segunda-feira, 30 de março de 2026

TRACY CHAPMAN

“A esperança é aquilo que fazemos nascer quando escolhemos não desistir.”

Tracy Chapman, nascida a 30 de março de 1964, sempre escreveu a partir de um espaço de verdade íntima. A sua música, despojada de artifícios, fala da coragem silenciosa que sustenta a vida quotidiana. Por isso a frase “A esperança é aquilo que fazemos nascer quando escolhemos não desistir” parece feita para este dia: lembra-nos que a esperança não é um acaso, mas uma decisão. Não nasce do otimismo fácil, mas do gesto persistente de continuar, mesmo quando nada garante que valha a pena. 

No limiar da primavera, o 30 de março torna-se assim um convite discreto. A esperança constrói-se, e começa sempre no momento em que recusamos desistir.

quinta-feira, 26 de março de 2026

TIAGO HENRIQUE BONA

Ronaldo vs Maradona

Cristiano e Maradona: dois corpos, duas linhagens, duas maneiras de carregar a dor.


Os dois têm 40 anos nestas fotos.


Os dois nasceram na pobreza.


Os dois chegaram ao topo.


Os dois foram e serão heróis.

Mas os seus corpos contam histórias diferentes.

👉 Não é só disciplina vs. descontrolo.

👉 Não é só academia vs. excessos.

👉 Não é só "olha como um acabou e como o outro acabou".

⚠️ É outra coisa.

É como cada um segurou a sua história familiar.

É como um metabolizou a exigência e o outro o abandono.

É como um se tornou o seu próprio pai, e o outro o filho eterno de uma mãe omnipresente.

Cristão é perfeccionismo levado ao extremo.

O filho que salvou a mãe, que abdicou da infância para ser o provedor.

O seu corpo fala de controlo, de sacrifício, de “se eu não sou perfeito, eu não valho”.
Maradona, em vez disso, carregou a linhagem dos excluídos.

Aquele que não se encaixava. Aquele que foi amado por milhões, mas não por si mesmo.

O seu corpo fala de carência, raiva acumulada, lealdade cega ao bairro que nunca o soltou.

💔 Um carregou o trauma como armadura.

💔O outro, como ferida aberta.

De um olhar sistêmico e transgeracional, ambos não eram apenas homens: foram o resultado dos seus clãs, das suas feridas, dos seus silêncios e dos seus códigos invisíveis.

E assim como a alma ferida se expressa na voz, alma não ouvida... manifesta-se no corpo.

O que vê quando olha estas duas imagens?

Qual dos dois o incomoda mais... E porquê?

Que parte de si vê refletida num.… e negada no outro?

Porque talvez não haja bons ou maus.

Há corpos que gritam o que o sistema calou. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

MÃE, SEM TEMPO, NEM DISTÂNCIA

Mãe. Palavra que o tempo não conseguiu desgastar.

Hoje, 25 de março de 2026, ela volta a mim com a mesma força de sempre, como se atravessasse décadas sem perder brilho.

Há noventa anos que nasceste para o ser, e em todos os anos que tenho tu tens sido presença que me acompanha — e, ainda assim, surpreende-me sempre a tua capacidade de resistir à distância, como se tivesses aprendido a atravessar o mundo sem perder calor.

O tempo, mãe, sempre me pareceu uma casa onde tu moras com uma serenidade que me escapa.

Há quem envelheça como quem perde camadas. Tu fizeste o contrário: foste ganhando profundidade, como se cada ano acrescentasse mais chão aos teus gestos, mais silêncio às tuas palavras, mais luz ao que deixas em nós. Aos noventa, não te vejo como quem chega ao fim de um caminho, mas como quem o alarga. É talvez por isso que, mesmo longe, sinto que continuo a caminhar dentro do tempo que viveste e me deste.

Há dias em que o espaço que nos separa se estende diante de mim como um corpo inteiro, feito de ar, de horas e de silêncio. Mas, por mais que se imponha, nunca conseguiu erguer‑se como uma barreira. Pelo contrário, quanto mais longe estou, mais nítida se torna a tua presença, como se o espaço entre nós funcionasse como uma lente que amplia o essencial e desfoca o acessório.

A distância tem destas ironias: obriga‑nos a escutar o que permanece, a reconhecer o que não se quebra, a perceber que há amores que não precisam de proximidade para se manterem vivos. É nesse intervalo, tão físico e tão inevitável, que descubro o quanto me ensinaste sem palavras: que o amor verdadeiro não se mede apenas pelo toque, mas também pela forma como continua a respirar dentro de nós, mesmo quando o mundo nos coloca distantes.

Há coisas que nunca disseste e que, ainda assim, sempre soube. Não porque as tivesses escondido, mas porque as foste deixando em mim como quem pousa pequenas pedras num caminho para que o outro não se perca. A tua força nunca precisou de voz. Bastava o modo como enfrentavas os dias, como arrumavas o mundo com gestos simples, como seguravas o silêncio sem medo. Foi aí que aprendi que a coragem raramente faz barulho, que o amor não exige explicações, que a presença mais profunda é a que não se impõe.

Olhando agora para trás, percebo que muito do que sou nasceu dessa forma discreta de me ensinares: a paciência que me sustenta, a serenidade com que atravesso as incertezas, a capacidade de continuar mesmo quando o caminho se estreita. Nada disso me foi dito. Foi vivido diante de mim. É essa herança invisível, tão tua, que me acompanha hoje, aqui, longe, como se fosse uma respiração antiga que ainda me guia por dentro.

Hoje, ao completares noventa anos, não é a longevidade que mais me impressiona, embora ela seja, por si só, um feito raro. O que verdadeiramente me comove é a mulher que foste e continuas a ser: firme sem dureza, doce sem fragilidade, inteira sem alarde. Criaste quatro filhos com a mesma naturalidade com que se respira, como se amar fosse um gesto tão simples quanto abrir a janela pela manhã. E és avó com a mesma generosidade silenciosa, oferecendo aos teus cinco netos uma presença que não precisa de palavras para ser absoluta. Há vidas que se medem em datas – a tua mede‑se em marcas deixadas, em gestos que perduram, em raízes que se espalham muito para além do que imaginaste. Por isso, neste dia que é teu, não te celebro apenas pelos anos que somas, mas pela força tranquila com que os viveste, e pela luz que, sem nunca o dizeres, acendeste em cada um de nós.

“Há ausências que são presenças demoradas.”

Mia Couto (escritor e biólogo moçambicano)


segunda-feira, 16 de março de 2026

O PRIMEIRO PASSO PARA A CONQUISTA DO UNIVERSO

Há dias que parecem insignificantes quando acontecem, mas que mais tarde percebemos ter sido determinante para o futuro. 16 de março de 1926 é um desses dias. Num campo gelado de Auburn, Massachusetts, Robert H. Goddard preparava um pequeno foguete de combustível líquido. Não havia multidões, nem imprensa, nem qualquer certeza de sucesso. 

Apenas um homem, uma máquina frágil e uma fé teimosa na possibilidade de ir mais longe do que o mundo acreditava ser possível.

O foguete percorreu apenas 56 metros. Subiu, hesitou, inclinou-se e caiu. Mas naquele breve arco de fogo estava escondido o início de tudo: viagens orbitais, satélites, sondas, passos na Lua, sonhos de Marte. O que parecia pequeno era, na verdade, inaugural e promissor. O que parecia falhar estava, de facto, a abrir caminho.

Goddard não lançou apenas um foguete, lançou uma ideia: a de que o impossível começa sempre com um gesto solitário. A técnica, ali, não era apenas técnica. Era ponte para o desconhecido. Era a prova de que um ato individual pode transformar-se em herança coletiva. Era o instante em que a humanidade percebeu que o céu já não era limite, mas um convite para ir mais além.

Este episódio encerra também uma beleza discreta. Goddard trabalhou quase em silêncio, muitas vezes ridicularizado, quase sempre ignorado. E mesmo assim continuou. Criou sem garantia de retorno. Acreditou sem testemunhas. Arriscou sem aplausos. E talvez seja por isso que este dia ressoa tanto, porque nos lembra que o futuro começa sempre com alguém que decide acreditar antes de ser compreendido.

No fundo, 16 de março de 1926 não é apenas o dia em que um foguete subiu 56 metros. É o dia em que a humanidade deu o seu primeiro passo para a conquista do Universo. 

quarta-feira, 11 de março de 2026

DIVÓRCIO AOS SESSENTA E OITO ANOS

Divorciar-me aos sessenta e oito anos não foi um capricho nem um ato de rebeldia tardia. Foi um reconhecimento amargo, a aceitação de que, após quatro décadas de casamento com uma mulher com quem partilhei tanto o pão como o vazio dos jantares em silêncio, eu falhara em ser quem devia. Chamo-me Artur, sou de Viseu, e a minha história nasceu da solidão para desaguar numa verdade que jamais antevi.

Com a Celeste, vivi quase uma existência inteira. Casamo-nos aos vinte e dois anos, nos tempos em que o país ainda respirava sob o peso da ditadura. Naquela época, havia paixão, beijos roubados nos largos da cidade, promessas murmuradas ao luar, sonhos entrelaçados. Depois, a vida encarregou-se de nos desfiar. Vieram os filhos, as contas por pagar, os dias iguais, o cansaço que se instalou como sombra. As palavras transformaram-se em bilhetes apressados na mesa da cozinha: "Pagaste o gás?", "Não te esqueças do pão", "O João precisa de ir ao médico."

De manhã, fitava-a e já não via a rapariga de riso fácil, mas uma estranha de olhos cansados. E eu, certamente, era igual para ela. Não éramos marido e mulher. Éramos dois desconhecidos a dividir um telhado. Um dia, o meu orgulho, teimoso como um burro do Alentejo, sussurrou-me: "Mereces mais. Uma segunda oportunidade. Um sopro de vida, pelo menos." E pedi o divórcio.

A Celeste não discutiu. Apenas assentiu, fitando o rio pela janela, e disse: "Faz como entenderes. Já não tenho ânimo para batalhas."

Saí de casa. Nos primeiros dias, senti-me leve, como se tivesse deixado cair um fardo antigo. Passei a dormir do lado esquerdo da cama, adotei um cão chamado Tico, comecei a beber o café da manhã na varanda, ouvindo os pássaros. Mas, pouco a pouco, o alívio deu lugar a outra coisa, um vazio que ecoava pelas paredes. A comida perdia o sabor, os dias tornavam-se demasiado longos.

Foi então que surgiu a ideia: encontrar uma mulher que me auxiliasse. Alguém como a Celeste costumava fazer. Lavar, cozinhar, manter a casa em ordem. De preferência mais nova, pelos cinquenta anos, prática, de bom coração. Talvez uma viúva. Não pedia muito. Convenci-me: "Não sou mau partido. Tenho casa, reforma digna, saúde. Por que não?"

Comecei a procurar. Espalhei a palavra entre vizinhos, deixei cair indiretas no café. Por fim, ousei mais e publiquei um anúncio no jornal da terra. Curto e direto: "Homem, 68 anos, deseja companhia feminina para auxílio no lar. Alojamento e alimentação garantidos."

Foi esse anúncio que me mudou. Três dias depois, chegou uma resposta. Só uma. Mas uma carta que me fez tremer os dedos ao lê-la.

"Estimado Artur,

Será que o senhor acredita, em pleno século XXI, que uma mulher existe para lavar cuecas e cozinhar feijoada? Não vivemos nos tempos da sua avó.

O que o senhor procura não é uma companheira, mas uma criada de servir, vestida de afeto.

Talvez devesse aprender primeiro a estender a sua própria roupa e a temperar o seu cozido.

Cordialmente,

Uma mulher que não precisa de um fidalgo a apontar-lhe a vassoura."

Li a carta vezes sem conta. No início, a raiva ferver-me-ia no peito. Como ousava? Quem se julgava ela? Eu não queria explorar ninguém, apenas desejava conforto, um lar que cheirasse a vida...

Mas, devagar, a fúria deu lugar a outra coisa. E se ela tivesse razão? Talvez eu estivesse apenas à procura de quem me poupasse ao trabalho de viver. Será que esperava que alguém chegasse e me desse aquilo que eu mesmo devia construir?

Comecei pelo mais simples. Aprendi a fazer caldo verde. Depois, arrisquei um cozido à portuguesa. Inscrevi-me num canal chamado “Sabores da Aldeia”, passei a fazer lista de compras, a dobrar as minhas próprias camisas. No início, senti-me desengonçado, quase patético. Mas, com o tempo, percebi que aquilo já não eram tarefas, era a minha vida. A minha conquista.

Cheguei a colocar a carta emoldurada na sala. Um aviso para mim mesmo: não queiras que alguém te salve se ainda não aprendeste a nadar.

Passaram-se meses. Continuo só. Mas agora a minha casa cheira a pão quente. Na varanda, cultivo manjericos. Aos domingos, faço arroz-doce, receita da Celeste. E, às vezes, pergunto-me: “Devia levar-lhe um prato?” Pela primeira vez em quarenta anos, compreendi o que é estar ao lado de alguém não por obrigação, mas por escolha.

Se me perguntarem se quero casar outra vez, direi que não. Mas se, por acaso, uma mulher se sentar ao meu lado no jardim, não à procura de senhor, mas apenas de conversa, talvez eu lhe diga duas ou três palavras. Só que agora serei um homem diferente. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

AMÉRICO VESPÚCIO

Há datas que parecem nascer antes das pessoas, como se aguardassem pacientemente por alguém capaz de lhes dar sentido. 9 de março de 1454 foi uma dessas datas. Florença acordou igual a si mesma, ruas estreitas, mercadores apressados, o rumor das oficinas renascentistas, mas sem o saber, viu nascer um homem que viria a deslocar o eixo do mundo.

Américo Vespúcio não liderou exércitos, não ergueu bandeiras, não incendiou multidões. A sua liderança era de outra natureza: silenciosa, obstinada, feita de mapas, de margens, de perguntas que ninguém tinha ainda ousado formular. 

Era o tipo de homem que olha para o horizonte e não vê apenas mar. Vê possibilidade.

Dizem que partiu para o Novo Mundo como quem parte para dentro de si. E talvez seja verdade. Porque o que encontrou não foi apenas terra. Foi a coragem de admitir que tudo o que a Europa pensava saber estava errado. Que aquelas costas imensas não eram a Ásia, mas algo radicalmente novo. Um continente inteiro à espera de nome, de forma, de narrativa.

E é aqui que a sua liderança se revela: não no gesto heroico, mas na lucidez rara. Vespúcio percebeu o que ninguém tinha percebido. E, ao fazê-lo, mudou o mapa mental da humanidade. Há quem lidere povos. Ele liderou a imaginação do mundo.

Hoje, quando pronunciamos “América”, repetimos sem o saber o eco desse homem nascido a 9 de março. Um homem que não conquistou territórios, mas conquistou a ideia de que o desconhecido merece ser nomeado com coragem.

Talvez seja isso que faz de Vespúcio um grande líder: não o tamanho das suas façanhas, mas a profundidade do seu olhar. Um olhar capaz de transformar uma data num ponto de partida e um continente numa revelação. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

A IMPORTÂNCIA DAS COISAS

Na sequência da preparação de uma crónica com o mesmo título desta publicação, que integrará o meu próximo livro, senti a necessidade de preparar uma estrutura narrativa que me permitisse não me perder no meio das ideias que queria abordar. O resultado foi algo que considerei útil partilhar com os meus seguidores e que passo a apresentar de uma forma pragmática e objetiva, sem qualquer preocupação de lhe conferir um cariz literário.

AS QUATRO FORMAS DE IMPORTÂNCIA NA VIDA

1) Coisas que sempre foram importantes — e continuam a ser

São os pilares silenciosos: relações fundadoras, valores que resistem ao tempo, gestos que nos definem mesmo quando não os vemos.

  • São estáveis, mas não imutáveis.
  • Exigem cuidado para não se tornarem invisíveis.
  • Revelam a nossa identidade mais profunda.

2) Coisas que foram importantes — e deixaram de ser

Aqui vive a mudança, a maturidade, a perda e a libertação.

  • Podem ter sido essenciais numa fase da vida, mas já não nos servem.
  • O perigo é a nostalgia que nos prende ou a culpa por “abandonar” algo que já não faz sentido.
  • São capítulos concluídos que insistimos em reler.

3) Coisas que continuam a ser importantes — mas às quais deixámos de dar importância

Este é talvez o território mais fértil para o esquecimento do essencial.

  • A rotina desgasta o brilho.
  • A urgência do mundo abafa o que é vital.
  • O amor, a saúde, a amizade, o tempo — tudo pode ser negligenciado sem deixarem de ser fundamentais.

4) Coisas que não são importantes — mas às quais damos importância excessiva

O ruído, o ego, a comparação, a ansiedade social.

  • São distrações que se disfarçam de prioridades.
  • Crescem porque alimentamos a sua fome.
  • São as ladras de atenção que nos afastam do que realmente importa.

COMO DISTINGUIR ESTAS QUATRO CATEGORIAS SEM CAIR NA MORALIZAÇÃO?

1) A importância verdadeira resiste ao silêncio

Se deixarmos de olhar para algo e ele continuar a pulsar dentro de nós, é importante. Se só existe quando o olhamos, é ruído.

2) A importância falsa exige urgência

O que é essencial raramente grita. O que é irrelevante vive de alarmes, notificações, pressas, comparações.

3) A importância madura transforma-se

O que foi importante pode deixar de ser — e isso não é falha, é crescimento. A vida não é um museu de prioridades fixas.

4) A importância negligenciada dói em silêncio

Quando algo essencial é esquecido, não desaparece: transforma-se em ausência, em saudade, em cansaço, em sensação de vida desalinhada.

COMO ESTAR ATENTO AO QUE REALMENTE IMPORTA?

Não existem regras que possam ser propostas, mas movimentos interiores — quase gestos de consciência:

  • Escutar o que permanece: aquilo que regressa quando o mundo se cala.
  • Observar o que nos esgota: muitas vezes, o que nos cansa não é o que importa, mas o que ocupa espaço indevido.
  • Revisitar prioridades com honestidade: não com culpa, mas com curiosidade.
  • Aceitar que a importância é dinâmica: a vida muda, nós mudamos, e a hierarquia das coisas também.
  • Perguntar: “Isto aproxima-me ou afasta-me de quem quero ser?” A resposta raramente engana.

 Desejo que esta reflexão sobre a importância das coisas vos possa ser útil! 

segunda-feira, 2 de março de 2026

HEGEL

“Nada de verdadeiramente grande no mundo foi realizado sem paixão.”

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831) foi um dos grandes arquitetos do pensamento moderno, um filósofo que viu o mundo como um processo vivo, em constante transformação, onde o espírito humano se descobre e se supera através das tensões que enfrenta. A sua obra, densa e exigente, procurou sempre compreender como a liberdade se realiza na história e como a ação humana ganha sentido quando se inscreve num movimento maior do que o indivíduo. Talvez por isso esta frase tenha atravessado os séculos com uma força tão particular. 

Não está ligada a um acontecimento específico de 2 de março, mas tornou‑se, em muitas coleções de citações, a máxima escolhida para este dia, como se a data, situada entre o fim do inverno e o prenúncio da primavera, pedisse precisamente esta ideia de impulso interior, de energia que desperta e se orienta para algo que vale a pena.

Lida hoje, a frase ganha uma ressonância especial. Para Hegel, a paixão não era um excesso emocional, mas a força que dá direção ao que fazemos, a centelha que nos arranca da inércia e nos compromete com algo que nos ultrapassa. O grande, aquilo que transforma, que inaugura, que deixa marca, nunca nasce do cálculo frio, mas da entrega total, do risco assumido, da vulnerabilidade de quem se expõe ao que acredita. A paixão, neste sentido, é uma forma de fidelidade, ao que somos, ao que desejamos, ao que o mundo nos pede. É ela que nos permite agir com sentido, aceitar a possibilidade de falhar e, ainda assim, avançar. E é também ela que nos transforma enquanto transformamos o que nos rodeia.

Por isso, talvez faça sentido que esta frase acompanhe o 2 de março: um dia que não celebra Hegel, mas que parece convocar o que ele quis dizer, que nada floresce sem que alguém se entregue, que nada se renova sem que alguém se mova, que nada se torna grande sem que alguém esteja inteiro no gesto que faz.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

DARWYN FURLAN

Neurociência, Socio-emocional e Educação...uma única estrada

O ser humano não é dividido em partes estanques, razão de um lado, emoção de outro, vida pessoal de um lado, profissional de outro.

Somos uma rede interligada, e a Neurociência tem mostrado isso com clareza, emoção e cognição caminham juntas.  O que sentimos interfere diretamente na forma como pensamos, decidimos e nos relacionamos.

A Gestão Socio-emocional entra justamente nesse ponto de interseção. Saber reconhecer e regular emoções não significa apenas “sentir menos”, mas sentir de forma mais consciente, transformando cada estado interno em possibilidade de crescimento. 

Quando aprendemos a nomear o que sentimos e a lidar com frustrações, ansiedade e alegrias, estamos não só cuidando da saúde mental, mas também fortalecendo a nossa capacidade de aprender, conviver e trabalhar.

Na escola, isso traduz-se em algo poderoso: a criança que compreende as suas emoções aprende melhor. Isso acontece porque a emoção é o filtro da atenção, se a ansiedade domina, o cérebro desvia energia do raciocínio e da memória, prejudicando a aprendizagem. Ao contrário, quando o estudante se sente validado, seguro e integrado, o cérebro liberta neurotransmissores ligados ao bem-estar, como dopamina e serotonina, que ampliam a motivação e a criatividade. A sala de aula, então, deixa de ser apenas espaço de transmissão de conteúdo e torna-se espaço de desenvolvimento integral.

Esse mesmo princípio se repete no mundo profissional. Uma equipa emocionalmente equilibrada não apenas rende mais, mas também cria relações de confiança, sabe mediar conflitos e enfrenta pressões sem colapsar. Aqui, as chamadas soft skills deixam de ser “adicionais” para se tornarem o verdadeiro motor da performance coletiva. Afinal, não há estratégia brilhante que resista a relações tóxicas ou a mentes exaustas.

E na vida pessoal? O reflexo é direto. Famílias que aprendem a dialogar com validação e empatia constroem vínculos mais leves e duradouros. Parceiros que se escutam e respeitam diferenças evitam transformar divergências em ruturas. Amizades que se apoiam emocionalmente tornam-se fontes de saúde psíquica. No fundo, tudo se conecta, as mesmas competências emocionais que ajudam um aluno a aprender ou um profissional a prosperar são as que sustentam a vida em comum.

Quando compreendemos essa unidade, fica evidente que educar para o socio-emocional não é um “extra”, é o próprio caminho para formar seres humanos mais plenos. A neurociência dá a base, a psicanálise aprofunda a compreensão do inconsciente, e a prática cotidiana na escola, no trabalho, na família, transforma teoria em vida. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O DIA EM QUE O CONHECIMENTO GANHOU ASAS

Há datas que passam discretas pelo calendário, mas que mudam silenciosamente o destino do mundo. 23 de fevereiro de 1455 é uma delas. Nesse dia, em Mainz, Johannes Gutenberg concluiu a impressão da sua Bíblia. A primeira grande obra ocidental produzida com tipos móveis. Não houve trombetas, nem proclamações, nem multidões. Houve apenas o som mecânico de uma prensa e a obstinação de um homem que acreditava que a palavra merecia ser multiplicada.

A partir desse gesto técnico, quase artesanal, quase alquímico, inaugurou‑se algo maior do que o próprio Gutenberg poderia imaginar: a democratização do conhecimento. Pela primeira vez, a palavra escrita deixou de ser privilégio de poucos e começou a abrir caminho para muitos. A cultura, que até então se transmitia lentamente, ganhou velocidade. A memória humana encontrou um novo corpo. A ideia de futuro tornou‑se mais larga.

Mas este acontecimento não é apenas histórico. É também simbólico. A Bíblia de Gutenberg marca o momento em que a humanidade percebe que o que se imprime pode sobreviver ao que se sente, e que a palavra impressa não anula a palavra viva, antes a prolonga. É o instante em que a técnica se torna ponte, não barreira. Em que o gesto individual se transforma em herança coletiva. Em que o conhecimento deixa de ser um tesouro guardado e passa a ser um bem partilhado.

Há ainda uma beleza silenciosa neste episódio: Gutenberg deu ao mundo algo sem saber se o mundo lho devolveria. Criou sem garantia de retorno. Acreditou que valia a pena oferecer, mesmo sem promessa de reconhecimento. E talvez seja por isso que esta data ressoa tanto hoje, porque nos lembra que dar é sempre um ato de fé, e que o conhecimento, tal como o amor, só cumpre o seu destino quando se partilha.

No fundo, 23 de fevereiro de 1455 não é apenas o dia em que um livro foi impresso. É o dia em que a humanidade aprendeu a multiplicar a sua própria voz.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A ÚLTIMA MESA DO CAFÉ AURORA

Meu nome é Ernesto Barros. Tenho setenta anos.

E sou o último cliente do Café Aurora.

Durante muitos anos, todas as manhãs, às sete em ponto, sentei-me à mesma mesa — a da janela, com vista para a esquina onde a cidade acordava.

Primeiro com a minha esposa, Marta, e os meus amigos. Depois, sozinho.

Marta se foi há dez anos. Mas eu continuei indo. Por hábito. Por saudade. Por resistência.

O Aurora era mais que um café: era uma espécie de refúgio. Um lugar onde eu via o tempo passar sem pressa. Onde o garçom sabia como eu gostava do café (forte, sem açúcar) e onde os olhos do dono me cumprimentavam sem palavras.

Era também onde encontrei os meus três grandes amigos: Raul, comediante frustrado e poeta de guardanapos. Gustavo, que jurava ter sido astronauta e que tinha uma coleção de histórias — metade mentira, metade verdade. E Arminda, viúva duas vezes, que nos colocava no eixo com um olhar só.

Éramos os "Cinco do Aurora", como nos chamavam os funcionários.

Velhos teimosos, que discutiam política, amor, cinema, guerras e saudades como se fossem assuntos de mesa de bar — e eram.

Mas a vida, essa que ninguém segura, começou a levar os meus.

Primeiro a minha esposa. Raul partiu numa noite de tempestade, com um bilhete no bolso que dizia “foi engraçado enquanto durou”.

Gustavo se foi pouco depois, sem alarde — e com ele, as suas histórias estelares.

Arminda resistiu até o último outono.

Na última vez que a vi, ela segurou na minha mão e disse:

— Você vai ser o último. Porque alguém precisa manter o riso vivo por mais um tempo.

Fiquei.

Na mesma mesa.

Mesmo quando o mundo ao redor mudou.

O bairro ficou mais cinzento, os cafés modernos tomaram conta, e os jovens passaram a andar com fones nos ouvidos, alheios à poesia dos dias.

Até que, numa segunda-feira qualquer, o dono do café aproximou-se com olhos baixos:

— Ernesto… vamos fechar no fim do mês. O movimento não compensa mais.

— Eu entendo — menti.

Naquela noite, voltei para casa e sentei-me na poltrona onde Marta bordava. O vazio era ensurdecedor.

Mas então pensei:

E se fosse o contrário? E se, em vez de esperar que o mundo me esquecesse, eu lembrasse ao mundo o que ele ainda pode sentir?

No dia seguinte, convoquei o filho do dono, um jovem tímido, mas educado, e perguntei-lhe:

— Posso comprar o Aurora?

Ele riu-se, achando que era brincadeira.

— Falo a sério. Não quero mudar nada. Só manter o café vivo. Mas com um novo propósito.

Três semanas depois, o Café Aurora reabriu — com nova placa, novo fôlego, mas a mesma alma.

Passou a funcionar apenas pela manhã, como sempre foi.

Mas agora era um espaço cultural: rodas de leitura, saraus, encontros de gerações.

Jovens vinham ouvir histórias. E idosos voltavam a contá-las.

Servíamos café, sim — mas também memória.

A minha mesa? Continuava ali. À espera. Mas não mais solitária.

Hoje, todas as quartas, conto histórias — algumas minhas, outras da minha esposa, do Raul, do Gustavo, da Arminda.

Outras que inventei só para ver os olhos dos netos dos vizinhos brilharem.

Não sou dono de terras, nem deixei herança.

Mas deixei portas abertas. Histórias no ar. Uma janela para quem quiser olhar.

E às vezes, quando o sol bate na vitrine, eu juro que vejo a Marta, de vestido florido, sorrindo no reflexo, como se dissesse:

— Agora sim. Você voltou a viver. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

FIDEL CASTRO

A 16 de fevereiro de 1959, Fidel Castro assumiu oficialmente o cargo de primeiro‑ministro de Cuba, consolidando o triunfo da revolução cubana e iniciando quase meio século de liderança política.

Esse momento não foi apenas uma nomeação. Foi a passagem simbólica de um movimento guerrilheiro para um projeto de Estado, e é por esse facto que a data tem tanto peso histórico.

Nasceu a 13 de agosto de 1926, em Birán, Cuba, filho de um proprietário rural. Estudou em colégios jesuítas e depois Direito na Universidade de Havana, onde se aproximou de ideias anti‑imperialistas e marxistas.

Participou em ações contra regimes autoritários na República Dominicana e na Colômbia. Em 1953, liderou o ataque ao Quartel Moncada, fracassado, mas decisivo para o mito revolucionário. Foi preso e depois amnistiado.

Exilado no México, fundou o Movimento 26 de Julho com Raúl Castro e Che Guevara. Em 1956 regressou a Cuba no iate Granma e iniciou a guerrilha na Sierra Maestra. A 1 de janeiro de 1959, Batista fugiu, e Fidel Castro entrou triunfalmente em Havana dias depois.

Liderou a revolução que derrubou a ditadura apoiada pelos EUA e instaurou o primeiro Estado socialista do hemisfério ocidental. Sob o seu governo a educação tornou‑se universal e gratuita para o povo cubano. A saúde pública foi amplamente expandida. O analfabetismo foi praticamente erradicado. A mortalidade infantil atingiu um dos níveis mais baixo do continente americano. Estas conquistas são frequentemente citadas como pilares do seu legado.

Em termos geopolíticos e de soberania, enfrentou o embargo económico dos EUA, sobreviveu a tentativas de invasão como a da Baía dos Porcos, e manteve uma aliança estratégica com a URSS, que culminou na Crise dos Mísseis de 1962, um dos momentos mais tensos da Guerra Fria.

A sua capacidade de manter Cuba independente num tabuleiro dominado por superpotências é vista como uma prova de liderança estratégica.

Fidel Castro possuía grande carisma e capacidade mobilizadora. Era um orador de enorme energia, capaz de discursos de horas, e um líder que inspirava devoção entre apoiantes e temor entre adversários. A sua figura tornou‑se símbolo global de resistência anti‑imperialista.

Foi um líder complexo, admirado por muitos pelas conquistas sociais e pela afirmação soberana de Cuba, e criticado por outros pelo carácter autoritário do regime e pela ausência de liberdades políticas.

Fidel Castro faleceu a 25 de novembro de 2016, em Havana, aos 90 anos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ABRAHAM LINCOLN

“Se quiser pôr à prova o carácter de um homem, dêlhe poder.”

Abraham Lincoln nasceu a 12 de fevereiro de 1809, no Kentucky, numa família pobre de agricultores. Cresceu em ambiente rural, com acesso limitado à educação formal, mas desenvolveu desde cedo uma enorme curiosidade intelectual. Era autodidata: lia à luz da lareira, copiava textos para os memorizar e formou-se praticamente sozinho.

Mudou-se para Illinois na juventude, onde trabalhou como lenhador, barqueiro, lojista e, mais tarde, advogado. A sua entrada na política foi gradual, marcada por um talento invulgar para o discurso público e por uma visão moral clara sobre a expansão da escravatura nos Estados Unidos.

Em 1860, foi eleito 16.º Presidente dos Estados Unidos, num país profundamente dividido. A sua presidência coincidiu com a Guerra Civil Americana (1861–1865), o conflito mais sangrento da história do país. Lincoln assumiu a liderança num momento de crise absoluta, defendendo a preservação da União como princípio fundamental.

Em 1863, proclamou a Emancipação dos Escravos nos estados rebeldes, gesto que transformou a guerra numa luta pela liberdade e redefiniu o sentido moral da nação. O seu discurso de Gettysburg, breve e austero, tornou-se um dos textos políticos mais influentes da história.

Lincoln foi reeleito em 1864, mas não viveu para ver a reconstrução do país. A 14 de abril de 1865, poucos dias após o fim da guerra, foi assassinado em Washington. A sua morte consolidou a imagem de um líder que, apesar das falhas e hesitações humanas, encarnou a ideia de que a política pode ser um exercício de consciência.

Hoje, Lincoln é lembrado como um símbolo de integridade, coragem moral e capacidade de liderança em tempos de escuridão.

TRACY CHAPMAN

“A esperança é aquilo que fazemos nascer quando escolhemos não desistir.” Tracy Chapman, nascida a 30 de março de 1964, sempre escreveu a pa...