quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A MAIS BELA PROFISSÃO!

Há profissões extraordinárias, mas palhaço em contexto hospitalar é a mais bela…

Já o vivenciei várias vezes, mas recentemente tive o privilégio e a honra de viver um momento único, soberbo, mágico.

“Na cama 14 está o senhor Artur. Penso que não vale a pena visitarem… É um doente com demência em fase terminal, paliativo, não comunica ou, quando o faz, não o entendemos… A família esteve lá há pouco para se despedir dele! É uma situação muito complexa… não recomendo que visitem!” — disse a enfermeira.

“Podemos ir? Podemos tentar, enfermeira?” — dissemos nós. E fomos…

Na primeira tentativa, o senhor Artur estava a dormir…

Na segunda, estava uma enfermeira a falar com ele…

À terceira foi de vez… Parámos à porta e ficámos à espera de um sinal…

“Podemos entrar?” — perguntámos. Os sinais não eram claros, mas entrámos.

“Boa tarde, senhor Artur!” — disse a Marilua.

O olhar era de leitura complexa e os sons que saíam da boca, seca e frágil, eram impercetíveis…

 “Senhor Artur, pediram-nos para vir cá cantar-lhe uma música…” — disse o Risotto. Cantámos o Malhão, Malhão!

E o senhor Artur — pele branca, magro, movimentos lentos — transformou-se! Começou primeiro a bater palmas, depois começou a dançar… foi lindo!

Começou a dançar com braços, mãos e ombros, num movimento característico de quem dança no rancho… extraordinário!!

Olhei para a Marília e os olhos dela brilhavam de felicidade… Os dois olhámos um para o outro, a cantar, mas com um ar de pura felicidade, orgulhosos por poder estar a assistir a um momento mágico, extraordinário, belo, encantador, memorável…

Ao sair do quarto, demos um abraço; os nossos olhos falavam pelo coração…

No caminho para casa, só pensava: como “passo isto para palavras”? Gostava de ter a capacidade de “misturar as letras” e “juntar as palavras” para que pudesse mostrar ao mundo que, em todos nós, em todos os momentos da vida, mesmo nas situações mais duras, mais ou menos complexas, podemos sempre tocar o outro, podemos trazer o outro para o aqui e para o agora. Que, até ao último respirar, devemos sempre cuidar, amar e dar o melhor do mundo ao outro…

Como diz o humanista francês Abbé Pierre: “temos dois olhos: um para ver as coisas belas do mundo e outro para as coisas feias!" Para mim, o mundo está cheio de coisas belas e de gente boa… depende de como olhámos!

Palhaços d' Opital (Jorge Rosado) 

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