Obriguei-me a deixar passar vinte e quatro horas sobre a derrota de Portugal frente à Espanha, nos oitavos de final do Mundial de futebol de 2026 para escrever este texto. Todos sabemos, mas muitos se esquecem, até os políticos, que para decidirmos com alguma isenção necessitamos de um período de reflexão, como o que é imposto antes de qualquer ato eleitoral.
Todavia, criou-se a fantasia de que emitir uma opinião, ou
formular uma crítica, não são ações que careçam de qualquer resolução ou meditação.
“Penso, logo existo”, é uma máxima ultrapassada do filósofo René Descartes, com
teias de aranha depositadas ao longo de quase quatrocentos anos, que só fazia
sentido num mundo sem redes sociais. Hoje, para “existir” basta estar ativo
nestes espaços virtuais, publicar regularmente conteúdos que agradem a quem os
consome, sem necessidade de “pensar”, não vá esse exercício trair-nos e
conquistarmos “haters” em vez de seguidores.
Desde o final do jogo de ontem da nossa Seleção que já pude
ler e ouvir os mais disparatados comentários à nossa participação na
competição. Desde a falta de coragem do selecionador até à vaidade de Cristiano
Ronaldo, tudo já foi dito e escrito, por vezes de forma injuriosa. De facto, o
Roberto Martinez devia ter tido a coragem de pôr o Ronaldo no banco, nem que
jogasse apenas com dez, pois seria uma manifestação de liderança, deixar o
líder de fora. E este mundo é para os corajosos, que mesmo sem pensar são
capazes de feitos assinaláveis. Se assim tivesse feito, Roberto Martinez podia
não ganhar o Mundial, mas sairia pela porta grande por ter tido a coragem de
sentar o Cristiano no banco. Admirável!
Por outro lado, Ronaldo teria a lição que merece, depois de
ter dado tão pouco a Portugal. Modric com quarenta anos pode jogar pela
Croácia, ou Messi aos trinta e nove pela Argentina, mas nós, conquistadores do
mundo, não podemos permitir que um velho de quarenta e um anos condicione o
nosso sucesso.
Depois da felicidade da véspera que alguns portugueses
sentiram ao ver o Brasil afastado da competição, esquecendo que foi Luiz Filipe
Scolari o responsável pela primeira internacionalização de Cristiano Ronaldo na
seleção A, de ter conduzido Portugal à primeira final de um campeonato europeu
da modalidade, e ter devolvido o orgulho dos portugueses na bandeira nacional,
só ainda não assisti a que alguém afirmasse que Roberto Martinez fez com que
Portugal perdesse por ser espanhol!
Compreendo que a frustração de não seguirmos em frente tolde
o discernimento de algumas pessoas, e que um sentimento de tristeza nos invade
enquanto portugueses. Contudo, devemos ter presente que ser melhor é um
conceito relativo e dependente do estado do adversário que defrontamos. Que um
jogo de futebol dura noventa minutos, ou cento e vinte minutos quando tem
prolongamento, e que é nesse espaço de tempo que a vitória, ou a derrota,
acontecem. Podemos fazer tudo bem, e nesse lapso de tempo o resultado desejado
não surgir.
Orgulhemo-nos daquilo que fizemos. Sonhamos com uma final entre
Cabo Verde e Portugal, transformando Vozinha num herói nacional, embora tenha quarenta
anos. Enquanto torcíamos por esta seleção, que fala a nossa língua, tal como o
Brasil, não exigíamos à equipa que fosse melhor que o antagonista, nem que o
seu guarda-redes defendesse tudo, só queríamos que ganhassem para alimentar a
quimera de os termos na final contra nós. Aí, se perdêssemos, seria como na
final do Euro 2004 com a Grécia. Só teríamos de esperar uma dúzia de anos para
sermos campeões mundiais, sem Ronaldo, e com um treinador português.
Perdoem-me pela minha imaginação me ter levado tão longe.
Sei que muitos dirão que acabo de escrever um chorrilho de disparates, mas
vaguearmos por caminhos improváveis faz-nos pensar e refletir sobre os factos
que a realidade nos oferece, mas que nos inibe de os analisarmos com clareza.
Ao fim e ao cabo, tudo ou nada é futebol, e apenas resulta
da ilusão de sermos invencíveis.
“A nossa maior
ilusão é acreditar que não temos ilusões.”
Fernando Pessoa (poeta
e escritor português)

Sem comentários:
Enviar um comentário