uma lógica industrial: produção, transmissão e
verificação de conteúdos. Como se estivéssemos a formar máquinas de retenção,
quando devíamos estar a formar mentes capazes de pensar com o que sabem e com o
que ainda não sabem.
A mudança de
paradigma é profunda, urgente e inevitável: deixar de avaliar a memória e
começar a avaliar a inteligência aplicada. Menos “o que sabes”, mais “o que
fazes com o que sabes”. Menos retenção, mais ação. Menos passado, mais futuro.
E esta hem!

Sem comentários:
Enviar um comentário