Meu nome é Ernesto Barros. Tenho setenta anos.
E sou o
último cliente do Café Aurora.
Durante
muitos anos, todas as manhãs, às sete em ponto, sentei-me à mesma mesa — a da
janela, com vista para a esquina onde a cidade acordava.
Primeiro com a
minha esposa, Marta, e os meus amigos. Depois, sozinho.
Marta se foi
há dez anos. Mas eu continuei indo. Por hábito. Por saudade. Por resistência.
O Aurora era
mais que um café: era uma espécie de refúgio. Um lugar onde eu via o tempo
passar sem pressa. Onde o garçom sabia como eu gostava do café (forte, sem
açúcar) e onde os olhos do dono me cumprimentavam sem palavras.
Era também
onde encontrei os meus três grandes amigos: Raul, comediante frustrado e poeta
de guardanapos. Gustavo, que jurava ter sido astronauta e que tinha uma coleção
de histórias — metade mentira, metade verdade. E Arminda, viúva duas vezes, que
nos colocava no eixo com um olhar só.
Éramos os
"Cinco do Aurora", como nos chamavam os funcionários.
Velhos
teimosos, que discutiam política, amor, cinema, guerras e saudades como se
fossem assuntos de mesa de bar — e eram.
Mas a vida,
essa que ninguém segura, começou a levar os meus.
Primeiro a
minha esposa. Raul partiu numa noite de tempestade, com um bilhete no bolso que
dizia “foi engraçado enquanto durou”.
Gustavo se
foi pouco depois, sem alarde — e com ele, as suas histórias estelares.
Arminda
resistiu até o último outono.
Na última vez
que a vi, ela segurou na minha mão e disse:
— Você vai
ser o último. Porque alguém precisa manter o riso vivo por mais um tempo.
Fiquei.
Na mesma
mesa.
Mesmo quando
o mundo ao redor mudou.
O bairro
ficou mais cinzento, os cafés modernos tomaram conta, e os jovens passaram a
andar com fones nos ouvidos, alheios à poesia dos dias.
Até que, numa
segunda-feira qualquer, o dono do café aproximou-se com olhos baixos:
— Ernesto…
vamos fechar no fim do mês. O movimento não compensa mais.
— Eu entendo
— menti.
Naquela
noite, voltei para casa e sentei-me na poltrona onde Marta bordava. O vazio era
ensurdecedor.
Mas então
pensei:
E se fosse o
contrário? E se, em vez de esperar que o mundo me esquecesse, eu lembrasse ao
mundo o que ele ainda pode sentir?
No dia
seguinte, convoquei o filho do dono, um jovem tímido, mas educado, e
perguntei-lhe:
— Posso
comprar o Aurora?
Ele riu-se,
achando que era brincadeira.
— Falo a sério.
Não quero mudar nada. Só manter o café vivo. Mas com um novo propósito.
Três semanas
depois, o Café Aurora reabriu — com nova placa, novo fôlego, mas a mesma alma.
Passou a
funcionar apenas pela manhã, como sempre foi.
Mas agora era
um espaço cultural: rodas de leitura, saraus, encontros de gerações.
Jovens vinham
ouvir histórias. E idosos voltavam a contá-las.
Servíamos
café, sim — mas também memória.
A minha mesa?
Continuava ali. À espera. Mas não mais solitária.
Hoje, todas
as quartas, conto histórias — algumas minhas, outras da minha esposa, do Raul,
do Gustavo, da Arminda.
Outras que
inventei só para ver os olhos dos netos dos vizinhos brilharem.
Não sou dono
de terras, nem deixei herança.
Mas deixei
portas abertas. Histórias no ar. Uma janela para quem quiser olhar.
E às vezes,
quando o sol bate na vitrine, eu juro que vejo a Marta, de vestido florido,
sorrindo no reflexo, como se dissesse:
— Agora sim. Você voltou a viver.

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