sexta-feira, 17 de julho de 2026

AVALIAR O QUE JÁ NÃO IMPORTA

Há um debate aceso em Portugal sobre a avaliação no ensino. Fala‑se de exames, de médias, de critérios, de grelhas, de percentagens. Discute‑se tudo, menos o essencial. Porque, no fundo, continuamos a avaliar como se o conhecimento fosse um bem raro, guardado em cofres de alta segurança, transmitido de mestre para aluno, medido em testes que verificam o que ficou retido. A questão é simples: o mundo mudou, mas os sistemas de ensino não acompanharam.

Hoje, qualquer aluno tem acesso a mais informação no bolso do que um professor universitário tinha há quarenta anos pesquisando em intermináveis bibliotecas. O conhecimento democratizou‑se, multiplicou‑se, tornou‑se instantâneo. Mas o sistema de ensino insiste em medir a capacidade de o decorar. É como avaliar um cozinheiro pela quantidade de receitas que sabe de cor, em vez de ver se consegue preparar um prato apetitoso e equilibrado. A escola continua a premiar quem memoriza, não quem procura, seleciona, interpreta e aplica.

E aqui está a ironia: nunca foi tão fácil aceder ao conhecimento, e nunca foi tão difícil ensinar a usá‑lo bem. Porque o desafio já não é saber “o quê”, mas saber “como”. Como distinguir o rigor da opinião. Como validar fontes. Como resolver problemas reais com informação disponível. Como transformar dados em decisões. O ensino devia ser o laboratório onde se aprende a navegar neste oceano. Em vez disso, muitas vezes é apenas o lugar onde se verifica se o aluno decorou o mapa.

O mais curioso é que todos reconhecem isto — professores, alunos, pais, especialistas — mas o sistema continua preso a uma lógica industrial: produção, transmissão e verificação de conteúdos. Como se estivéssemos a formar máquinas de retenção, quando devíamos estar a formar mentes capazes de pensar com o que sabem e com o que ainda não sabem.

A mudança de paradigma é profunda, urgente e inevitável: deixar de avaliar a memória e começar a avaliar a inteligência aplicada. Menos “o que sabes”, mais “o que fazes com o que sabes”. Menos retenção, mais ação. Menos passado, mais futuro.

E esta hem! 

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