quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A ÚLTIMA MESA DO CAFÉ AURORA

Meu nome é Ernesto Barros. Tenho setenta anos.

E sou o último cliente do Café Aurora.

Durante muitos anos, todas as manhãs, às sete em ponto, sentei-me à mesma mesa — a da janela, com vista para a esquina onde a cidade acordava.

Primeiro com a minha esposa, Marta, e os meus amigos. Depois, sozinho.

Marta se foi há dez anos. Mas eu continuei indo. Por hábito. Por saudade. Por resistência.

O Aurora era mais que um café: era uma espécie de refúgio. Um lugar onde eu via o tempo passar sem pressa. Onde o garçom sabia como eu gostava do café (forte, sem açúcar) e onde os olhos do dono me cumprimentavam sem palavras.

Era também onde encontrei os meus três grandes amigos: Raul, comediante frustrado e poeta de guardanapos. Gustavo, que jurava ter sido astronauta e que tinha uma coleção de histórias — metade mentira, metade verdade. E Arminda, viúva duas vezes, que nos colocava no eixo com um olhar só.

Éramos os "Cinco do Aurora", como nos chamavam os funcionários.

Velhos teimosos, que discutiam política, amor, cinema, guerras e saudades como se fossem assuntos de mesa de bar — e eram.

Mas a vida, essa que ninguém segura, começou a levar os meus.

Primeiro a minha esposa. Raul partiu numa noite de tempestade, com um bilhete no bolso que dizia “foi engraçado enquanto durou”.

Gustavo se foi pouco depois, sem alarde — e com ele, as suas histórias estelares.

Arminda resistiu até o último outono.

Na última vez que a vi, ela segurou na minha mão e disse:

— Você vai ser o último. Porque alguém precisa manter o riso vivo por mais um tempo.

Fiquei.

Na mesma mesa.

Mesmo quando o mundo ao redor mudou.

O bairro ficou mais cinzento, os cafés modernos tomaram conta, e os jovens passaram a andar com fones nos ouvidos, alheios à poesia dos dias.

Até que, numa segunda-feira qualquer, o dono do café aproximou-se com olhos baixos:

— Ernesto… vamos fechar no fim do mês. O movimento não compensa mais.

— Eu entendo — menti.

Naquela noite, voltei para casa e sentei-me na poltrona onde Marta bordava. O vazio era ensurdecedor.

Mas então pensei:

E se fosse o contrário? E se, em vez de esperar que o mundo me esquecesse, eu lembrasse ao mundo o que ele ainda pode sentir?

No dia seguinte, convoquei o filho do dono, um jovem tímido, mas educado, e perguntei-lhe:

— Posso comprar o Aurora?

Ele riu-se, achando que era brincadeira.

— Falo a sério. Não quero mudar nada. Só manter o café vivo. Mas com um novo propósito.

Três semanas depois, o Café Aurora reabriu — com nova placa, novo fôlego, mas a mesma alma.

Passou a funcionar apenas pela manhã, como sempre foi.

Mas agora era um espaço cultural: rodas de leitura, saraus, encontros de gerações.

Jovens vinham ouvir histórias. E idosos voltavam a contá-las.

Servíamos café, sim — mas também memória.

A minha mesa? Continuava ali. À espera. Mas não mais solitária.

Hoje, todas as quartas, conto histórias — algumas minhas, outras da minha esposa, do Raul, do Gustavo, da Arminda.

Outras que inventei só para ver os olhos dos netos dos vizinhos brilharem.

Não sou dono de terras, nem deixei herança.

Mas deixei portas abertas. Histórias no ar. Uma janela para quem quiser olhar.

E às vezes, quando o sol bate na vitrine, eu juro que vejo a Marta, de vestido florido, sorrindo no reflexo, como se dissesse:

— Agora sim. Você voltou a viver. 

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