No dia 20 de maio de 1506, morria em Valladolid um homem convencido de que tinha mudado o mundo. E tinha. O que ele não sabia — e recusou admitir até ao último suspiro — era que o mundo que mudara não era aquele que imaginava. Cristóvão Colombo partiu desta vida persuadido de que tinha chegado às “Índias”, fiel à sua convicção inicial, impermeável a qualquer evidência em contrário. Morreu certo. E morreu errado.
A ironia histórica é deliciosa: o “descobridor” da América nunca soube que tinha descoberto a América.
Não porque ninguém lho tivesse dito — pelo contrário,
vários cosmógrafos, navegadores e até membros da corte espanhola tentaram
explicar‑lhe que aquelas terras não batiam certo com as descrições asiáticas.
Mas Colombo tinha uma característica que atravessa séculos e continua viva em
muitas figuras públicas de hoje: a incapacidade de rever uma convicção quando
ela já se colou ao ego.
A sua certeza
era tão sólida que se tornou cegueira. Para ele, cada nova ilha era apenas mais
uma prova de que estava certo; cada contradição era um detalhe irrelevante;
cada aviso era um incómodo. A realidade podia mudar, mas a sua narrativa não
mudava com ela. Há quem lhe chame teimosia. Outros chamam‑lhe fé. Hoje, talvez
lhe chamássemos outra coisa: aquela forma de arrogância tranquila que
transforma a opinião própria em dogma pessoal.
E não é
curioso como este traço resiste ao tempo? Quinhentos anos depois, continua a
haver quem ocupe cargos, púlpitos e câmaras de televisão com a mesma convicção
inabalável de Colombo: estar certo é mais importante do que estar correto. A
dúvida é vista como fraqueza, a revisão como derrota, a escuta como perda de
autoridade. E assim, tal como o genovês obstinado, muitos preferem manter o
mapa errado a admitir que o caminho pode não ser aquele.
Colombo
morreu sem saber onde tinha chegado. Mas chegou. E mudou o mundo apesar de si
próprio — ou talvez por causa dessa mesma cegueira que o impediu de recuar. A
História tem destas ironias: às vezes, quem está errado deixa marcas mais
profundas do que quem acerta.
E esta hem!

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