quarta-feira, 20 de maio de 2026

A CEGUEIRA DE COLOMBO

No dia 20 de maio de 1506, morria em Valladolid um homem convencido de que tinha mudado o mundo. E tinha. O que ele não sabia — e recusou admitir até ao último suspiro — era que o mundo que mudara não era aquele que imaginava. Cristóvão Colombo partiu desta vida persuadido de que tinha chegado às “Índias”, fiel à sua convicção inicial, impermeável a qualquer evidência em contrário. Morreu certo. E morreu errado.

A ironia histórica é deliciosa: o “descobridor” da América nunca soube que tinha descoberto a América. 

Não porque ninguém lho tivesse dito — pelo contrário, vários cosmógrafos, navegadores e até membros da corte espanhola tentaram explicar‑lhe que aquelas terras não batiam certo com as descrições asiáticas. Mas Colombo tinha uma característica que atravessa séculos e continua viva em muitas figuras públicas de hoje: a incapacidade de rever uma convicção quando ela já se colou ao ego.

A sua certeza era tão sólida que se tornou cegueira. Para ele, cada nova ilha era apenas mais uma prova de que estava certo; cada contradição era um detalhe irrelevante; cada aviso era um incómodo. A realidade podia mudar, mas a sua narrativa não mudava com ela. Há quem lhe chame teimosia. Outros chamam‑lhe fé. Hoje, talvez lhe chamássemos outra coisa: aquela forma de arrogância tranquila que transforma a opinião própria em dogma pessoal.

E não é curioso como este traço resiste ao tempo? Quinhentos anos depois, continua a haver quem ocupe cargos, púlpitos e câmaras de televisão com a mesma convicção inabalável de Colombo: estar certo é mais importante do que estar correto. A dúvida é vista como fraqueza, a revisão como derrota, a escuta como perda de autoridade. E assim, tal como o genovês obstinado, muitos preferem manter o mapa errado a admitir que o caminho pode não ser aquele.

Colombo morreu sem saber onde tinha chegado. Mas chegou. E mudou o mundo apesar de si próprio — ou talvez por causa dessa mesma cegueira que o impediu de recuar. A História tem destas ironias: às vezes, quem está errado deixa marcas mais profundas do que quem acerta.

E esta hem! 

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